Jornal do Brasil

Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Rio

Dom Orani:ele só queria ser um monge

Fé em Deus que chama para um estilo de vida singular

Jornal do BrasilOsnilda Lima, fsp*

Deixar o efêmero que se apresenta na cotidianidade da vida e abrir-se à possibilidade de viver um estilo de vida pouco raro requer coragem, ousadia, desprendimento, liberdade e, acima de tudo, fé. Muita fé! Sempre me intriga a dimensão da vocação à vida monástica na Igreja Católica que parte unicamente de uma experiência de fé em Deus que chama para um estilo de vida singular. Isso sem qualquer tipo de prova ou possibilidade objetiva de verificação, mas sim de somente a pessoa “ouvir a voz” que vem de seu interior, e essa voz indica, aos poucos, o percurso a ser trilhado.

E aqui me ponho a pensar, especificamente, no caminho percorrido em busca de uma resposta a um chamado que, no auge de sua juventude, João Orani Tempesta, aos 18 anos, deixa tudo e ingressa no Mosteiro de Nossa Senhora, para tornar-se um monge cisterciense, na cidade de José do Rio Pardo (SP), com aproximadamente 408.258 habitantes. Ele queria a ser um monge.

E como foi esse chamado na vida do jovem Orani? Houve clareza total? Certamente não. Ele é humano, humanos têm dúvidas no percurso. Mas acredito que o jovem Orani confiou unicamente em Deus. Ser um monge e crescer na proposta que esse ser implica é colocar-se em atitude de fidelidade. Não é mérito meramente humano, mas graça de Deus.

A vida no mosteiro é de simplicidade e permeada pela oração, trabalho dentro do mosteiro, meditação e silêncio, que é quebrado com o repique do sino, veculo de comunicação no mosteiro, pois congrega os monges. Orani escolheu esse estilo de vida para si e para servir às pessoas. Mas Deus lhe pediu mais.

Conheci dom Orani em 2006 quando, então, era presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Cultura, Educação e Comunicação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ele já havia percorrido um longo caminho, era arcebispo de Belém, no estado do Pará.

Um homem comunicador, atencioso, solícito, simples, próximo, afável e presente. Guardo na memória imagens bonitas de dom Orani em visita às comunidades ribeirinhas, no interior do Pará, a bordo de uma voadeira, talvez fazendo jus ao seu lema episcopal: “De modo que todos sejam um”. Creio que se colocou na mesma corda do Círio de Nossa Senhora de Nazaré com o povo, e se fez um com eles.

Dom Orani foi sendo formado com o tempo, e, certamente esse valores foram reforçados no mosteiro, pois a vida de um monge é marcada pela simplicidade nas relações fraternas, na oração e no cultivo de uma vida centrada em Deus, sempre próximo, acessível, disponível e servidor de todos.

Lá, em 1968, Orani João Tempesta só queria ser um monge. Mas Deus sempre lhe surpreende pedindo um pouco mais e confia a missão de bispo, depois vem a nomeação de arcebispo e hoje lhe é confiado um novo serviço à Igreja com a nomeação de cardeal, para prestar assessoria direta ao Papa.

Certamente ele continua sendo somente um monge, mas hoje, com a responsabilidade de estar à frente da Arquidiocese do Rio de Janeiro, desde 2009, cidade que acolhe 6.429.923 habitantes e extrapola totalmente seu chamado inicial em viver a vida monástica em um mosteiro. Deus é sempre surpresa!

*Osnilda Lima, fsp, é religiosa da congregação das Irmãs Paulinas. 

Tags: certamente, continua, ele, monge, sendo, somente, um

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