"Quem dera tivesse perdido tudo mas tivesse meus filhos", diz mãe após chuva
Mãe perdeu filha e enteado após muro cair sobre a casa em Petrópolis
A chuva fez desabar a vida de Jacira Barbosa Siqueira na madrugada de domingo para segunda (18): os 440 mm de chuva que se precipitaram sobre a cidade derrubaram o muro sobre a casa onde também estavam os dois filhos e um enteado: Adriano Siqueira, de 14 anos; Jade Siqueira, de 12 anos; e Lucas Ladislau Santos, de 15 anos. Os dois últimos faleceram após serem retirados dos escombros.
Jade foi enterrada na segunda-feira e Lucas, velado e enterrado nesta terça-feira, ambos no Cemitério Municipal de Petrópolis. Adriano quebrou a perna, mas se recuperou e segue sem risco de morte no hospital.
Muito emocionada e indignada pela morte das duas crianças, ela se mostra pouco esperançosa com o futuro da cidade após mais uma chuva com vítimas fatais, algo tão recorrente nos últimos anos.
“Não vai mudar nada. Tenho certeza. Há anos que esse tipo de coisa acontece e nada mudou”, disse ela, dura em suas palavras. Ela lembrou, com ironia, sobre a ação dos políticos no local. “Eles só vêm aqui para pedir votos. Depois, só aparecem para dizer que precisamos ir para um abrigo ou para deixar nossas casas. Mas nós não temos onde morar. E aí, como fica?”, disse, muito irritada. “Que prefeito é esse que nós temos aqui?”, questionou ela.

Jacira conta que a política do governo, nessas horas, se resume a oferecer cesta básica para os moradores. “Não estamos passando fome. Queremos é moradia, uma casa decente para morar”, disse ela, que acredita que um muro mal construído sobre a casa dela pode ter ajudado a causar a tragédia:
“O muro foi enfiado dentro da terra, sem base nenhuma. Com a chuva, a terra foi encharcando e ficou um poço logo atrás do muro. Uma hora a pressão fez com que o muro arrebentasse e caísse. E um muro mal feito acabou matando duas crianças”, disse ela, sem conter as lágrimas.
>>> Número de mortos sobe para 27
>>> Ministro da Integração visita áreas atingidas pelas chuvas no RJ
>>> Jardineiro salvou menina antes de ser soterrado em Petrópolis
>>> Petrópolis: criança de 12 anos morreu durante comemoração de seu aniversário
O momento era difícil, ainda mais para quem perdeu dois filhos de uma vez. Parada entre as sacolas de roupas que contém o pouco que conseguiu salvar da casa que havia acabado de ser reformada ( “tinha construído um muro aqui na frente e uma churrasqueira lá atrás”), Jacira de repente se viu vazia sem os dois filhos por perto. Duas crianças que, tão jovens, foram levadas embora da presença dela.
“Nada do que eu mantenho aqui agora vale alguma coisa. Preferia ter perdido tudo mas ainda ter os três comigo”, finalizou ela, com a expressão inconsolável de quem se se sente impotente para proteger os filhos do destino trágico.
Brincalhão
Entre os amigos, Lucas era visto como um rapaz muito brincalhão, alegre e divertido. “Ele era muito legal. Na noite que ele morreu, antes de começar a chover, ele estava lá soltando pipa com a gente”, disse P., de 17 anos.
D., de 15, riu quando perguntado se Lucas falava sobre alguma profissão que quisesse seguir quando crescesse. “Ele não tinha se decidido não. Queria curtir mais um pouco”, disse ele, lembrando que Lucas era aluno do 9º ano da Escola Municipal Clemente Fernandes.
“O pior é saber que nada vai mudar depois disso”, disse G, de 13 anos, outro amigo de Lucas. Será mesmo?
