Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Rio

Cantagalo e Gramacho: o trabalho solidário que muda vidas

Rutti e Cássia contam suas histórias de solidaridade, altruísmo e amor pelas crianças

Jornal do BrasilLouise Rodrigues

Funcionária concursada de um banco, Cássia Oliveira sonhava em trabalhar com música. Já tinha um curso técnico, mas precisava se atualizar. Resolveu fazer dois anos de conservatório e realizar seu sonho. Moradora da Tijuca, ela foi convidada para trabalhar na favela do Cantagalo. Em 1996, assumiu o Projeto Musical do Cantagalo. “Nunca tinha entrado em uma favela antes. Quando cheguei lá, tinham 60 crianças e eu percebi que era ali que eu queria estar”, conta Cássia. Neste Dia Internacional da Mulher, comemorado neste sábado (8), este é um dos exemplos de mulheres que fazem a diferença com delicadeza e amor.

Por se tratar de uma comunidade na Zona Sul, o Cantagalo contava com muitos projetos sociais. Por isso, o projeto em que Cássia trabalhava perdeu o apoio e chegou ao fim, para a tristeza da professora. Ela, então, passou a buscar ajuda na internet e conseguiu doações de alguns instrumentos. Decidiu que se mudaria para o Cantagalo, a fim de ficar mais perto dos alunos. Para isso, alugou seu endereço na Tijuca.

Rutti Borges com Ester, no lixão
Rutti Borges com Ester, no lixão

Assim, em 1999, nasceu o Harmonicanto. Através dele, crianças e adolescentes em situação de risco social, na faixa etária de 4 a 20 anos, moradores das comunidades do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho têm aulas de musicalização infantil, canto, piano, teclado, flauta doce, bateria, violão, percussão, canto coral, assim como outros instrumentos.

Contudo, em 2011, após a chegada da UPP, veio o segundo problema. A casa que Cássia alugava na comunidade teve que ser devolvida à proprietária. Com a ajuda das mães dos alunos, a professora conseguiu outro lar, mas o projeto perdeu sua sede. Foi quando apareceu a oportunidade de transferi-lo para o Engenho Novo. “Quando o comandante Sena soube que teríamos que nos mudar, cedeu um espaço no prédio do CIEP. Hoje temos dois núcleos”, lembra Cássia.

Atualmente, mais de 75 crianças são contempladas pelo projeto que, além de ensinar música, também oferece oficinas. O Harmonicanto não recebe patrocínio e, apesar do apoio da comunidade, atua de maneira quase informal. Ainda assim, Cássia não pensa em desistir. “É um sonho realizado. O projeto atinge crianças de uma forma não só musical e pode melhorar suas vidas. Eu olho pra frente e penso nas famílias que ainda vamos ajudar porque não mudamos apenas a vida das crianças. Eu tenho fé e, pela fé, nada me faltou”, se emociona a professora.

O altruísmo de Cássia poderia ter inspirado outra mulher, Rutti Borges Ribeiro. O fato é que elas não se conhecem, nunca se viram, mas a vontade de fazer o bem aproxima essas mulheres. O que as une é o amor pelas crianças.

Há um ano e meio, Rutti começou a realizar um trabalho voluntário do lixão de Gramacho, na Baixada Fluminense. A partir daí, a vida da enfermeira mudou completamente e ela ganhou uma grande amiga. “Ela me ensina muito porque ela é feliz. Eu não tenho direito de não ser feliz”, define Rutti.

Tudo começou quando uma amiga de Rutti comentou sobre uma menina que estava com uma ferida que já chegava ao osso e pediu para que a enfermeira fosse até lá para vê-la. “Eu cuidei, limpei o machucado e fiz vários curativos. Com o passar do tempo, ela ficou boa. A partir de então a gente se apaixonou”, conta Rutti. A menina se chama Ester,tem 10 anos e mora no lixão com a mãe, o padrasto e seis irmãos.

Cássia Oliveira na inauguração do núcleo Lectícia Fonseca, no Engenho Novo
Cássia Oliveira na inauguração do núcleo Lectícia Fonseca, no Engenho Novo

Rutti conta que começou a levar a menina para sua casa uma vez por semana. Ao final do dia, Ester volta para casa “sempre muito feliz”, como conta a enfermeira. Ela não se considera "mãe" de Ester, mas o carinho fraterno pela menina move a enfermeira a estar sempre por perto. “Eu quero estar do lado dela quando ela tiver idade para pensar que não precisa trabalhar com o lixo e nem morar lá no lixão. Quando ela quiser sair de lá para estudar, trabalhar e viver a vida dela, vai ter uma amiga. A mãe dela já não trabalha mais com o lixo, mas ainda mora no lixão”, esclarece Rutti.

O trabalho voluntário se tornou uma grande paixão para a enfermeira, mas a dificuldade de conseguir ajuda incomoda. “As pessoas são muito fechadas. Elas acham que você precisa ir pra África para ajudar e não enxergam que tem gente do seu lado, na sua cidade, precisando também. Então, eu resolvi ser feliz: não peço nada para ninguém e dou o pouco que eu tenho”, declara. Ainda assim, Rutti não pensa em trabalhar nas ONGs que atendem os moradores do lixão. “Eu gosto de ficar mais livre para amenizar o que aquela família está precisando”, conta a enfermeira.

A enfermeira não sabe quantas famílias são contempladas por seu trabalho. Ela conta que já questionou as ONGs, mas não existe um controle do número de famílias que moram no lixão. Ela acredita em cerca de 200 famílias e diz que todas são muito grandes. Sobre o trabalho voluntário que ainda realizada, ela explica que vai de casa em casa para ver o que as famílias estão precisando. “Pode ser desde um curativo até uma conversa, para bater papo mesmo. Às vezes eu identifico que aquela casa precisa de comida e eu volto lá no dia seguinte”, explica.

 

Tags: Dia, exemplo, história, mulher, personagem

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