Jornal do Brasil

Domingo, 21 de Setembro de 2014

Rio

Chuvas castigam cidade e cariocas denunciam obras mal planejadas

Moradores protestam contra coleta de lixo ineficiente e falta de saneamento 

Jornal do Brasil

Mais uma vez, e não a última, o Rio de Janeiro sofre com os efeitos das chuvas, alguns ligados a fatores naturais, outros tornados possíveis por obras mal planejadas ou serviço público ineficiente. No Mercadão de Madureira, cerca de 30 lojistas tiveram o estabelecimento invadido pelas chuvas da última quinta-feira (16/01). Eles reclamam que já foram três alagamentos desde dezembro e que a situação piorou com um obra do BRT Transcarioca. Na Avenida Brás de Pina, via que passa por obras da Transcarioca, um buraco deu um nó no trânsito na manhã de sexta-feira, depois da chuva. 

De acordo com a subsíndica do Mercadão de Madureira, Sheila Reis, é difícil contabilizar os prejuízos das chuvas no local, mas "a perda é grande". Sheila declarou ao JB que não via tantos alagamentos no local há decadas. Durante a manhã de sexta-feira, lojistas trabalharam para limpar o local e, no início da tarde, a situação já parecia estar normalizada, com apenas quatro ou cinco lojas fechadas. Ela não quis comentar sobre os efeitos da Transcarioca, mas destacou que, em qualquer obra, "algumas coisas saem certo e outras não".

Pela página do Facebook, Mercadão de Madureira alertava que comerciantes ainda trabalhavam para limpar estragos da chuva
Pela página do Facebook, Mercadão de Madureira alertava que comerciantes ainda trabalhavam para limpar estragos da chuva

A Secretaria Municipal de Obras (SMO) declarou em nota que o viaduto de Madureira conta com drenagem e que o alagamento do subsolo do Mercadão aconteceu pela Rua Conselheiro Galvão, onde não há serviços da Transcarioca. A rua, no entanto, ainda não recebeu o projeto de microdenagem elaborado pela Rio-Águas, que ainda está em fase de orçamento, de acordo com a SMO. 

"A obra da Transcarioca na região do Mercadão se limitou à Edgard Romero, onde todos as caixas de ralos já foram executadas. (...) A Secretaria de Conservação e Serviços Públicos realiza regularmente serviços de limpeza do sistema de drenagem na região. Hoje (17/01), equipes da Coordenadoria Geral de Conservação reforçaram os trabalhos na Rua Conselheiro Galvão", declararam as Secretarias de Obras e Conservação, por meio da assessoria. 

>> Crea: catástrofes por chuvas continuarão no Rio devido a obras mal planejadas

O presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ), Agostinho Guerreiro, já havia alertado que as catástrofes ocasionadas por chuvas aconteceram e continuarão a acontecer no Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense devido a obras mal planejadas. A declaração foi feita durante divulgação de relatório na terça (14), sobre inspeção realizada em dezembro em áreas de risco afetadas por enchentes em 2013. 

Após as chuvas de quinta, em conversa por telefone com o JB, Agostinho ressalta que os problemas vistos na semana são pontuais, em um conceito diferente do mostrado no relatório, que se ateve ao acúmulo de problemas ambientais ao longo das últimas décadas. Revelam, no entanto, o despreparo e a falta de planejamento. "Em um mundo civilizado moderno, ninguém faz uma obra sem planejar tudo que pode acontecer", alerta. 

De acordo com Agostinho, a engenharia brasileira tem conhecimento mais do que suficiente para se preparar para imprevistos, é uma das melhores do mundo. "O que está acontecendo aqui é o que está acontecendo há décadas na maioria das obras. São obras que não são planejadas adequadamente, e depois tem que correr atrás, porque tem que cumprir prazo. Tudo isso seria previsível".

No período de verão, o Rio sofre com chuvas como essa há séculos, destaca, e elas não param de acontecer para "esperar a construção de qualquer obra". O ideal, então, era que a cidade tivesse um preparo para enfrentar esse tipo de chuva, definir para onde a água seria desviada, por canais ou declives. "Existe, por exemplo, em alguns países, alguns 'buracos' em áreas públicas, praças, estádios. Uma praça construída com um desnível de três metros, quando chove e as pessoas procuram abrigo em suas casas, serve perfeitamente como grande recipiente para receber os excessos de água daquela região", exemplifica. 

Para Agostinho, as pessoas que estão reclamando de obras da cidade "realmente têm uma certa razão", já que a vida econômica da cidade não pode parar para que as obras terminem. As pessoas, então, são prejudicadas, e a cidade também. O problema, alerta, é que no Brasil, diferente de outros países, costuma se levar mais tempo na execução de um projeto do que no planejamento dele. "Se gasta pouco tempo no planejamento e quase que se entra diretamente na parte executiva. Aí não tem jeito, vai acontecer o que tem acontecido sempre".

Moradores de Vaz Lobo que perderam bens com o temporal, fecharam a Avenida Vicente de Carvalho, no Subúrbio do Rio, em protesto, durante a manhã de ontem. As chuvas do dia anterior haviam alagado as ruas e atingido as casas. Na Rocinha, em apenas 15 minutos, foi registrada uma leitura pluviométrica de 32,8 mm. Um vídeo compartilhado no Facebook mostra o volume de água e lixo que tomou a comunidade. 

José Martins, líder comunitário na Rocinha, conta que, "felizmente", pelo que soube, a chuva da última quinta-feira não trouxe grandes transtornos no local. Ele ressalta, contudo, que o governo do estado fala em fazer um teleférico na comunidade, enquanto os moradores ainda "brigam por saneamento". De acordo com ele, falta saneamento e coleta eficiente de lixo. 

"A Rocinha precisa ser saneada, canalizada, o que pode não só resolver problemas de enchente e chuva, como também os problemas de saúde, de acessibilidade", alerta. O JB entrou em contato com a Secretaria de Estado do Ambiente e a Comlurb, mas não recebeu retorno até o fechamento desta reportagem. 

Tags: alagamento, chuva, Madureira, Rio, rocinha

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