Jornal do Brasil

Segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Rio

Chuva expõe drama de idosos em meio ao caos

Portal Terra

O relato de quatro personagens, todos com mais de 60 anos de idade, moradores dos três municípios mais atingidos pelo temporal da última quarta-feira: Nova Iguaçu, Queimados e Japeri, revelam o drama de quem não tem mais idade para suportar a dor da perda e o esforço para recomeçar, muitas vezes, tudo do zero. 

Acordei e chovia muito. Sempre tive o costume de acordar cedo. Gosto de pão quentinho. Fui até a padaria, era mais ou menos 5h45. Quando eu voltei, meu muro da entrada de casa estava todo no chão. Minha esposa acordou no susto. Moramos nós dois aqui. Meu filho ajuda, claro, mas ele tem que trabalhar. E eu não tenho dinheiro e nem força para fazer um muro novo. Os canos estão estourados. A Cedae (companhia de abastecimento de água do Rio) disse que vai vir reparar. Duvido. Vou tirando os tijolos aos poucos, como eu posso. Um rapaz aqui da rua trouxe uma madeira e me ajudou a fechar minha casa.

Essa casa não caiu pela misericórdia de Deus. Eu estava com minha neta, e minha filha. Foram eles que me socorreram e me tiraram. Eu tenho osteoporose, não consigo andar direito. E sofro de diabetes e sou hipertensa. Me sinto jogada aqui, esquecida. Qualquer chuva aqui é esse mesmo sofrimento. Para uma senhora que não anda direito, o que vai acontecer se vier outra chuva como essa? Nas eleições, todo mundo vem com promessa. E fica nisso. Perdi um bocado de roupa. E roupa de velha não é fácil de arrumar, né? Estou precisando de ajuda. Meu guarda-roupa caiu, perdi móveis, mas daqui eu não saio. Se Deus me deu, o diabo não tira. 

De tanta água que caiu, resolvi fazer um muro na porta da minha casa. É o jeito. Ficou feio. Mas pelo menos segura um pouco a água. Me sinto cansado. Faço uns bicos de segurança numa propriedade perto daqui. Mas me sinto cansado. Desde a chuva da última madrugada (de quarta-feira) que eu praticamente não durmo. Moro sozinho. Os vizinhos ajudam. Mas eu não posso parar. É minha casa. Coloquei todas as coisas para o alto. Salvei o que eu pude. Agora tem que lavar tudo, estou com sono, minhas costas estão doendo. E ainda estou com medo de que venha outra chuva como aquela e destrua tudo de uma vez. 

Eu já estava esperando essa chuva. Aqui, como o amigo ali disse agora, a gente dorme com a mosca na orelha. Sempre de prontidão. Agora há pouco eu tirei um soninho para não maltratar as ideias, mas ainda estou cansado. Estava tirando água de casa até agora. Me emprestaram uma bomba. Mas perdi uns seis quilos de mistura, mais uns dez de arroz. A compra do mês foi embora. Perdi uns três móveis. Estou com dor nas costas de tanto abaixar para mexer na bomba e passar o rodo. Mas não faz mal. Não tenho medo dos castigos de Deus.

Tags: chuva, esperando, essa, estava, eu, já

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