Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

Rio

Turistas se tornam alvos fáceis com aumento da criminalidade no Rio

Hotéis redobram cuidado. Comunicado de ministério francês classifica carnaval de "violento"

Jornal do BrasilCamila Funare*

De acordo com a Riotur, 920 mil visitantes, entre estrangeiros e brasileiros, estão passando o carnaval no Rio de Janeiro. Conhecido internacionalmente pelos desfiles das escolas de samba na Sapucaí e pelos tradicionais blocos de rua, o feriado ganhou uma nova classificação: "violento". É o que diz um comunicado do Ministério de Relações Exteriores da França aos cidadãos que pretendem vir para a cidade no carnaval. O texto alerta que a festa carioca é “divertida e violenta”, além de explicitar que o bairro de Copacabana, na zona sul, concentra o maior número de assaltos e furtos do Rio.

Segundo o levantamento do Instituto de Segurança Pública (ISP), só nos meses de alta temporada de 2013, que compreendem janeiro, fevereiro e março, que possuem a maior rotatividade de turistas, as 12° e 13° Delegacias de Polícia (DPs), em Copacabana e Ipanema respectivamente, registraram um aumento do número de furtos e ocorrência do ano passado, em relação a 2012. Os índices apontam 288 casos de roubos (contra 293 de 2012), 2.594 furtos ( 2.382 em 2012) e 4.887 ocorrências (contra 4.687 de 2012). Já os dados publicados na última quinta-feira (27) também revelaram que todos os indicadores de violência subiram no ano passado, em relação a 2012. O número de homicídios dolosos (quando há intenção) aumentou 16,7 em 2013, os casos de latrocínio (roubo seguido de morte) subiram 2,8%, além da lesão corporal seguida de morte ter atribuído novos 17 casos aos índices do ano passado.

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Nos índices de "roubos de rua", casos mais frequentes a turistas na cidade, a Organização Não Governamental (ONG) Rio Como Vamos registrou 177 casos, que incluem roubo a transeunte, roubo a aparelho celular, roubo no interior de coletivo e roubo no interior de transporte alternativo. Uma variação de 15,82% de 2012 para 2013. 

Hotéis dobram cuidado com turistas

Para o presidente do fórum mensal de segurança da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) do Rio de Janeiro, Paulo Michel, a principal instrução que as recepções cariocas recebem do setor é a de alertar os turistas sobre os riscos na cidade. “Como em qualquer cidade grande, os hotéis costumam instruir o estrangeiro a não ostentar equipamentos caros, como câmeras fotográficas, evitar determinados lugares e horários, além de ter uma atenção dobrada quando circularem pelas ruas”, disse.

De acordo com Michel, o cuidado dos hotéis vai além da acomodação do visitante, uma vez que eles não têm o costume de prestar queixa quando sofrem furtos ou roubos. “Assim como o brasileiro, o turista estrangeiro está viajando a passeio, portanto não quer perder tempo dando queixa na delegacia. Isso acaba dificultando o trabalho da polícia, pois não há um levantamento preciso das áreas problemáticas. Por isso fazemos fóruns mensais de segurança com a presença de representantes da Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Dead), a fim de transmitir as autoridades o que nossos hóspedes vivenciam nas ruas”, explicou o presidente de segurança da ADIH.

Sobre os períodos de alta temporada, Paulo Michel confessou que a indústria hoteleira, de um modo geral, procura cobrar esquemas especiais de segurança pública. “A grande maioria dos hotéis tem seu corpo de segurança, que promove a segurança do hotel e do perímetro no seu entorno. Contudo, trata-se de uma escolta patrimonial, o que devemos cobrar são ações de segurança pública que protejam nossos hóspedes em perímetros longe dos hotéis”, afirmou.

Moradores ratificam aumento da criminalidade 

O presidente da Associação de Moradores de Copacabana, Horácio Magalhães, advogado de 47 anos, nascido e criado no bairro, destacou a tolerância das vítimas de furtos e roubos em Copacabana, que também não têm o hábito de prestar queixa. “Nós [moradores] percebemos que houve um aumento da criminalidade no bairro, mas não que isso entre necessariamente na estatística, porque o cidadão não costuma registrar qualquer ocorrência policial. As vítimas só costumam registrar ocorrência quando há necessidade da comprovação do crime a terceiros, como no caso de conseguir isenção para 2ª via de documentos”, revelou o morador.

Ainda segundo Magalhães, há uma preocupação maior dos moradores quanto à questão dos menores infratores que rondam a região cometendo pequenos delitos. “Percebemos o aumento de furtos e roubos de adolescentes, desde outubro. Isso preocupa não só a nós, como a todos os órgãos públicos, pois há falhas na legislação brasileira para punir esse tipo de bandido. Além disso, todos os PMs [policiais militares] recém-formados estão sendo direcionados para as UPPs [Unidades de Polícia Pacificadora], o que diminui o efetivo que patrulha na região. As ações de força-tarefa, que começaram a ocorrer durante a alta temporada deste ano justamente para o bairro não ter um déficit na segurança pública, já começaram a diminuir sua intensidade”, explicou o advogado.

Vale ressaltar que minutos antes de o Jornal do Brasil começar a entrevista com o presidente da associação, uma moradora havia denunciado um episódio envolvendo menores. Segundo o relato, um grupo de adolescentes pediu ao motorista de ônibus que liberasse a entrada gratuita do grupo pela porta traseira do veículo. Como o profissional não aceitou o pedido, os jovens teriam começado a arremessar pedras em direção ao ônibus, além de ameaçar o empregado.

A discussão envolvendo menores infratores virou polêmica quando um adolescente de 15 anos foi espancado e amarrado pelo pescoço à um poste no Flamengo, também zona sul do Rio, por “justiceiros”, após tentar assaltar uma turista canadense e outra inglesa.

Especialista analisa segurança pública no Rio

De acordo com Ignácio Cano, especialista em segurança pública no laboratório de análise da violência da Uerj, os pequenos delitos cometidos por menores infratores teve um aumento no seu percentual, mas ainda é muito pouco em relação ao total de crimes no estado. “O problema não está na lei e nem nos adolescentes, está nas políticas atuais de segurança pública”, questionou.

Sobre as políticas de segurança pública, Cano disse que as ações da PM já perderam os impactos positivos que poderiam dar. “Todas as medidas implantadas em 2008 foram eficientes, mas o prazo de vida dessas ações já acabou. Agora é necessário criar novas ações ou focalizar nas políticas atuais como, UPPs e Divisão de Homicídios, só que em áreas mais violentas”, explicou o especialista.

O quadro de criminalidade no estado tende a piorar entre junho e outubro, período em que acontecem a Copa do Mundo e as eleições, segundo Ignácio Cano. “O prognóstico para esse período é negativo, visto que a prioridade da massa será as manifestações”, previu.

A respeito da possível “mancha” na popularidade internacional do carnaval carioca, como foi apresentada nesta matéria com o comunicado do governo francês, o especialista explicou que isso reforça o despreparo da cidade. ”A que a visão amplamente positiva que o Rio conseguiu difundir nos últimos anos caiu, mas isso não quer dizer que sua reputação foi manchada. A questão é que perceberam que a cidade não é aquela onde tudo dá certo”, acrescentou.

Procurado pelo Jornal do Brasil, o delegado titular da Deat, Alexandre Braga, informou à sua secretária que não tinha disponibilidade para falar sobre o assunto.

*Do projeto de estágio do Jornal do Brasil

Tags: carnaval;, furtos;, índices, rio;, roubos;, turistas;

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