Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

Rio

Governo do Rio justifica falta de investimento na saúde

Classe médica, no entanto, confirma a escassez de recursos

Jornal do BrasilPor Camila Funare*

Em resposta a pesquisa de Perfil dos Estados Brasileiros do IBGE, o secretário estadual de Planejamento e Gestão, Sérgio Ruy Barbosa, afirmou em uma coletiva de imprensa, na tarde de hoje (11), que o estado cumpriu sua obrigação legal com o setor, investindo quase R$ 4 bilhões, o equivalente a 12,4% da arrecadação líquida de impostos. O levantamento do IBGE classificava o Rio de Janeiro como o estado que menos investiu em saúde pública no país, em 2013, atingindo um percentual de 7,2%, inferior a cota mínima de 12% prevista pela constituição. A classe médica criticou esse percentual, levando em consideração que o estado apresenta o 2° maior PIB do Brasil, perdendo apenas para São Paulo.

Para o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (SindMed/RJ), Jorge Darze, a pesquisa é válida e confirma os anúncios de caos na saúde pública do estado. “O setor tem um histórico lamentável aqui no Rio. Em 2005, a saúde pública foi alvo de intervenção federal, no governo do presidente Lula. Recentemente, o Ministério da Saúde também revelou uma pesquisa indicando que o SUS do Rio tem a pior assistência prestada no Brasil. Tendo a maior rede pública do país e um corpo de funcionários de alta qualidade, essa assistência de baixa qualidade não deveria existir”, garantiu.

Darze afirmou, também, que a situação nas unidades da Rede Hospitalar Federal demonstra a falta de investimento do governo no setor. “Para avaliar o sistema de saúde pública de uma região, basta ver a política salarial que se aplica, porque ela vai ser coerente com a assistência. Se o salário do médico no Rio de janeiro é o pior do país [R$ 280 no vencimento básico], a análise de que a assistência dada é de péssima qualidade está coerente. A nossa situação, comparada com os outros estados da federação, inclusive no nordeste, não tem as mesmas cenas de assistência. Claro que há situações inadequadas, mas nunca ao ponto de violentar a dignidade humana, como internar paciente deitado no chão ou em prateleiras, como ocorre aqui. A saúde pública do Rio de Janeiro tem uma característica pouco usada, mas muito coerente, de genocídio. Boa parte da população perde a vida prematuramente por incapacidade do sistema de assistência médica”, exclamou sua indignação.

De acordo com Sérgio Ruy Barbosa, o resultado da pesquisa não levou em consideração a diversificação de receitas no orçamento do estado, o que fez com que o peso da despesa com saúde ficasse proporcionalmente menor. O secretário acrescentou, também, que os critérios do índice constitucional no Rio de Janeiro dizem respeito basicamente ao pagamento de servidores ativos e a manutenção de serviços de saúde, o que em outros estados inclui despesas com aposentados e pensionistas da área, além de construção de hospitais.

Em denúncia ao Jornal do Brasil, uma paciente que foi socorrida, na última terça-feira (11), no Hospital Rocha Maia, em Botafogo, zona sul do Rio, informou que na mesma enfermaria onde inúmeras pessoas eram medicadas, outros levavam pontos. Vale ressaltar que todos esses atendimentos ocorriam em um ambiente com chão coberto de sangue contaminado. No setor de raio X, por exemplo, pacientes esperavam mais de três horas para obter o exame finalizado, uma vez que a máquina estava quebrada.

O especialista ressaltou, porém, que mudar o governo do estado é indispensável para que o corpo de funcionários e a população tenham esperança de melhorias no setor. “O governo do Sérgio Cabral já chegou ao fim, pois a situação não vai melhorar se permanecer em suas mãos. O projeto dele é dinamitar o que é público e criar o novo ligado ao privado. O irônico é que todas essas autoridades, quando adoecem, não se tratam nesses hospitais que disponibilizam para população, e sim no Sírio Libanês, em São Paulo”, disse Jorge Darze.

Além de ratificar o investimento mínimo de 12% no setor, a Secretaria de Estado de Saúde citou, por meio de nota, os últimos investimentos feitos no segmento, como hospitais especializados. Entre eles, o Hospital Estadual da Criança e o Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer, em 2013, e o Rio Imagem, em 2011. Projetos recém-construídos com êxito e tecnologia avançada, mas que foram criticados pelo presidente do SindMed/RJ.

“Todas essas unidades, com tecnologia de ponta, foram privatizadas. Ou seja, o que tem hoje na rede pública de saúde e que pode representar um nível de qualidade melhor está sobre a gestão privada. Cabe ressaltar que todas essas novas unidades forem entregues ao setor privado sem que houvesse a devida licitação estabelecida. Deveria haver uma auditoria para fiscalizar esses novos projetos, a fim de verificar se há indícios de irregularidades”, explicou Darze.

Em contrapartida, a professora de Saúde Pública da UFRJ, Lígia Bahia, afirma que o estado investiu no setor, mas com recursos federais, o que pode ter alterado o resultado da pesquisa. Mas, para a especialista, este não é a principal questão no segmento. “Tem equipamentos nessas novas unidades de saúde que custam em média R$ 1 milhão. A grande preocupação envolvendo a saúde pública no Rio de Janeiro é saber se essas novas unidades terão o mesmo investimento necessário para serem mantidas. Os hospitais federais também tiveram um investimento inicial, mas foram abandonados. Hoje assistimos a deterioração dos hospitais públicos”, explicou Bahia.

A pesquisa de Perfil dos Estados Brasileiros de 2013 destacou, também, que os estados com os maiores orçamentos proporcionais para a Saúde (em relação ao orçamento total), foram Tocantins (16,9%), Minas gerais (16,3%) e Pernambuco (16,2). Enquanto os menores orçamentos eram do Paraná (9%), Mato Grosso do Sul (8,7%) e em último colocado no ranking, Rio de Janeiro (7,2%).

*Do projeto de estágio do Jornal do Brasil

Tags: hospitais;, IBGE, investimento;, público;, rio;, saúde;

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