Jornal do Brasil

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Rio

ISP: viôlencia física, sexual e moral contra a mulher cresce no Rio

Nova iguaçu ficou na primeira posição de "mais violento" em quatro itens criminais

Jornal do BrasilPor Camila Funare*

Estresse pós-traumático, síndrome do pânico, depressão e baixa autoestima. Essas são apenas algumas das sequelas vividas pelas vítimas de violência contra à mulher. Mesmo um século após seu surgimento, o Dia Internacional da Mulher, comemorado hoje (8), ainda luta para conquistar direitos fundamentais na sociedade, como segurança pública para a mulher brasileira. Segundo o Dossiê Mulher 2013 do Instituto de Segurança Pública (ISP), os índices de ameaça, lesão corporal, tentativa de estupro e estupro subiram significativamente de 2011 para 2012 no estado do Rio de Janeiro. Vale ressaltar que Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, atingiu o primeiro lugar nos quatro crimes em crescimento.

De acordo com a pesquisa, o índice de violência física, que compreende lesão corporal dolosa, subiu de 54.607 casos, em 2011, para 58.051, em 2012. As ocorrências de violência sexual, que corresponde aos casos de tentativa de estupro e estupro, cresceram de 377 e 4.022, respectivamente, em 2011, para 387 e 4.993, em 2012. Já o item violência moral, que atribui os crimes de calúnia, injúria, difamação e constrangimento ilegal atingiu a marca de 55.171 casos em 2012, contra 54.253, em 2011.

Para Teresa Maria Rocha de Lima Pezza, titular da Delegacia Especial de Atendimento a Mulher (DEAM), em Nova Iguaçu, a violência psicológica e moral são as mais vivenciadas na região. “Os principais casos são de lesão corporal, ameaça e injúria. Este último, com grande incidência de registros atualmente. Hoje, as mulheres já estão registrando também até xingamentos (injúria), que vem antes da ameaça. São casos de violência psicológica ou moral, constrangimentos em público ou feitos em casa, como chamar a mulher de velha ou gorda, que baixa a autoestima da mulher. Antes, as mulheres registravam mais ameaças e agressões físicas”, analisou a delegada.

Pezza acrescentou que há, também, grande incidência do descumprimento da medida protetiva, artigo 359 do Código Penal e ponto alto da Lei Marinha da Penha. Contudo, para muitas vítimas essa punição não é suficiente. É o caso da médica Cristiane Marcenal, de 41 anos, conhecida pelo caso “Joaninha”, em 2010. Joanna, filha de Marcenal e na época com apenas 5 anos de idade, faleceu depois de supostos maus-tratos do pai, André Rodrigues Martins e da madrasta Vanessa Maia.

Em entrevista ao Jornal do Brasil, a mãe da criança afirmou que, além da dor da perda, enfrentou diversas ameaças de vingança, quiçá de morte, do ex-marido. Cristiane Marcenal também falou sobre a dificuldade das vítimas em reagir às agressões físicas. “As pessoas têm a tese de que as mulheres que apanham encontraram seus companheiros em um baile funk ou em um bar sujo. Eu conheci meu ex-marido no banco de uma igreja evangélica. Mas a primeira vez que ele, de fato, me agrediu foi quando eu estava grávida da Joanna, mas já separada dele. Eu já não tinha mais contato com ele, por conta de diversas ameaças que ele já tinha feito. Mas ele fingiu suicídio para me atrair e me espancou grávida. Eu não tive coragem de dar queixa, mas não por vergonha de ter apanhado, e sim pelo constrangimento que poderia causar aos meus familiares, principalmente meus pais”, explicou a vítima.

Mas os problemas com o ex-marido não pararam por aí. A médica lidou com diversas injúrias de André, além de outras agressões físicas, não só a ela, como também a sua mãe. “Uma vez deixei a Joanna dormir na casa dele. Fui colocar ela no carro, mas ela começou a chorar. Ele, tentando impedir que eu tirasse a menina do carro, então fechou a porta em cima de mim e me empurrou em cima de alguns vasos de argila, que chegaram a quebrar. Na época eu já estava grávida do meu casal de gêmeos, filhos do meu atual marido. O mesmo aconteceu com minha mãe, quando tentamos permitir que ele levasse Joanna novamente. Além desses episódios, inúmeras ameaças aconteceram depois que minha filha faleceu. Mesmo com a medida protetiva, na qual ele não podia ultrapassar os 200 metros de distância de mim e nem se comunicar, ele dava um jeito de tentar me atingir, seja por emails fake ou ligações anônimas”, contou.

Para Marcenal, as sequelas da trágica história da sua filha adicionadas às constantes ameaças do ex-marido deixaram marcas profundas na sua saúde mental. “Mesmo sendo médica e tendo instrução e cultura, sofri e sofro síndrome do pânico, com medo dele vir atrás de mim. Sonhei diversas vezes, inclusive, que ele está me perseguindo. Tive depressão pós-parto nas minhas duas gestações, que também foram de risco devido ao estresse que eu passava. Qualquer mulher que passa por violência, seja ela física ou psicológica, nunca mais se torna a mesma. Eu faço de tudo para ser feliz, mas sei que nunca mais serei aquela Cristiane. Eu já nem sei se torço para ele ser preso, porque tenho medo dele vir atrás de mim, quando for solto, e tentar me matar”, desabafou.

Segundo a psicóloga Cristiane Fernandes, que há 6 anos acompanha mulheres que sofreram agressões, no Centro Integrado de Atendimento à Mulher (CIAM), a violência psicológica, sem dúvida, é o mais presente. “Essa se faz presente em todas as outras violências. Ninguém que passa por uma situação dessas, sai ileso. A mulher pode sofrer violência no seu cotidiano e começar a reproduzir a padronização dessa violência naturalmente no seu cotidiano. Além disso, a síndrome do pânico, o estresse pós-traumático, a depressão e a baixa autoestima são sequelas comuns em mulheres que sofreram desde injúrias a agressões físicas ou sexuais”, explicou a especialista.

Para Fernandes, a violência contra a mulher é "democrática". “Trabalho nesse segmento há mais de 12 anos, e não trabalho com o mapeamento do crescimento da violência. Acredito que ela seja democrática, ou seja, não está limitada a um espaço geográfico ou a uma classe social”, disse a psicóloga.

Segundo o levantamento do ISP, o perfil das vítimas representam em sua maioria (55,8%) mulheres entre 25 e 44 anos. Desta porcentagem, 31,9% entre 25 e 34 anos; 47,7% brancas e 51,3% solteiras. Já os perfis dos agressores são, em 50% dos casos, ex-companheiros ou companheiros, em 15,5%, sem nenhuma relação, em 12,3%, conhecidos das vítimas (colegas de trabalho, amigos e vizinhos) e 10,4%, parentes (pais e padastros).

Ainda de acordo com a delegada Tereza Pezza, a mulher contemporânea está mais conscientizada sobre os seus direitos, mas ainda há uma barreira cultural a ser vencida. “As mulheres estão tendo mais coragem de denunciar, de registrar as agressões, porque estão vendo que a polícia está ajudando, investigando, agindo e punindo os agressores. Contudo, ainda há um entrave cultural. Multas mulheres cresceram vendo suas mães apanhando em casa de seus maridos e pensam que elas têm que se sujeitar a isso porque dependem financeira e economicamente deles. Mas hoje elas sabem que têm deveres, mas também direitos. Sabem que se os seus direitos não forem respeitados, os agressores serão punidos", esclareceu.  

Tags: dia;, internacional;, levantamento;, mulher;, violência;, Vítimas

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.