Jornal do Brasil

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Rio

ABBR completa 60 anos na reabilitação e em busca da sustentabilidade

Dr. Deusdeth, peça-chave da recuperação da entidade, detalha conquistas e desafios

Jornal do Brasil

São escassos os exemplos de altruísmo no Brasil. No Rio de Janeiro, mais precisamente no Jardim Botânico, persiste um deles, que abriga diversos profissionais com o ideal de atender pessoas privadas do direito de andar, e menos favorecidas economicamente, desde os anos 1950. Trata-se da Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), entidade filantrópica reconhecida pela excelência e que atende pelo SUS, criada a partir da união de ideias e esforços de pessoas em torno de um propósito sem finalidade lucrativa. A trajetória, contudo, não tem sido fácil e os custos são altos. O presidente da entidade desde 1999, Dr. Deusdeth Nascimento, quando assumiu, encontrou uma associação prestes a fechar suas portas. Graças à bem-sucedida administração, o Centro de Reabilitação agora está em uma situação bem mais tranquila, com novos desafios e conquistas pela frente.

Dr. Deusdeth com Messias Oliveira, então com 15 anos, que sofreu uma lesão na medula que o deixou sem movimento. Hoje ele está recuperado e é psicólogo da ABBR
Dr. Deusdeth com Messias Oliveira, então com 15 anos, que sofreu uma lesão na medula que o deixou sem movimento. Hoje ele está recuperado e é psicólogo da ABBR

A entidade, no entanto, segue na luta para alcançar sua sustentabilidade e continuar ajudando pessoas como Messias Oliveira a voltar a andar. Messias ficou tetraplégico depois de um mergulho no rio, aos 14 anos. Fez fisioterapia da ABBR por 19 meses, oito deles internado. Saiu de lá andando e hoje é psicólogo da entidade. Nada foi cobrado pela cirurgia, realizada pelo Dr. Deusdeth, que precisou convencer a equipe de que aquilo era realmente possível.

A ABBR completa 60 anos no próximo mês de agosto. Dr. Deusdeth Nascimento, ortopedista de referência no país, nascido na Bahia, em conversa por telefone com o JB, explica que a situação da entidade está bem melhor do que quando assumiu a presidência, no final dos anos 1990. As dívidas foram equacionadas, mas o caminho para a completa modernização e ampliação do atendimento ainda está sendo trilhado. 

Deusdeth sempre frequentou o Centro de Reabilitação, como cirurgião de coluna, e admirava a missão e história da instituição filantrópica. No final dos anos 1990, foi convidado para presidi-la, quando ela estava em um "momento muito crítico", prestes a encerrar as atividades. 

"Me senti no compromisso de aceitar esse desafio, também com ânimos de alguém que é nordestino e que foi acolhido pelo Rio, com um sentimento de gratidão e compreensão da história de vida e do perfil dos pacientes que são assistidos no Centro. Atraímos colegas, voluntários, advogados, empresários e outros profissionais, para que doássemos um pouco de tempo da nossa vida", recorda Deusdeth. 

Depois que assumiu a presidência da entidade, buscou-se um trabalho, junto com o Conselho Deliberativo, para sanar os problemas e evitar que a entidade fechasse as portas. Contrataram, então, a consultoria da Ernest & Young, que fez uma longa análise e chegou à conclusão de que a ABBR precisava da participação da iniciativa privada. Com essa constatação e aprovação pelo Conselho Deliberativo, a ABBR recebeu proposta de 10 empresas. A da Amil, para abrir o Hospitalys, foi a que pareceu mais interessante. O hospital que estava desativado há seis anos, por problemas financeiros, voltou então a funcionar, com o nome Hospitalys, voltado para cirurgias ortopédicas e administrado pela Amil.

"Como não tínhamos condições de modernizar, funcionar com qualquer hospital de cirurgia, como ele necessita, tivemos que interromper as atividades, com muita dor, e aguardar a parceria". O aluguel da área para a Amil contribuiria para a resolução das dívidas, que eram bem grandes, e ainda haveria a contrapartida de modernização e ampliação do espaço. Com o hospital aberto, a ABBR também se viu mais completa, já que voltariam a funcionar, na mesma estrutura, um hospital e o Centro de Reabilitação. 

Como explicou o Dr. Deusdeth, muitas unidades já estão modernizadas e melhor equipadas. "As dívidas estão equacionadas. Impossível dizer que nós pagamos tudo, estamos pagando as prestações, não estamos inadimplentes, negociamos." De acordo ele, os benefícios da parceria com a Amil estão se consolidando, com a modernização do espaço em andamento, criando condições melhores de atendimento.

O Centro de Reabilitação atende a 92 municípios, com muitas modalidades de tratamento, três unidades operacionais, 3.100 pacientes. Como a grande maioria deles é atendida pelo SUS e a tabela remunerativa do sistema é baixa, a casa precisa contar com outros recursos. A sociedade, por reconhecer a importância social da iniciativa, contribui bastante. Com quantias baixas, entre R$ 20 e R$ 30 de de diversos contribuintes, a ABBR consegue arrecadar R$ 280 mil por mês. "Damas da sociedade também promovem bazar, tradicionalmente, para ajudar na sustentabilidade e manutenção da missão dessa casa semissecular", explica o Dr. Deusdeth.

Associação Brasileira de Reabilitação conta com a ajuda de doações e agora com a renda do aluguel do hospital, administrado pela Amil
Associação Brasileira de Reabilitação conta com a ajuda de doações e agora com a renda do aluguel do hospital, administrado pela Amil

A ABBR tem o projeto agora de criar uma oficina ortopédica, para confecção de pernas, braços, sapatos especiais e muletas, que pode ser implementado ainda neste ano. Para isso, a entidade está em busca de recursos. "Além da parte assistencial, a ABBR é formadora de mão de obra. Normalmente damos oportunidade a jovens de comunidades carentes, que aprendem o ofício. Alunos da maioria das instituições de ensino do país, para não dizer todas, lá buscam seu estágio também". 

O Dr. destaca que a entidade costuma receber muitas visitas. No ano passado, lembra, recebeu um empresário que ofereceu patrocínio e fez questão de levar os netos, para que eles vissem a situação dos que lá estavam e dessem maior valor às coisas mais importantes da vida. "É preciso que a nova geração se atente para essas causas sérias. Vemos muitas pessoas deprimidas hoje, com um consumismo desenfreado, uma visita a entidade muda a vida dessas pessoas, elas deixam de ter esse pensamento muito superficial da vida. A ABBR é patrimônio do estado do Rio de Janeiro, um ícone de reabilitação."

PERFIL DO DR. DEUSDETH

Deusdeth ressalta a ligação que sente com os pacientes do Centro de Recuperação, principalmente devido a suas raízes nordestinas - as mesmas de grande parte dos clientes de menor poder aquisitivo. O Dr. teve uma infância pobre no interior da Bahia, mas conquistou o reconhecimento como referência em cirurgias de coluna. Estudou em Paris, antes de começar a trabalhar para o Into, como recorda o Dr. Luiz Claudio Schettino, membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia do Rio de Janeiro (Sbot-RJ), que trabalhou com ele. 

"O Deusdeth veio para o Rio e começou a se dedicar à cirurgia da coluna, logo após ingresssar no Into, e mostrou uma capacidade de trabalho muito grande. Ele já tinha feito uma especialização no exterior, aprendeu com Roy Camille, expoente internacional no assunto, voltou para o Brasill e foi para o Into. Em paralelo, fazia outras coisas, e sempre mostrou uma grande vontade de trabalhar, ajudar, participar. Sempre foi muito atuante, também formando novos médicos", declara Schettino.

Deusdeth é altamente reconhecido na comunidade médica pela sua excelência e já atendeu figuras como o cantor Zeca Pagodinho e o jogador Gilberto.
Deusdeth é altamente reconhecido na comunidade médica pela sua excelência e já atendeu figuras como o cantor Zeca Pagodinho e o jogador Gilberto.

Ele aponta a importância da participação de Deusdeth como diretor do Into e no Projeto Suporte, de âmbito nacional, que levou a tecnologia de atendimento a estados remotos do país, no Nordeste, no Norte e Centro-Oeste. 

O Dr. Paulo Brum, também membro da Sbot-RJ, reforça que Deusdeth teve uma grande importância para a ABBR, principalmente nesta última década, pois a presidiu com uma determinação muito grande. Para ele, o presidente da ABBR é um sujeito empreeendedor. Eles trabalharam juntos durante 15 anos. 

"Conheço bastante tanto o Deusdeth empreendedor como o cirurgião. Eu acredito que ele deu todo um suporte à ABBR e marcou o nome dele. A ABBR abrigou a primeira faculdade de reabilitação do Brasil. Muita gente do Rio ajudou a entidade, porque ela foi fundada no meio de todo o desespero com a paralisia infantil. Algumas figuras foram tratadas lá e ficaram apaixonadas pela casa, que tem uma importância social, um trabalho muito bonito e muito especializado", acredita Brum. 

O cantor Zeca Pagodinho, em 2006, foi operado de emergência, por conta de uma hérnia de disco, na ABBR, pelo Dr. Deusdeth, que vinha acompanhando o caso desde o início. Deusdeth também trata de outras personalidades como o jogador Gilberto. 

HISTÓRIA DA ENTIDADE

Criada a partir do ímpeto de um empresário de oferecer aos brasileiros o mesmo tratamento que sua filha havia tido acesso, na Europa, nos anos 1950, a associação hoje tem na lista um volume em torno de 70% de pessoas atendidas pelo SUS. O nome do empresário era Percy C. Murray. Em 1954, no auge do enfrentamento à poliomielite no país, o projeto saiu do papel, com a contribuição do arquiteto Fernando Lemos cujo filho único, de 18 anos, tinha sido acometido pela doença.

Associação foi criada em 1954 para contemplar os que não tinham a chance de se tratar no exterior, com o surto da poliomielite
Associação foi criada em 1954 para contemplar os que não tinham a chance de se tratar no exterior, com o surto da poliomielite

"Essa casa é da década de 1950. Integrantes da elite do Rio de Janeiro, que foram acometidas com a poliomelite, devido a sua condição, tiveram tratamento no exterior. O empresário Percy, quando retornou do tratamento da filha no exterior, viu que muitos brasileiros enfrentavam o mesmo problema, mas sem ter condições de sair do país. Conheceu um arquiteto, o Fernando Lemos. Depois de elaborado o projeto, perceberam que não havia especialista, então recorreram a ajuda nos Estados Unidos, com a Universidade de Columbia, e fundaram a primeira faculdade de fisioterapia e reabilitação do país", elucida Deusdeth.

Em 1957, o Centro de Reabilitação foi inaugurado, com presença do Presidente da República Juscelino Kubitschek e sua esposa, juntamente com a Sra. Malú R. Miranda, representante da ABBR. Um grupo da elite social do Estado se reuniu em torno do nobre ideal de proporcionar aos deficientes físicos um atendimento médico diferente, englobando todas as modalidades de assistência médico-social.

Em 1999, a ABBR ganhou o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, com o 1º lugar na Categoria “organizações não governamentais”, instituída pelo Governo Federal através do Ministério da Justiça. Em 2000, recebeu do Rei Juan Carlos de Borbon Y Borbon e da Rainha Sofia de Grécia Y Hannover doação de cadeiras de rodas. Ainda em 2008, reinaugurou o Centro de Reabilitação com novas instalações e equipamentos e, em 2009, quando completou 55 anos, inaugurou a Fábrica de Cadeira de Rodas, com a doação de equipamentos pelo Rotary Club.

"A ABBR merece o apoio, mais do que isto, o entusiasmo de quantos cumprem o primeiro de diversos prescritos, amando ao próximo - com a caridade que protege, prevê e acolhe; sobretudo estando à frente desse maravilhoso movimento num grupo gentil de missionárias, benditas abelhas da colmeia de Deus!", declarou Pedro Calmon, Reitor e Professor da Faculdade nacional de Direito, membro da Academia Brasileira de Letras, em 1969.

"Esta é uma obra que somente o coração do brasileiro poderia realizar. É um grande exemplo de solidariedade humana e de patriotismo", disse Ernani do Amaral Peixoto, em 1960.

A  ABBR já reabilitou 400 mil pessoas, realiza mais de dois mil procedimentos terapêuticos e atende mais de mil pacientes por dia. São muitas pessoas atendidas todos os anos, entre paraplégicos e tetraplégicos, crianças e adultos, e a grande parte deles não teria a oportunidade de reabilitação não fosse a iniciativa do visionário Percy C. Murray e do trabalho árduo, amoroso e comprometido do Dr. Deusdeth e sua equipe.

Tags: abbr, deusdeth, ortopedia, paralisia, reabilitação

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