Jornal do Brasil

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

Rio

Maré: "Clima é de apreensão", diz mãe de menino morto no dia da ocupação

Na véspera da entrada das Forças Armadas, Roseane faz relato emocionado

Jornal do BrasilLouise Rodrigues*

“Eu tenho medo de bala perdida e de tiroteio. Quando você está preparado e percebendo o clima, vai para dentro de casa, evita sair. Às vezes a pessoa vai ao mercado e calha de acontecer um tiroteio.” Este não é o depoimento que se espera de moradores das comunidades pacificadas do Rio de Janeiro, mas, contrariando as expectativas, Roseane Guimarães, moradora da Vila Pinheiro, no Complexo da Maré, expõe seu sentimento. Aos 31 anos, a auxiliar de serviços gerais enterrou seu filho, Vinícius, de apenas 15 anos. O adolescente foi assassinado por traficantes com um tiro na boca, no dia 30 de março. Na ocasião, mais dois menores foram baleados. Pouco antes, naquele mesmo dia, as tropas do Governo ocuparam a comunidade, hastearam bandeiras e representantes da Cruz Vermelha soltaram pombas simbolizando a paz.

Em comemoração à pacificação, representantes da Cruz Vermelha soltam pombas brancas para simbolizar a paz
Em comemoração à pacificação, representantes da Cruz Vermelha soltam pombas brancas para simbolizar a paz

A família de Vinícius ainda está longe de ter tranquilidade. Após enterrar o filho, Roseane ainda tem que conviver com o medo. “Eu vejo os policiais andando na rua. A gente não está vendo os traficantes nitidamente como antes, mas a gente sabe que é. O clima é de apreensão, as pessoas estão preocupadas com a chegada das Forças Armadas no sábado”, conta a mãe de Vinícius. Roseane também se preocupa com seus outros três filhos: Yuri (17), Leonardo (12) e Maria Manuela (8). O medo das “balas perdidas”, como ela repete inúmeras vezes, ainda não permite descansar após tanto sofrimento.

No dia 30 de março, Vinícius acordou, tomou café e falou para a sua mãe que ia sair. “Cuidado na rua, garoto. Olha esses ‘polícia’ aí fora”, alertou a mãe. Mas o adolescente a tranquilizou: “Eu vou andar de bicicleta”. Pouco depois o rapaz voltou e perguntou para a mãe se tinha água na geladeira. Ela negou e disse que ainda ia encher as garrafas. O garoto não falou nada, tirou a blusa e colocou em cima da cadeira. Nesse momento um amigo o chamou na porta de casa. Vinícius saiu. “Foi a última vez que vi meu filho com vida”, emociona-se Roseane.

Roseane Guimarães, mãe de Vinícius, lamenta a morte do filho
Roseane Guimarães, mãe de Vinícius, lamenta a morte do filho

Vinícius era um garoto comum: namorava, sonhava em ser jogador de futebol e era fanático pelo time do coração, o Botafogo. Vaidoso, não saía de casa se não estivesse com os cabelos cortados. Toda a semana ia ao barbeiro e, quando não tinha dinheiro, pedia para que o irmão mais velho ajudasse a cortar. A mãe não poupa elogios ao filho de 15 anos: “Ele era uma criança boa”. Roseane conta que, quando o marido estava trabalhando, Vinícius gostava de deitar com ela e dormir. “Era ajuizado, nunca me deu dor de cabeça”.

A surpresa, porém, veio quando a família descobriu que Vinícius foi baleado quando participava de uma “guerra de pedras”, comum entre facções rivais na comunidade. “Eu não sabia que ele ia para essas guerras. Fui para a casa de uma tia e vi um tumulto. Já estava ouvindo que uma pessoa tinha sido baleada na boca, só não sabia que era ele. Até porque eu não moro ali na Baixa do Sapateiro, moro na Vila do Pinheiro. Jamais eu ia imaginar que meu filho ia ser baleado ali, naquele exato momento”, relata Roseane.

Entre todos os questionamentos que atingem uma mãe que enterra seu filho, a auxiliar de serviços gerais ainda tenta entender como uma briga de facções poderia acontecer no mesmo dia em que a comunidade era tomada pelas forças policiais. “Eu nunca imaginei que ia ter um tiroteio, que ia morrer um e balear dois na pacificação. Justamente nesse dia meu filho morreu”, contesta. Roseane também questiona a localização da base do Batalhão de Choque. A bandeira, fincada entre a Vila Pinheiro e a Baixa do Sapateiro, foi erguida em um território sem confronto entre o Terceiro Comando Puro e o Comando Vermelho, facções que dominam o Complexo da Maré. “Essa bandeira tinha que ser erguida lá na divisa, onde tem a guerra tanto com as crianças, quanto com os adultos. Ali é preciso apaziguar. Se a base estivesse lá, hoje eu não estaria aqui dando entrevista e nem teria enterrado meu filho”, desabafa a mãe de Vinícius.

Mãe e padastro de Vinícius Guimarães defendem o adolescente: "Não era bandido!"
Mãe e padastro de Vinícius Guimarães defendem o adolescente: "Não era bandido!"

Roseane também contesta a versão divulgada por um telejornal que, segundo ela, acusou Vinícius de ter envolvimento com o tráfico. “Disseram que era guerra de ponto de venda de droga. Meu filho nunca foi traficante, nunca se envolveu com tráfico. Nem usuário ele era”, defende. Ainda segundo ela, Vinícius e os amigos estavam brincando com sacos de água quando resolveram ir para a divisa da comunidade. “Eu creio que ele foi porque os colegas estavam indo. Ele devia estar naquela empolgação, um colega chamou e ele foi”, conta a mãe. Após a confirmação da morte do adolescente, a mãe conta que o amigo que foi buscá-lo em casa fez o reconhecimento do corpo. Ele falou também acusou um traficante, conhecido como Caveirinha, de ter efetuado o disparo. Roseane conta que pelo menos 30 crianças participaram da confusão.

Durante a briga, Caveirinha teria sacado uma arma e disparou conta Vinícius, que morreu no local.  A bala lesou o coração, o pulmão esquerdo, o baço, o estômago e o rim esquerdo. A causa da morte foi uma hemorragia interna. “Não tinha nem como salvar”, lamenta a mãe.  Ainda segundo Roseane, o mesmo traficante, que era menor de idade, havia ameaçado Vinícius de morte no final do ano passado. Pelo Facebook, Caveirinha teria jurado matar o adolescente, que comentou com a mãe e o padrasto o ocorrido. “Ele comentou em casa, mas não parecia preocupado. Até porque eles moram longe. Ele só excluiu esse menino do Facebook”, conta Roseane. Sobre o motivo da ameaça, ela acredita que tenha sido algo relacionado com a “guerra de pedras”, mas que não podia afirmar, uma vez que não sabia se o filho já teria participado de outras brigas.

Padrasto e mãe do Vinícius elogiam Vinícius: "Era um bom garoto"
Padrasto e mãe do Vinícius elogiam Vinícius: "Era um bom garoto"

José Mendes, padastro de Vinícius, fala pouco. Contudo, faz questão de defender o enteado. “Ele nunca teve envolvimento com droga, nem era usuário, nem nada”, enfatiza. Sobre a primeira versão apresentada pela Polícia, de que a briga teria sido consequência de um desentendimento durante um jogo de futebol, ele é categórico: “É mentira”. O ajudante de pedreiro, de 38 anos, explica que, por se tratarem de facções rivais, a possibilidade de uni-los em uma partida de futebol era nula.

José fala do enteado com carinho. “Minha relação com ele era maravilhosa. Um garoto que me respeitava, brincava comigo... não tenho o que falar”, conta. O padrasto relembra a última vez que falou com Vinícius: “Foi de manhã. Quando ele acordou, eu agarrei, dei um beijo nele. Ele foi pra rua, voltou e eu agarrei e dei um beijo nele de novo”. O casal lembra que, em situações como essa, Vinícius brincava: “Para com isso, cara, me larga. Oh, mãe, ele fica toda hora me agarrando” e ria.  “Não tenho mais condições de falar”, finaliza emocionado.

A dor da perda também é difícil para os irmãos do adolescente. Yuri e Leonardo dividiam quarto com Vinícius e ainda estão se acostumando com a cama vazia. Roseane conta: “Leonardo só fala do Vinícius como se ele estivesse vivo. O Yuri está bem sentido, eles tinham idades próximas, eram muito amigos. A Manuela também sente falta dele”. Em um desabafo, a mãe de Vinícius completa: “A situação está muito complicada, você nem imagina”.

Despedida

Vinícius Guimarães tinha 15 anos e foi assassinado com um tiro na boca
Vinícius Guimarães tinha 15 anos e foi assassinado com um tiro na boca

Vinícius Guimarães foi enterrado no dia 1º de abril, no Cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador. O enterro do adolescente foi marcado por momentos dramáticos. Roseane conta que os amigos do rapaz estavam inconformados e precisaram ser contidos. “Achei que eles iam levantar o meu filho do caixão”, lembra. A namorado de Vinícius, uma menina de 14 anos, estava inconsolável. Segundo a mãe do rapaz, Rafaela pedia o tempo todo para que o namorado voltasse.

Após enterrar o filho, Roseane tenta “levar a vida”. Para ela, um dos hábitos mais difíceis de se desfazer é chamar pelo nome de garoto e deixar ordens das coisas que ele teria que fazer naquele dia. “Sempre aquela lembrança, o costume, o convívio dentro de casa. A gente olha para um lado e lembra, olha para o outro e lembra. É uma sensação horrível. Parece que o chão está se abrindo, você quer parar o mundo. Eu enterrei meu pai há menos de um ano, ele era tudo pra mim. Mas a dor de perder meu filho foi maior. Eu já estava conformada que meu pai ia partir. Ele estava doente. Então eu sabia que a qualquer momento ia ter uma notícia ruim, por isso estava me preparando. Mas o meu filho... ninguém estava esperando. A gente não estava preparado para isso, nem para o jeito que foi...” e, após uma pausa, a moradora da Maré que tem medo de bala perdida completa: “...arma de fogo!”.

*Do Projeto de Estágio do Jornal do Brasil

Tags: enterro, josé, maré, morte, namorada, pacificação, roseane, tiro, tráfico, vinícius guimarães

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