Jornal do Brasil

Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

Rio

Novo chefe de Polícia promove troca troca e muda titulares de 60 delegacias

Alterações atrapalham o curso de investigações já encaminhadas nas delegacias 

Jornal do BrasilLouise Rodrigues*

A tradicional “dança de cargos a gosto do chefe”, como definiu o criminalista Técio Lins e Silva, já começou na Polícia Civil. Após uma semana à frente da instituição, Fernando Veloso substituiu 60 delegados que comandavam distritais e especializadas. As alterações foram publicadas nesta terça-feira no boletim interno da corporação. Veloso é o sucessor de Martha Rocha, que deixou o cargo no final de janeiro a fim de concorrer às eleições de outubro.  

As mudanças injustificadas podem atrapalhar as investigações já encaminhadas nas delegacias. Segundo Técio, “os procedimentos de investigação podem ter um atraso principalmente porque a polícia é pouco científica e trabalha mais com a memória. Então o delegado que sai leva com ele notas mentais e informações que ele guardou na cabeça”.  O criminalista também ressaltou que “essa é uma prática desde o Império. Quem entra, tem seus amigos e afetos. Os desafetos e adversários, então, vão para o que chamamos de ‘museu da polícia’, que são as delegacias de menor importância ou sem expressão política. Essa é uma rotina histórica da polícia, é o subdesenvolvimento da máquina pública”.

Para o especialista em história contemporânea e assuntos militares, Francisco Carlos Teixeira, o novo chefe de Polícia teve o que pode chamar-se de “um péssimo começo”. O historiador acredita que “mudanças tão radicais são o sinal de uma crise de grandes proporções, que coloca em questão o plano de segurança”. Para Francisco, “ou Veloso está fazendo nomeações partidárias e campanha política ou o projeto das UPPs está acabado”. Ele justifica dizendo que “as delegacias não são o real problema. A ideia das UPPs em si é muito boa, mas existe uma confusão entre ocupação física e pacificação. O narcotráfico conseguiu se reconstruir. Não houve um trabalho de controle e manutenção por parte do governo capaz de manter milícias e narcotraficantes fora do circuito. Os índices de criminalidade cresceram porque não houve um trabalho de inteligência. O narcotráfico ficou forte o suficiente para matar uma policial, para traficar e aterrorizar a população que está insegura e, por isso, legitimando milícias e justiceiros”.

O historiador apontou falhas no discurso do novo chefe de Polícia. “O Veloso não falou sobre o combate ao narcotráfico e bateu na tecla da criminalização dos movimentos sociais. O discurso dele é muito mais de um chefe de partido de direita do que de um chefe de polícia”, criticou. Francisco também defendeu a necessidade de “treinamento e cuidado com os policiais” e citou a morte da SD Alda Castilho como prova da “falta de estrutura necessária, ou seja, com proteção suficiente e treinamento merecido”.  

Ele também acredita que “entre a gestão de Martha e Veloso há uma diferença enorme, caracterizada pela falta de preocupação social, cultural e até étnica”. Já o diretor do Núcleo de Violência Urbana da UFRJ, Michel Misse, apresenta outra visão. Para ele, “Martha teve uma gestão aberta ao diálogo e Veloso deve manter essa linha”.

Michel também defende a qualificação da Polícia Civil e acredita que “deveria ter mais treinamento em investigação criminal para melhorar os serviços de investigação de crimes violentos”. Ele acredita que “a Polícia Civil é competente, mas tem problemas que vão além de um chefe de polícia. Um exemplo é o inquérito policial, que hoje é burocrático e tira muito tempo da investigação. Mas isso exige mudanças no código penal”.

O diretor do Núcleo de Violência Urbana comentou que “a estrutura ideal para a Polícia Civil deve contemplar áreas em que há maior número de crimes graves. Onde o índice de crimes é menor, o efetivo deve ser menor também. A polícia não tem como dar uma cobertura igual para todas as áreas”. Sobre os custos de uma reformulação na instituição, “a administração não deve se preocupar se essa é uma estrutura cara ou não. A preocupação principal deve ser se esse montante está sendo bem aplicado e gerando resultados”. 

*Do projeto de estágio do Jornal do Brasil

Tags: delegacias, fernando veloso, martha rocha, Polícia Cívil, upp

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