Jornal do Brasil

Segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Rio

Criminalidade cresce em pontos turísticos do Rio

Lapa, Praça Tiradentes e o Parque Nacional da Tijuca sofrem com o abandono e o descaso do governo

Jornal do BrasilCláudia Freitas

As belezas naturais do Rio de Janeiro estão ofuscadas pela crescente "onda" de violência que tem preocupado a população e espantando os turistas à poucos meses da Copa do Mundo. Enquanto as estatísticas do Instituto de Segurança Pública (ISP) revelam que os bairros da Lapa, Santa Teresa e Tijuca registraram os maiores índices de furtos e roubos no primeiro semestre do ano, a percepção da população e análises de especialistas apontam para a eclosão da violência nos locais de turismo. Durante o dia, os arrastões ganharam as areias das praias cariocas, já na parte da noite, a Lapa e o seu entorno viraram os principais alvos da marginalidade. O Parque Nacional da Tijuca, com as suas diversas trilhas que levam ao Corcovado, concentra o maior número de ocorrências registradas na cidade e a revitalizada Praça Tiradentes recebeu este ano os usuários de crack como novos habitantes, além das recentes casas de prostituição.                

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De acordo com os dados do ISP, em Santa Teresa houve um aumento de 39% no número de assaltos no primeiro semestre deste ano, em comparação ao mesmo período de 2012. Na Lapa, esse tipo de crime cresceu 13%. No feriado de Zumbi dos Palmares, os arrastões atrapalharam a diversão dos cariocas na praia do Leblon, na Zona Sul. Houve muita correria e várias pessoas foram detidas por furto. Na semana seguinte, novo arrastão causou pânico a moradores e turistas em uma das ruas mais movimentadas de Copacabana. No domingo (1/12), o jovem Conrado Paes, de 19 anos, foi morto durante um assalto nas proximidades da Lapa e, no dia seguinte, um morador de rua morreu ao ser esfaqueado na Rua da Lapa. 

Arcos da Lapa
Arcos da Lapa

Na terça-feira (3/12), a prefeitura deu início à Operação Verão nas praias da cidade, mas o Centro e a Lapa continuam sofrendo os efeitos do abandono e da falta de segurança. Os donos de casas de shows e restaurantes na Lapa, que fazia parte do roteiro obrigatório dos turistas na noite carioca, contabilizam os prejuízos com o desaquecimento do comércio na região. E ao redor dos Arcos, as ruas mudaram o visual e apresentam os efeitos diretos do aumento da criminalidade. Uma delas é a famosa Rua do Lavradio, que abriga o "Quarteirão Cultural". Para dar ambiência ao local, um dos trechos da rua é pouco iluminado e não possui um policiamento reforçado, e com isso virou ponto estratégico dos marginais, que não respeitam nem a delegacia que fica no final da via. 

Bem perto dali, a Praça Tiradentes é mais um patrimônio público desvalorizado pela violência. A praça, que agrega valores histórico, cultural e é considerado um dos berços da boemia, recebeu um investimento de R$ 3,5 milhões financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em uma reforma que durou mais de um ano, sendo entregue à população em agosto de 2011. Porém, a nova fase da praça está marcada pelo crescimento alarmante de usuários de crack, assaltos e novas casas de prostituição, que dividem espaço num quadrilátero que conta com um dois dos mais famosos teatros do Rio, o Carlos Gomes e o João Caetano, além da lendária gafieira Estudantina. Esse aglomerado cultural está relegado ao abandono das autoridades policiais, apesar do visual renovado. 

O especialista em segurança pública e diretor da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança no Rio, Vinicius Cavalcante, lançou um olhar mais específico para o cenário atual da Praça Tiradentes, classificando-o como "degradante". O escritório de Cavalcante fica em um dos quarteirões que dão acesso à Praça Tiradentes, o que facilitou ele fazer um estudo mais minucioso do local. Ele notou que nos últimos meses, o policiamento na região foi reduzido, apesar do local contar com o 5o. Batalhão da Polícia Militar, o Quartel General da PM e uma delegacia. Segundo ele, raramente passa uma patrulha e a população de cracudos aumentou assustadoramente, causando medo aos comerciantes, moradores e turistas. "Um dia desses, quando eu caminhava pela praça, uma mulher colocou um papel na minha mão. Estava escrito 'Meia hora por R$ 15'. E ainda observei que na porta do estabelecimento que ela estava parada em frente tinha uma placa 'Precisamos de moças'. Isso é muito lamentável e está se alastrando pela Tiradentes. É uma prostituição dolorosa", contou o especialista.

Rua do Lavradio, na Lapa
Rua do Lavradio, na Lapa

Há 30 anos atuando na Praça Tiradentes, a prostituta que se identificou como Fátima, de 45 anos, contou que o local foi tomado por um número enorme de cracudos desde o ano passado. "Eu nunca vi um aumento tão grande de cracudos aqui na praça. Não adiantou nada o local ficar bonito e sem segurança. Claro que isso atrapalha o nosso trabalho. A minha clientela, por exemplo, é de homens mais velhos e eles não querem se arriscar com a violência que está aqui ultimamente", contou Fátima, que teve uma redução de 15 para 2 programas por dia. Segundo ela, o consumo de drogas acontece nas ruas ao redor da Tiradentes, a qualquer hora do dia, intensificando a partir das 22h. Fátima contou que no último domingo (1/12) um rapaz passou o dia inteiro na praça consumindo drogas e já "estava fora do ar". "Depois eu fiquei sabendo aqui que esse rapaz matou o homem lá na Avenida Chile", disse Fátima, se referindo ao assalto seguido de morte de Conrado Paes. Ao circular pela Tiradentes, não é difícil encontrar uma enorme concentração de usuários de crack, mendigos e até ponto de aposta do jogo de bicho. 

Vinícius Nascimento avalia que o aumento da criminalidade no Rio é em consequência a uma conjunção de situações críticas nas esferas policial e social. Cavalcante ressalta que o policiamento na cidade está deficiente desde o mês de julho, quando os policiais militares foram deslocados das suas áreas de atuação para os locais de manifestações. Assim, algumas áreas consideradas críticas ficaram vulneráveis. "E essa mudança no policiamento da cidade ainda favoreceu os criminosos, que aproveitaram para praticar pequenos delitos e desmoralizar a imagem da PM", comentou o especialista.

Nascimento observa ainda a mudança de estratégia da bandidagem, que com a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) trocaram as comunidades por regiões no seu entorno. Os delitos praticados em maior frequência na cidade são característicos de "bandidos de segundo escalão", que deixaram os morros e caíram na clandestinidade.

Especialistas avaliam as políticas de segurança pública em pontos turísticos do Rio às vésperas da Copa do Mundo
Especialistas avaliam as políticas de segurança pública em pontos turísticos do Rio às vésperas da Copa do Mundo

O sociólogo e cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Paulo Baía, desenvolveu um estudo abrangente que enumera várias causas para a crescente violência nas regiões de acesso aos pontos turísticos, como os bairros da Zona Sul, Santa Teresa, que são compostos por vias que de acesso ao Corcovado e a Tijuca, que leva ao Parque Nacional. No entanto, Baía considera que estes locais se tornaram atraentes para os bandidos, porque os turistas que circulam por ali carregam câmeras fotográficas, joias e outros valores. 

As análises de Baía concluem que as políticas públicas de segurança do governo do estado favoreceram o aumento da criminalidade na cidade nos últimos anos, que teve seu alvo final os territórios turísticos. Para ele, nas áreas consideradas pacificadas houve uma debandagem das lideranças criminosas. Baía citou o fortalecimento das milícias em outras regiões da cidade, considerando que este grupo também surgiu a partir das políticas do estado. Esse quadro determinou a saída "dos soldados do crime" das comunidades para agirem nos locais emblemáticos. "Até os acessos a estes pontos turísticos estão comprometidos com os resultados das políticas ineficientes de segurança", diz o especialista.  

As pesquisas de Paulo Bahia revelaram dados sobre o consumo de crack no Rio, que tomou proporções avassaladoras recentemente. Para ele, a organização criminosa paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) estabeleceu as suas atividades no Rio após o governo do estado transferir as lideranças criminosas para presídios federais, facilitando uma parceria entre as facções. O crack foi um dos produtos que mais cresceu na cidade com a partir desse processo. O sociólogo lembrou que no Rio de Janeiro, o Comando Vermelho e a ADA (Amigos dos Amigos) não eram a favor do uso do crack, mas mudaram esse perfil após firmarem uma parceria com o PCC. A expansão do jogo do bicho aconteceu da mesma forma.

Tags: Copa, cracudos, segurança, turistas, violência

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