Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Dezembro de 2014

Rio

Blocos de rua: foliões apoiam garis e criticam prefeitura do Rio

Multidão desfilou em meio ao lixo no bloco Carmelitas, em Santa Teresa

Jornal do BrasilCamila Funare *

Roubo, falta de banheiros químicos, pouco patrulhamento e o “surrealismo” no comércio carioca, no período de alta temporada. Esses são os temas predominantes nas críticas dos foliões no Rio. Agora, a estes temas soma-se outro: a sujeira. Desde o início da greve dos garis, no último sábado de carnaval (1), as ruas do Rio têm acumulado toneladas de lixo, e tendem a produzir ainda mais sujeira devido ao feriado.

Para os foliões, a falta de limpeza da cidade causa uma péssima impressão e afastará turistas brasileiros e estrangeiros, no carnaval de 2015. Ainda segundo os foliões, os problemas estruturais também podem manchar a imagem da cidade, principalmente com a proximidade de grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo, em junho deste ano, e Olimpíadas, em 2016. Contudo, a maioria concorda com as reivindicações dos garis e culpam o poder público pelo péssimo estado das vias. 

No bloco Carmelitas, em Santa Teresa, no Centro, que reuniu 15 mil foliões na manhã desta terça-feira (4), as pessoas desfilaram em meio ao lixo que se acumulava ao redor de postes de luz e nas estreitas ruas do bairro. Os foliões que costumam descansar no meio-fio reclamavam do cheiro de chorume (líquido mau cheiroso produzido por acúmulo de lixo) e de urina, provocado pela falta de banheiros químicos. Na Praça Odylo Costa Neto, onde se concentrou a saída do bloco, três caminhões de lixo da Comlurb, inutilizados por conta da greve, serviram de mictório e assento para o público do bloco. 

Para o artista plástico Pandro Fernandes, de 29 anos, o carnaval é o ambiente perfeito para os garis fazerem a paralisação, pois é quando eles têm visibilidade, já que o serviço se torna indispensável à cidade. “Eu sou a favor da greve dos garis, porque eles são uma classe trabalhadora e merecem melhores salários e condições trabalhistas. Eu acho uma ‘sacanagem’ o prefeito Eduardo Paes não atentar para a reivindicação da categoria e não se preocupar, também, com a situação do lixo nas ruas. O carnaval é uma festa popular, olha o mau cheiro que está nas ruas [apontou], essa situação é muita falta de respeito com o cidadão”, afirmou.

A secretária executiva Patrícia Lucciola, de 52 anos, que há 10 anos desfila no Carmelitas, também reclamou do acúmulo de lixo na cidade. “O bloco cresce mais a cada ano, com a adesão de mais gente e da vizinha que sempre comparece. A estrutura em Santa Teresa já é precária, porque as ruas são estreitas e cheias de ladeiras. Com lixo nas laterais então, a passagem dos foliões se torna inviável”, disse. Lucciola também contou que na segunda-feira (3), em Laranjeiras, zona sul da cidade, comerciantes, moradores e integrantes de um bloco tiveram que se reunir para fazer a limpeza do bairro, por conta própria.

Em Santa Teresa, o Jornal do Brasil constatou que a situação nas ruas não ficou ainda pior, após a passagem do bloco, devido aos catadores de latinhas da Liga Carnavalesca Sebastiana, da qual o Carmelitas faz parte. Operadores dos caminhões da Comlurb (serviço terceirizado), inutilizados por conta da greve, assistiram ao desfile do bloco de “camarote” da Gerencia de Serviços de Santa Teresa, na Praça Odylo Costa Neto, já que não havia serviço a ser feito sem o auxílio dos garis.

À direta, a francesa, Noemi Claret curte o carnaval do Rio com as amigas 
À direta, a francesa, Noemi Claret curte o carnaval do Rio com as amigas 

Sobre a falta de banheiros químicos nos blocos de rua do Rio, problema constante em todos os desfiles, a francesa Noemi Claret, de 31 anos, disse que é inviável usar os banheiros públicos, pelo tamanho das filas e a higiene do local. “Eu estou no meu segundo ano de carnaval do Rio. Vim com seis amigas, também da França. Já nos acostumamos com o empurra-empurra e com o calor humano e físico, mas nunca iremos nos acostumar com esses banheiros. Preferimos pagar e usar o de algum restaurante ou bar”, disse.

Para os foliões, a falta de banheiros químicos incentiva as pessoas a urinarem na rua, mesmo que contra a sua índole. A bióloga Lucia Marcelino, de 46 anos, assumiu que é uma das “mijonas” do carnaval carioca. “É contra o meu caráter fazer xixi na rua, mas se a prefeitura não disponibiliza banheiros suficientes, não há alternativa”, contou.

Lucia Marcelino, fantasiada de empregada, pula carnaval com as amigas no Carmelitas
Lucia Marcelino, fantasiada de empregada, pula carnaval com as amigas no Carmelitas

Marcelino também disse ser “inconivente” com a sujeira e a falta de transporte público e segurança, no feriado. “Eu também amo o Rio de Janeiro e os seus 449 anos, mas jamais fecharei meus olhos para os pontos negativos que estamos enfrentando na cidade. Se o carnaval está acontecendo é por causa do povo, que gosta muito de brincar, e não pela preocupação do Sérgio Cabral e do Eduardo Paes para com a população”, afirmou a folia.

Segundo a Secretaria Estadual de Ordem Pública, 25 “mijões” foram detidos, entre eles 13 mulheres e 12 estrangeiros. De acordo com a Riotur, 100 banheiros químicos foram disponibilizados em Santa Teresa, pela prefeitura. Vale ressaltar, que segundo o órgão, “a região possui um esquema especial de infraestrutura, devido à dificuldade operacional no bairro”.

* Do projeto de estágio do Jornal do Brasil

Tags: bloco;, carmelitas;, carnaval;, greve, lixo;, rio;

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