Jornal do Brasil

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

Rio

Ativistas negam financiamento e lamentam criminalização de protestos

Eles destacam em Nota Pública que é preciso recuperar o motivo que levou a população às ruas

Jornal do Brasil

Ativistas de diversos movimentos do Rio de Janeiro e outros estados se reuniram em uma primeira Assembleia Pública, com participação da imprensa, para falar sobre os últimos acontecimentos, como a morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes. Cerca de 60 grupos assinaram Nota, na qual lamentam a morte do profissional, mas também a forma como ela tem sido usada para criminalizar ações populares sem que outras mortes e abusos recebam a devida atenção. Eles denunciaram um "Padrão Fifa de Mercantilização das cidades" e a responsabilidade das empresas de comunicação em enviar profissionais aos protestos sem os equipamentos necessários. 

Questionados sobre as novas acusações de que manifestantes seriam financiados por partidos políticos ou parlamentares para estarem nas ruas, alguns em troca de supostos R$ 150, Janaina Dias, da Assembleia do Largo, alegou que trata-se de uma acusação sem veracidade. "Somos diversos indivíduos de diversos coletivos. Não somos pagos. (...) é uma acusação leviana. As pessoas que acusam, essas, sim, têm interesses políticos, querem usar isso como massa de manobra política."

Outro movimento, a Frente Independente Popular, que não assinou a Nota Pública com os outros mas que estava presente na Assembleia, distribuiu uma Nota de Repúdio à Criminalização das Lutas Populares, pela qual afirma que é leviana a acusação de que as manifestações são financiadas. "O povo vai para as ruas lutar pelos seus direitos diariamente desrespeitados. Os protestos têm como base a ampla insatisfação da população com as atuais condições de vida. (...) A Frente Independente Popular jamais financiou qualquer militante para participar de manifestações. Lutamos pelo povo e com o povo".

Os ativistas ressaltaram que a morte de Santiago foi uma grande perda, uma fatalidade, mas que o maior responsável é o Estado e a mídia. A Nota Pública acusa a "grande imprensa" de não ser orientada para o esclarecimento dos fatos, mas sim pela intervenção política para "acuar e demonizar protestos". Afirmam que o Poder Público, apesar de ser responsável por dezenas de mortes e centenas de feridos, quer transferir a responsabilidade da violência aos que estão nas ruas na luta por condições melhores de vida e mais democracia. 

"As estratégias adotadas pelo governo e pela grande mídia corporativa para reprimir manifestações só vão produzir as condições para que a violência se agrave ainda mais no futuro. (...) Essa tragédia não pode servir como pretexto para uma repressão ainda maior ao exercício dos direitos políticos", diz a Nota.

Destaca ainda que a Rede Bandeirantes enviou o cinegrafista Santiago para a cobertura do protesto sem os equipamentos e assistência necessários. "Os acidentes envolvendo jornalistas também são responsabilidade das empresas de comunicação. Reiteradamente assistimos a negligência dessas quanto à segurança de seus empregados. Quando as empresas agora expressam pesar, é com cinismo que o fazem, pois nunca se importaram com a vida da população ou com a segurança de seus funcionários. A Rede Bandeirantes de Televisão enviou o jornalista Santiago Andrade sem qualquer equipamento de Proteção Individual (EPI) para a linha de frente de um conflito marcado desde o início pela violência do Estado", diz a Nota Pública. O JB entrou em contato com a assessoria da Band, mas não teve retorno até o fechamento desta matéria. 

A Nota aborda a violência policial sofrida pelos jornalistas ao longo desses últimos nove meses de manifestações pelo país. Desde junho, apontam, foram 25 mortes em decorrência direta da ação policial contra manifestantes e, de acordo com a Abraji, 114 jornalistas foram feridos apenas em 2013, muitos por artefatos e golpes de policiais militares. Indagados sobre a violência que a imprensa tem sofrido por parte dos próprios manifestantes, Janaina enfatizou a importância da imprensa na cobertura desses eventos, mas reforçou também a necessidade dos equipamentos de proteção individual. Para ela, é preciso entender que existe um perigo, principalmente em relação aos ataques da polícia.

A respeito do andamento das investigações sobre os responsáveis pelo lançamento do rojão que atingiu Santiago, definiram o caso como uma "história nebulosa", pelo fato de que o acusado não é defendido por advogados que estão normalmente nos protestos e encontros, e que inclusive vêm recebendo ameaças de morte, afirmam. 

Eles criticaram ainda o projeto do secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, "engavetado há quatro anos e solicitado pela Fifa para criminalizar os movimentos". O projeto é destinado a qualificar o crime de desordem. A ideia é aprovar uma norma legislativa que previna a violência em manifestações como a que resultou na morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes.

>> Senado recebe proposta de Beltrame para tipificar 'crime de desordem'

Sobre o protesto realizado no dia 6 de fevereiro, quando Santiago foi atingido pelo rojão, explicam na Nota que o protesto movido pelo barateamento da tarifa e melhoramento do transporte público, diferente das duas ocasiões anteriores, foi dispersado de forma truculenta pela polícia, com bombas de efeito moral e gás lacrimogênio, "amplamente utilizados contra todos" que estavam nas imediações da Central do Brasil. 

"Por conta da atuação policial, a situação se tornou rapidamente caótica, culminando na morte de duas pessoas. (...) Diante do ocorrido, prestamos solidariedade às vítimas, suas famílias e amigos, e lamentamos profundamente a situação que levou aos dois acidentes. Entendemos que tais perdas representam tragédias pessoais, pois cada vida deve ser valorizada de maneira igualitária, e também coletivas, pois dizem respeito a todos nós que estamos nas ruas", diz a Nota. 

Tags: financiamento, manifestante, protesto, Rio, santiago

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