Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Rio

Surrealismo nos preços justifica queda de acomodações no carnaval 2014

Obras na cidade e falta de publicidade no exterior também contribuíram para queda

Jornal do BrasilPor Camila Funare*

O número de acomodações no carnaval deste ano no Rio de Janeiro teve uma queda de aproximadamente 10 pontos percentuais em relação ao ano passado, segundo levantamento da Associação Brasileira de Indústria de Hotéis (ABIH). De 87,25% em 2013, o mercado hoteleiro atingiu 77,75% de ocupação média, neste ano. Para especialistas, o “surrealismo” no preço das acomodações e nos restaurantes, além da falta de publicidade no exterior são alguns dos fatores que contribuíram para a queda desse percentual.

De acordo com uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), o índice de menor satisfação entre os turistas internos e externos (estrangeiros) foi o preço no setor hoteleiro, que atingiu 45% de satisfação. A disponibilidade de informação nos aeroportos e rodoviárias e a violência, fatores geralmente atribuídos à queda do turismo no Brasil, e particularmente no Rio, chegaram a extraordinários 70% e 80% de satisfação dos visitantes.

Para o membro do Conselho Nacional de Turismo, Mario Bene, o custo diário de uma viagem no Brasil, e não somente no Rio, está mais caro. O especialista aponta sugestões para mudar tal quadro. “A câmara deveria colocar como prioridade na sua pauta a reforma tributária em todo o país, contemplando nessa reforma o setor de hotelaria e restaurantes, que precisa de uma desoneração fiscal. Se isso não acontecer, os preços vão ser sempre estes, e quem vai pagar a conta é o consumidor. Hoje, no Rio ou em SP, você não gasta menos que R$ 300 em um restaurante de primeira linha. Isso é extremamente caro, até mesmo para os padrões internacionais”, explicou.

Bene acrescentou que o índice de acomodação no Nordeste do país explicita que o problema não está concentrado somente no sudeste. “Nesse período de férias, que compreende os meses de dezembro, janeiro e fevereiro, houve hotéis que não atingiram a ocupação média. No pico das férias, a ocupação no Nordeste atingiu somente 35%, uma queda de igual ou maior proporção que no sudeste”, disse o especialista em turismo.

Já para o presidente da ABIH-RJ, Alfredo Lopes, o problema não está no preço das acomodações e sim na demanda de quartos disponíveis na cidade, que aumentou por conta da Copa do Mundo e das Olimpíadas. “Não atribuímos a queda aos preços. Existem opções desde econômicas até cinco estrelas, com tarifário para todos os bolsos. Há também opções mais em conta, como albergues, que tiveram uma ocupação média de 88%. A queda na ocupação se deve ao aumento da oferta de leitos, o que dilui a demanda. Somente do final de 2012 pra cá foram 4.500 novos quartos em operação. Na Barra da Tijuca, que concentra os novos investimentos em hotéis, por exemplo, a queda chegou a 15 pontos percentuais. Nossa expectativa até a Copa é chegar aos 6.800 novos leitos, e nas Olimpíadas, ao número de 16 mil novos quartos”, disse.

Contudo, segundo o ex-presidente da ABIH, Maurício Bernadino, somente Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre apresentaram superoferta (oferta maior que a demanda) no país. O que para Mario Bene contraria a justificativa da ABIH sobre a queda no percentual de acomodações no Rio. “O BNDES disponibilizou R$1 bilhão para o setor de hotelaria investir em reforma e ampliação de quartos para os futuros eventos mundiais. Como houve consultas de empresários hoteleiros que ultrapassaram esse valor, o banco disponibilizou mais R$1 bilhão. Porém, no final, a tomada de recursos do BNDES para a criação de novas acomodações não chegou a R$ 800 mil. Isso demonstra que a quantidade de quartos está muito abaixo do esperado para a Copa. O mercado hoteleiro não acreditou que a Copa fosse necessitar de mais leitos”, afirmou o especialista.

Alfredo Lopes não atribuiu somente a superoferta de acomodações no Rio à queda do percentual. Para o presidente da ABIH-RJ, a falta de investimentos em propaganda no exterior e as constantes obras na cidade, afetaram o turismo. “Não é apenas a demanda de quartos que diminuiu a porcentagem de acomodação no carnaval, e sim um conjunto de fatos. Primeiro, vale ressaltar que o turismo tem total ausência de campanha de promoção no exterior, exceto pela Copa do Mundo. Ou seja, não há publicidade chamando turistas para o país, quiçá para a cidade. Não basta trazer a Copa e as Olimpíadas, tem que investir em publicidade. Outro fato importante a ser destacado é a dificuldade de locomoção nas cidades, devido ao grande volume de obras. Ninguém quer vir para uma cidade engarrafada”, exclamou.

Para o vice-presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes (SindRio), Fernando Blower, outro fator que contribuiu para a queda de acomodações no carnaval, foi a mudança na época de viagem de alguns turistas internos. "Como empresário no ramo, sei que a maioria dos brasileiros [70% dos turistas no carnaval do Rio foram brasileiros] só viaja uma vez por ano. Logo, com a Copa do Mundo em junho, "possíveis foliões" do carnaval carioca mudaram a data de suas viagens para conseguir participar da Copa", explicou o empresário.

Vale ressaltar que a agência internacional ANSA, publicou hoje (8), em meio à ressaca de carnaval, um levantamento do Hotel Price Index (HPI), informando que o setor hoteleiro na América Latina teve um aumento de 5%. Para a HPI, “o resultado da pesquisa está de acordo com o crescimento econômico dos mercados emergentes, que apresentam um aumento das tarifas como consequência da intensificação da demanda, aponta o estudo”, diz o texto. Em âmbito mundial, contudo, o setor teve um aumento de 3%, o que justifica que, não só no Rio ou no Brasil, como em toda a América Latina houve um aumento no preço das acomodações, que segundo especialistas pode ter afugentado os possíveis visitantes.

*Do projeto de estágio do Jornal do Brasil

Tags: acomodação;, carnaval;, preço;, queda;, turismo

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