Mãe de usuária de crack tenta há sete meses internação involuntária da filha
Justiça do Rio de Janeiro arrasta processo e não se pronuncia sobre demora
Depois de ver a filha perder doze quilos e passar a morar, alternadamente, em cinco cracolândias espalhadas pela cidade, a costureira Rita de Cássia Mendonça Cruz, moradora do Morro do Tuiuti, em São Cristóvão (Zona Norte do Rio), decidiu ingressar na Justiça pedindo a internação forçada da primogênita. A carioca viu na internação involuntária de adultos usuários de crack, anunciada pelo prefeito Eduardo Paes em fevereiro deste ano, como a única saída capaz de salvar a filha de 28 anos. Mas enganou-se.
Em setembro do ano passado, Dona Rita, como é carinhosamente conhecida no Morro do Tuiuti, ingressou com ação judicial na 4ª Vara de Órfãos e Sucessões do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Passados sete meses, não teve nenhum retorno do pedido feito por meio da Defensoria Pública do Rio.

Neste período, viu a filha sair de casa e ir morar na rua. Além de ter ido buscar a jovem em diversas cracolândias da cidade. Camila é mãe de um menino de apenas 12 anos e, antes de descobrir o crack, era auxiliar de um consultório dentário na Zona Norte do Rio. Ela foi afastada do emprego assim que se envolveu em um acidente de carro. Na época, havia começado a usar a droga. No acidente, rompeu o fêmur e viu sua frustração crescer junto com a vontade de usar cada dia mais e mais crack.

A atual aparência de Camila assusta. Ela traz no corpo as marcas de violência e abuso sexual sofrido na rua. Foi estuprada duas vezes por homens diferentes e teve alguns dentes quebrados por soco dado por outro usuário de crack, enquanto frequentava uma cracolândia em Del Castilho (também na Zona Norte).
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"Já fui buscar minha filha no Jacarezinho, na Bandeira Dois (comunidade em Del Castilho), em Triagem, na cracolândia que fica na linha do trem. Perdi as contas do número de vezes em que eu tive que pedir pelo amor de Deus para conseguir entrar numa cracolândia e convencer minha filha a vir para casa. Eu vou lutar pela Camila até o último minuto em que ela estiver viva. O problema é que, quanto mais o tempo passa, menores as chances de resgatá-la", desabafa a costureira.
"A Justiça não me dá um parecer. Será que só consegue internar e salvar um filho quem tem dinheiro para isso? Eu canso de ver o prefeito falando na TV que vai internar os usuários de crack. Por que eu não consigo uma internação para a Camila?".
Há duas semanas, depois de sentir fortes dores nos rins quando estava na cracolândia de Del Castilho, Camila voltou para casa e foi convencida pela mãe a se consultar com um psiquiatra no Centro Especializado no Tratamento da Dependência Química (Cead), no mesmo bairro onde a família vive. Durante a consulta, pediu para ser internada. Tudo o que conseguiu foi uma clínica em Santa Cruz. No entanto, passados cinco dias, já pensa em sair. Caso insista, Camila poderá ser liberada, já que sua internação não é involuntária.
"Se a Camila bater o pé e voltar a usar drogas na rua vai morrer rápido, porque já tem o corpo debilitado pelo uso da droga. Ela tosse muito e sente dores fortes nos rins. Só uma internação mais prolongada é capaz de deixar a minha filha realmente limpa. Do contrário, não adianta de nada", reclama Rita de Cássia. "Ela não pode sair da clínica sem estar devidamente recuperada".
Juíza e Estado não respondem
Titular da 4ª Vara de Órfãos e Sucessões, a juíza Andréa Pachá foi procurada pelo Jornal do Brasil, mas não se pronunciou sobre a morosidade do processo. Já Secretaria estadual de Assistência Social foi procurada durante dois dias para explicar o porquê na demora da internação, mas também não atendeu às solicitações do Jornal do Brasil.
marialuisa.melo@jb.com.br
