Jornal do Brasil

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Rio

Cardeal sugere a governantes que escutem moradores da Maré

Dom Orani quer que paróquias sejam 'parabólicas' dos desejos do povo 

Jornal do Brasil

Preocupado com o futuro dos moradores do Complexo da Maré, ocupado pelas forças de segurança neste fim de semana, o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta, fez um pedido às autoridades: que escutem os moradores antes de qualquer intervenção no local. “Nem sempre o que nós achamos que eles precisam é que eles realmente querem”, disse o cardeal nesta segunda-feira, após um almoço na Associação Comercial do Rio onde foi homenageado. 

Dom Orani ressaltou que a retomada de um local por parte do governo é um primeiro passo, mas que é importante ver o lado humano. “As pessoas agora precisam ter direito a mais dignidade, mais educação, mais saúde, mais tempo de lazer”, afirmou.

Dentro do seu estilo de cobrar e sugerir às autoridades por e-mail ou por mensagem de celular, Dom Orani passou o fim de semana dando ideias ao governador Sergio Cabral e ao prefeito Eduardo Paes do que fazer a partir de agora na Maré. “Estou sugerindo que os governos escutem o que a comunidade quer e que vá ao encontro de suas necessidades”. “Enfim, todo um trabalho muito grande que se tem pela frente, porque, evidentemente, a ocupação faz com que o território volte ao Estado, mas, sem dúvida, tem toda uma questão, que as pessoas que lá estão necessitam ser promovidas, escutadas”.

O cardeal está orientando também que as paróquias que estão localizadas dentro da Maré sejam uma espécie de parabólica dos desejos da população. “Temos em todas as comunidades do Rio de Janeiro, paróquias e capelas que residem nesses lugares e conhecem bem as realidades. Tenho orientado que nossos padres ouçam as comunidades e passem para as autoridades. Eu mesmo desenvolvo um trabalho de sugerir aos governantes que escutem o povo que mora nessas regiões para saber o que eles desejam, quais são suas necessidades, seus problemas. Temos que ir de encontro à vontade deles e de suas necessidades”, avaliou.

Golpe de 64

Em alusão ao dia 31 de março, que marca o golpe de 1964 e a ditadura militar no Brasil, o cardeal salientou que “toda questão da violência, que está no coração do homem, seja lá de que lado ele estiver da sua ideia de poder, sempre é muito ruim”.

"Nós fomos criados para a paz, para o entendimento. E quando nós vemos as guerras, brigas, revoluções, nós não nos entendemos. É muito ruim para todos. Acho que cabe a nós aprendermos com as lições do passado - todas elas - e tentarmos trabalhar para que a paz aconteça", ressaltou Dom Orani.

Balanço da jornada

No próximo dia 6, em sua primeira viagem ao exterior, já como cardeal do Brasil, o arcebispo do Rio de Janeiro vai entregar os símbolos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) – a Cruz Peregrina e o Ícone de Nossa Senhora -  à cidade de Cracóvia, na Polônia, que sediará o próximo encontro da juventude com o papa Francisco.

Nos três dias que antecedem o Domingo de Ramos (10, 11 e 12 de abril), o cardeal participará do encontro do Pontifício Conselho para os Leigos (PCL), órgão da Santa Sé responsável pela JMJ, no qual dom Orani Tempesta apresentará um relatório do evento ocorrido no Rio de Janeiro, em julho do ano passado. Haverá representantes dos jovens católicos do mundo inteiro, que falarão  de sua experiência na capital fluminense. O cardeal não quis, entretanto, abordar como está a dívida remanescente da JMJ no Brasil. As estimativas apontam que, depois da doação de R$ 11,7 milhões do papa Francisco, a dívida está abaixo de R$ 30 milhões.

No Domingo de Ramos, dom Orani receberá a Igreja Santa Maria Mãe da Providência, situada no bairro de Monteverde, em Roma, que terá o seu brasão e a sua foto. É tradição que todo aquele que é nomeado cardeal passe a ser titular de uma igreja, na capital da Itália.

Segundo dom Orani, o fato de ter um cardeal a mais no Brasil significa um olhar do papa para o país, e o incentiva a respeitar cada vez mais as diferenças com outras culturas e religiões e a trabalhar para que tudo ocorra dentro de um ambiente de harmonia e convivência. Destacou que as lições de acolhimento e fraternidade, observadas durante a JMJ no Rio, devem ser  atualizadas pensando no futuro.

Com Portal Terra e Agência Brasil

Tags: cardeal, desejos, Favelas, orani, palestra

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