Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Rio

Setor de turismo prevê bom desempenho durante verão do Rio

Mesmo com episódios de violência, agentes do segmento apostam em leve crescimento

Jornal do BrasilGabriella Azevedo*

Com os recentes casos de violência ocorridos nos principais pontos turísticos do Rio, como os arrastões nas praias cariocas e furto seguido de morte no bairro da Lapa, o desempenho do turismo na cidade no próximo verão passou a ser questionado. Os episódios tiveram visibilidade internacional e culminaram em um comunicado do consulado americano, alertando para os perigos contra turistas na cidade. Apesar disso, especialistas e agentes do setor afirmam que os casos não devem afetar a atividade turística do Rio durante o verão. O segmento reconhece que os eventos são “desagradáveis” e afetam negativamente a imagem da cidade, mas o aspecto passageiro das ações violentas contribuiu para recuperar a confiança dos turistas.

Ainda de acordo com o setor, o período de manifestações afetou de forma negativa o turismo no Rio, entre os meses de junho e outubro. O reflexo dos atos violentos na imagem turística do país fez, inclusive, com que a ONU alertasse para que o Brasil investigue o uso excessivo de força policial. Apesar disso, a tendência não deve se estender para o verão e a cidade deve fechar o ano atingindo a marca de três milhões de turistas. De acordo com o presidente da presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagens do Rio (ABAV-RJ), George Irmes, o aumento de turistas na cidade deve ser entre 10% e 15% em relação a 2012.

“Temos previsão de mais ou menos três milhões de turistas para o verão, de dezembro a março. Esse número gera quase US$ 3 bilhões de dólares. No réveillon, por exemplo, a cidade explode, quase um milhão de turistas internacionais, mais os daqui”, prevê. Apesar disso, reconhece que a “mídia negativa em torno do Rio” contribui para frear o turismo. “Precisa acabar a mídia negativa em torno do Rio de Janeiro, por conta das manifestações. Dessa forma, o turista não vem”, reclama.

Confirmando as previsões de Irmes, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ), Alfredo Lopes, mostra que mais de 70% das vagas para o Réveillon no Rio já forma reservadas, e que a previsão é chegar a 98%, com 30% de hóspedes internacionais e 70% nacionais. Lopes garante desempenho positivo durante a alta temporada carioca, devido à visibilidade dos grandes eventos, como a Copa do Mundo de 2014, que despertam curiosidade.

“A alta temporada de verão vai ser bastante aquecida pela visibilidade por conta dos grandes eventos, inclusive com presença de turistas internacionais. Nós estamos com um representante em Dubai conversando com outro representante da Emirates [Airlines] e isso [impacto das manifestações] foi levantado lá. Perguntaram se já estava controlado, porque saiu no mundo inteiro. Tem protesto no mundo todo, mas o que prejudicou no caso do Rio foi a extensão e a depredação”, explica Lopes.

Uma pesquisa realizada pela própria ABIH-RJ indica o impacto na ocupação dos hotéis do Rio de Janeiro por conta dos protestos na cidade. Das reservas para a semana de 17 a 24 de junho, 27,57% foram canceladas no Centro da cidade. Já no Flamengo/Botafogo, o índice de cancelamentos foi de 12%, enquanto em Copacabana/Leme foi registrado 7,14% de cancelamentos e Ipanema/Leblon, 4,96%. Na Barra da Tijuca, os índices foram inferiores a 1%. Os números afirmam que os cancelamentos foram mais significativos nos locais que concentravam as manifestações mais frequentes e intensas. 

Diferentemente dos meses de protestos, Alfredo Lopes afirma que o fim de ano não sofreu cancelamentos de reservas. George Irmes, da ABAV-RJ também aponta que não forma registrados cancelamentos de reservas de voos e hospedagem por conta da violência no Rio durante esse fim de ano, de acordo com a associação, mas considera os episódios de violência “desagradáveis” para a imagem do Rio.

“É uma coisa passageira, mas é desagradável. Nós já estivemos várias vezes na lista do departamento de estado americano. Eu conheço o mundo inteiro, sempre em agência, vou completar 50 anos de agência de viagens, e posso dizer que esse tipo de coisa é natural e rapidamente esquecido. Não temos terrorismo como na Síria, Egito, Israel, nós somos diferentes desse tipo de violência. É desagradável, mas não é por isso que haverá problema. O Rio não deixa de ser um paraíso para os americanos”, releva.

Apesar disso, os números de cancelamento levantados pela ABIH mostram uma grande preocupação com a segurança por parte dos turistas. O professor Mário Beni, do departamento de Turismo da Universidade de São Paulo (USP), explica que a segurança ainda é elemento principal no planejamento de viagens e explica que episódios anteriores de violência, como o arrastão de 2004, tiveram forte reflexo no setor de turismo do Rio.

“O item de segurança é sempre o primeiro para a rejeição do fluxo receptivo internacional, a resistência, rejeita, a grande preocupação é segurança. É preocupante, não tenha dúvida. Para dar parâmetro, quando houve ‘Operação arrastão’, há anos atrás, mais de 100 voos para o Rio foram cancelados. Por aí você mede o impacto dessa questão da segurança. Esse ano foi agravado com os movimentos sociais, que não são movimentos voltados para processos violentos, mas foram comprometidos. Efetivamente, o problema de segurança é muito sério”, alerta Beni.

Apesar disso, o professor confirma a previsão otimista dada pela ABIH, mas explica que o bom desempenho é resultado da vinda dos grandes eventos. Para ele, em qualquer outro ano, o Rio sofreria com a redução do receptivo de turistas, tanto estrangeiros quando nacionais. “Não tenho dúvidas de que o turismo no Rio vai crescer, mas muito em razão da Copa. É um ano atípico, o turista vem porque quer conhecer, e mesmo com os problemas de segurança, o desempenho não vai ser comprometido. Se fosse um ano comum, teríamos certamente impacto negativo, com sensível redução do fluxo, nacional e internacional. Porque turista brasileiro também se preocupa”, ressalta.

O presidente da ABIH-RJ também evidencia outra tendência durante o período das manifestações, que foi a transferência de reuniões e eventos de negócios para outros países da América do Sul, como Chile e Argentina. “O que ocorreu é que muita gente não veio para cá e mudou de destino. Principalmente os americanos em reunião e eventos de negócios, transferidos para países próximos, como Argentina, Chile”.

O presidente da ABAV-RJ, George Irmes, confirma as previsões dos colegas de setor e também aponta a Copa do Mundo como atrativo principal neste ano. “O que nós temos é que, na alta temporada, o Rio é muito procurado. Agora, mais ainda pela curiosidade dos grandes eventos, como a Copa do Mundo no ano que vem, e isso promove a cidade”. Para Irmes, os argentinos e americanos, principais turistas do Rio, virão em peso, como de costume. Além desses, os países envolvidos culturalmente no mundo do futebol, como espanhóis, portugueses, italianos e alemães, devem complementar a lista de estrangeiros na cidade.

Já o presidente da Associação Brasileira de Turismo Receptivo Internacional (BITO), Salvador Saladino arrisca e aponta a resposta rápida das autoridades como um dos fatores para garantir o sucesso do turismo de verão. “Esperamos uma temporada igual à passada. Não prevejo aumento significativo, mas também não prevejo queda. [Sobre a violência] existe uma situação social e política, a social não cabe a mim, mas logo ocorrido, as autoridades fizeram o dever de casa, por isso, não vejo como impactar. E o consulado fez o trabalho dele. Além disso, você pode passar por esse tipo de violência em qualquer lugar do mundo. Não é uma prerrogativa específica do Rio, então acredito que não vai ter impacto. Cada país tem sua própria característica, mas evidentemente são situações que chamam atenção das autoridades, mas por sorte, aconteceu antes da alta temporada”, comemora.

Irmes assume que o desempenho do Rio não terá aumento expressivo na comparação com o ano passado, mas culpa a crise econômica internacional, que contribui para uma redução de estrangeiros dispostos a desembolsar uma parte do orçamento com viagens. O presidente da ABAV-RJ finaliza explicando que o receptivo do Rio ainda conta com as dezenas de navios que aportam na cidade, trazendo quase um milhão de passageiros para o município.

“Esquecemos os onze navios que chegam ao Rio, cada um com mais de 3 mil passageiros e todos eles vão aportar pelo menos umas 200 vezes durante o período que começa em novembro e vai até o mês de abril. São quase um milhão de passageiros só de marítimo que movimentarão o verão carioca. Ficam aqui pelo menos um dia, e comprarão milhões de dólares em lembranças”, relembra.

*Do programa de estágio do Jornal do Brasil

Tags: 2014, Copa, eventos, impacto, projeção, Rio, turismo, violência

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