Jornal do Brasil

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Rio

Rio: em ato contra ditadura, autoridades cobram o governo

Portal Terra

Autoridades e um familiar de vítima de crime cometido durante a ditadura aproveitaram um ato que marcou os 50 anos do golpe militar, no Rio de Janeiro, para cobrar que o Estado brasileiro esclareça a verdade sobre as violências cometidas nos anos de repressão. Nesta segunda-feira, a prefeitura do Rio de Janeiro inaugurou o Circuito da Liberdade, um roteiro com placas em lugares da capital fluminense que foram importantes na luta contra a ditadura brasileira. 

Durante a inauguração da placa que homenageia Lyda Monteiro da Silva, secretária da presidência da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que morreu em 1980 ao abrir uma carta-bomba, o presidente da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro, Wadih Damous, afirmou que o Estado, inclusive as Forças Armadas, têm que dizer onde estão os corpos dos desaparecidos políticos, pois não há mais meios de encontrá-los.

Para ele, é inadmissível que o Ministério da Defesa não se pronuncie sobre relatos feitos às comissões da verdade, como a de um agente da repressão que disse como a ditadura se desfazia dos corpos de militantes políticos. “Cabe ao Ministério da Defesa vir a público e dizer se o que esse agente disse é verdade ou não. A maldade contra os familiares não pode perdurar. Continuar calado e não dizer nada é ser cúmplice”, afirmou Damous. Ele disse que fará uma campanha com todas as comissões da verdade do País para pressionar o governo brasileiro.

O filho de Lyda, o professor de Direito Luiz Felippe Monteiro Dias, afirmou esperar um pronunciamento do ministro da Defesa, Celso Amorim, sobre a morte da mãe dele, que ele não considera esclarecida. Lyda morreu ao abrir uma correspondência destinada ao então presidente da OAB, Eduardo Seabra Fagundes. Na época, a OAB insistia na identificação de agentes de serviço de segurança acusados de sequestrar e agredir o jurista Dalmo Dallari. Wadih Damous não acredita que o americano Ronald Waters, ligado a grupos de extrema direita e apontado por inquérito como o culpado pela morte de Lyda, tenha sido de fato o responsável pelo crime.

“O inquérito da Polícia Federal foi monitorado pelo Exército. Ele não é o verdadeiro autor, ele foi plantado. Temos indícios de que a verdadeira autoria recai sobre os autores do atentado do Riocentro. Provavelmente o sargento Guilherme do Rosário, que morreu na explosão da bomba do Riocentro, foi o agente do Doi-Codi (órgão da repressão) que entrou no prédio da OAB e levou a correspondência que acabou matando a Lyda”, disse Damous.

Filho de Lyda, Luiz Felippe Monteiro Dias afirmou que quer ver a morte da mãe esclarecida. “O Ministério da Defesa tem que ajudar a esclarecer quem matou a minha mãe. O silêncio das Forças Armadas e do Ministério da Defesa ultrapassa os limites do corporativismo. Espero que o ministro Celso Amorim faça um pronunciamento sobre isso”, disse Dias.

Além do prédio onde Lyda foi morta, receberam placas o sindicato dos bancários, no Centro (onde aconteceram assembleias de mobilização social), a igreja de Nossa Senhora da Salete, no Catumbi, (onde perseguidos políticos ficavam escondidos) e um prédio na Avenida Presidente Vargas, no Centro, pois a via foi palco do Comício das Diretas Já em 1984, que reuniu um milhão de pessoas. A Central do Brasil, onde João Goulart discursou para 150 mil pessoas em 13 de março de 1964, também ganhou uma placa. Receberam placas, ainda, o local onde funcionou o escritório de advocacia de Sobral Pinto, que defendia presos políticos, no centro da capital e o sindicato dos metalúrgicos, em São Cristóvão, importante local de mobilização social.

Tags: aniversário, ditadura, golpe, militarm, RJ

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