Jornal do Brasil

Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Rio

Especialistas alertam: caos no Rio pode afetar até a saúde do carioca

Jornal do BrasilCláudia Freitas

As mudanças provocadas na rotina da população do Rio de Janeiro em consequência do novo sistema de trânsito implantado pela prefeitura da cidade, como parte do projeto Porto Maravilha e para receber os megaeventos esportivos, tem chamado a atenção dos especialistas. Sociólogos e historiadores observam que os métodos adotados pelo atual governo municipal causaram impacto negativo na vida dos moradores e comparam com iniciativas de administrações do início do século ou do período da ditadura militar. Já os psicólogos lançam um alerta com relação à saúde dos cariocas, que deve sofrer mais a frente consequências dessa fase de distúrbio urbano e social.    

O historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Francisco Carlos Teixeira, analisa que o Rio passa por um processo de profundas mudanças. "Se discute intensamente o uso dos recursos públicos, o uso do espaço público, incluindo aí o solo urbano, e a repartição dos recursos públicos." Para o especialista, a opção do governo foi por um Rio/monumento e pela permanente exclusão de grandes massas das periferias. 

A opinião do supervisor de vendas Eli Carlos, de 35 anos, reflete um pouco esse sentimento comentado por Teixeira. "As mudanças são em função desses eventos, como a Copa do Mundo, que nós moradores da cidade não vamos desfrutar, porque não teremos dinheiro suficiente para comprar os ingressos. Com essa falta de planejamento e nível de estresse da população, não dá para comemorar o aniversário da Cidade Maravilhosa", afirmou Eli. 

O sociólogo Marcus Ianoni, professor do departamento de ciências políticas da Universidade Federal Fluminense (UFF), faz uma avaliação do momento que o Rio de Janeiro está atravessando, como um reflexo de mudanças nacionais: “O país está passando por mudanças sociais, econômicas e políticas importantes. Uma dessa mudanças é a maior cobrança, por parte das populações das grandes cidades, no sentido de que os serviços públicos funcionem melhor, sobretudo os de transporte e mobilidade urbana, infraestrutura, habitação, saúde, educação e segurança", ressalta Ianoni. 

Ele afirma: "Não dá mais para os governantes trabalharem com planejamento de curto prazo e nem para fazerem mudanças de impacto nas cidades sem consultarem as partes envolvidas. Não dá para ouvir apenas o empresariado interessado nas obras públicas. O empresário quer vender seus serviços e acumular capital, enquanto cabe ao Estado democrático zelar pelo interesse coletivo. O interesse coletivo tem que ser alcançado com a participação das coletividades envolvidas. Não dá para construir viaduto e depois demolir". O sociólogo acredita que um modelo de democracia participativa é fundamental  para que as decisões mais polêmicas sejam tomadas com maior legitimidade. As instituições representativas tradicionais - parlamentos, executivos e partidos - precisam trabalhar em conjunto com novas instituições participativas - conselhos de usuários de transporte, conselhos urbanistas, de segurança, de saúde, de habitação e outros. Na visão de Ianoni, há vontade de participação e uma insatisfação com os resultados da gestão pública tradicional. "A gestão pública precisa se democratizar, abrindo-se mais à sociedade civil, para que não haja uma erosão de sua legitimidade”, destaca ele.

A psicóloga especialista em trânsito do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, Janaína Santanna, chama a atenção para uma outra consequência grave das mudanças no sistema de transportes da cidade. "Os transtornos que o carioca têm passado diariamente podem levar ao estresse, que por sua vez pode desencadear outras doenças preexistentes. Se pessoa já tem algum problema de saúde, como um problema de coluna ou gastrite, os sintomas das doenças podem se acentuar. Devem aparecer muitos outros sintomas e o resultado final disso será a baixa produtividade do trabalhador e o aumento da procura na rede de saúde", alertou a psicóloga.

Santanna avalia que o trabalhador já passa por grandes dificuldades para chegar todos os dias ao seu emprego, como a precária qualidade dos transportes públicos e engarrafamentos já tradicionais, o que normalmente aumenta o seu tempo de deslocamento de casa para o trabalho. Quando distúrbios no trânsito acontecem, como o vivido no mês de fevereiro, a carga horária de trabalho aumenta e reflete diretamente na sua saúde. "Essa situação é muito grave e deve ter a intervenção do governo para ser resolvida. Às vezes, pequenos ajustes da prefeitura no sistema de trânsito já resolve e melhora a qualidade de vida das pessoas", comentou ela.

A mobilidade urbana, segundo Janaína Santanna, influi de todas as formas na vida e na saúde da população, porque apesar de haver vários modais disponíveis, eles devem funcionar de forma adequada. "Estamos falando de qualidade de vida dos trabalhadores e das causas dos engarrafamentos. Isso é um ponto que deve ser tratado pelo governo com muita seriedade", ressalta a psicóloga. Santanna disse que com o tempo, o trabalhador que sofre com a precariedade nos transportes e sistema de trânsito, começa a apresentar sintomas de estresse, como irritabilidade e falta de produtividade, tanto no ambiente de trabalho como no familiar. 

"O carioca está no meio de uma roleta russa, completamente confuso com as mudanças e sem ver uma expectativa de melhora", disse Santanna. Ela observa que até os agentes de trânsito da prefeitura não estão preparados para ajudar a população. "Ao caminhar pelo Centro da cidade, reparei eles trabalhando. Um apita e manda os veículos seguirem por uma via, enquanto o outro agente que está do outro lado a via retém o fluxo de carros. Uma confusão generalizada. Se o governo decidiu fazer as mudanças, tinha que fazer de uma forma que priorizasse o cidadão. Atualmente, só priorizam o transporte individual. E isso tudo é muito danoso para a saúde das pessoas", avaliou.

Tags: impacto, negativo, Sistema, trabalhador, Trânsito

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