Primeira exumação da Comissão da Verdade é realizada no Rio
Peritos vão analisar se corpo é de Alex Xavier, guerrilheiro desaparecido em 1972
"Volta tudo como um filme, né? Eu estive com o Alex às 9 e meia da manhã, tomando café da manhã. Ele dizia: tchau, irmã, até amanhã. E você fica é com a última imagem. E aí, você chega, pela terceira vez para exumar o corpo. Tudo que eu espero é reconhecer se aquela ossada é o Alex. E que o Ministério Público forneça a denúncia para apurar a autoria de ocultação de cadáver no caso do Alex”.
Iara Xavier Pereira, de 61 anos, conta no trecho acima como foi o último encontro que teve com o irmão Alex Xavier, no dia 20 de janeiro de 1972. Pelo registro oficial, Alex teria morrido durante um tiroteio após um acidente de carro, próximo à Avenida República do Líbano, em São Paulo. O ex-estudante do Colégio Pedro II militava na Ação Libertadora Nacional (ALN) contra a ditadura militar. Na realidade, o irmão de Iara foi torturado e morto pelos oficiais da repressão.
Morto em 1972, Alex foi enterrado como indigente com o nome de João Maria de Freitas no cemitério Dom Bosco, no bairro Perus, em São Paulo, utilizado para enterrar vítimas do regime militar. Em 1979, uma ossada foi encontrada e transferida no ano seguinte para o cemitério de Inhaúma como sendo de Alex. A Identidade, porém, nunca foi confirmada.
Nesta terça-feira (9), representantes do Ministério Público, membros da Comissão da Verdade no Rio de Janeiro e da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos acompanharam a exumação das duas ossadas enterradas no túmulo da família Xavier Pereira. Uma das ossadas já havia sido identificada anteriormente como sendo de Iuri Xavier Pereira, irmão de Iara e Alex. Após a análise desta terça-feira, peritos da Polícia Federal encaminharão o material genético para Brasília. Partes do fêmur e dos dentes, as partes mais conservadas da ossada humana, serão analisados.

“A exumação foi decidida no final de 2012, a pedido da Iara e do Ministério Público Federal. Se houve alguma demora, foi por causa da burocracia, de todos os processos que envolvem o pedido e a realização de um procedimento como esse”, disse Gilles Gomes, presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. “Já houve uma indenização pecuniária, em um valor entre R$ 100 e R$ 120 mil. Agora, a indenização é simbólica”, explicou Gomes, que classificou o trabalho de exumação dos corpos como “muito importante”:
“Este trabalho por si só é uma mostra de que, se não formos a fundo nesse problema, a ditadura ainda persiste. Saber explicar o que aconteceu com o Alex é limpar um pouco o que a ditadura fez no Brasil”, finalizou.
Ministério Público em pauta
Sérgio Suiama, procurador do Ministério Público Federal em São Paulo, explicou que desde 2002 o Ministério Público atua buscando identificar o paradeiro de desaparecidos políticos, que segundo dados oficiais somam 361 no Brasil. Ele conta que mais de mil corpos foram enterrados na vala de Perus, em São Paulo, e que o MPF começou a atuar no caso da Guerrilha do Araguaia.
Desde 2010, com a aprovação da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos, determinando que o Brasil investigue e puna os agentes da ditadura militar, foi constituído um grupo de trabalho para apuração criminal dos casos de desaparecimentos, sequestros e mortes durante o regime militar.
“Nosso trabalho é duplo: prestar contas à família, que busca há quatro décadas os restos mortais de seus entes queridos, e também perante toda a sociedade, de levar à Justiça os autores deste crime”, explica ele, acrescentando que quatro ações penais(duas em Marabá e duas em São Paulo) já foram abertas. As ações estão relacionadas a oito casos de sequestro. “Temos 180 investigações em andamento, voltadas a outros casos que ainda não foram concluídos”, finalizando, acrescentando que não há nomes citados no crime de ocultação de cadáver, no caso de Alex.
