Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Maio de 2013

Rio

Chuva ainda põe em risco população de Nova Friburgo

Com obras de recuperação derrapando, encostas e enchentes continuam a fazer vítimas na cidade

Jornal do Brasil

Cidade mais afetada pelas chuvas de janeiro de 2011, pouca coisa mudou desde então em Nova Friburgo, na Região Serrana. Os moradores ainda convivem com deslizamentos de encostas, enchentes e falta de assistência dos governos - as esferas federal, estadual e municipal não conseguem se afinar - para recuperar a condição de vida que tinham antes dos temporais matarem centenas de pessoas na cidade.

Uma das localidades mais afetadas na ocasião, o bairro de São Jorge segue em perigo. Em novembro de 2012, um novo deslizamento na região destruiu mais de uma dezena de casas e matou três pessoas de uma mesma família. Toneladas de pedras desprenderam-se da encosta.

A Defesa Civil interditou todas as casas na localidade do bairro de onde as pedras deslizaram, mas, sem opções, muitos moradores retornaram para suas antigas moradias. É o caso de Maria Helena Pires Araújo, líder comunitária na região. Sua residência – bem em frente às pedras caídas – fica no mesmo terreno onde vivem dois de seus filhos com suas famílias. Ela chegou a deixar o local, mas voltou por falta de condições de se manter:

“Saímos só com a roupa do corpo e ficamos dois meses na casa da minha irmã. No dia em que caiu a encosta, lama e pedras menores cobriram tudo. Meu filho chegou a passar mal com o susto. Agora nós esperamos que alguém faça as obras para dar segurança ao local. Tem um monte de casas boas, para onde as pessoas poderiam voltar”, relata.

Segundo a líder comunitária, “quase ninguém recebeu o Aluguel Social” em São Jorge. É o caso da aposentada Maria de Lurdes Duarte, de 57 anos. Mãe de um menino de 15 anos com necessidades especiais, ela ficou cinco meses fora da comunidade:

“Nunca recebi Aluguel Social. Passei cinco meses fora, pagando do meu bolso R$ 350 de aluguel. Moro aqui há 19 anos. Meu filho mais velho também morava no bairro e tinha uma confecção aqui, mas sua casa foi atingida e teve que sair”, reclama.

A secretaria de estado de Assitência Social e Direitos Humanos (SEASDH) afirma que 7479 famílias recebem o aluguel social, no valor de R$ 500, sendo 2707 delas em Nova Friburgo, cidade com mais atendidos. Segundo a SEASDH, são as prefeituras que efetuam o cadastramento para os interessados no benefício através do Centro de Referência da Assistência Social (Cras), cabendo ao governo do estado apenas o pagamento. 

O governo do estado só é diretamente responsável pelo cadastro em casos como o de São Jorge, nos quais famílias são retiradas de casas interditadas em áreas de risco.  Nestas ocasiões, técnicos das secretarias da Casa Civil ou Obras fazem um pré-cadastro, que é complementado pela SEASDH. Maria de Lurdes questiona os critérios para a obtenção do aluguel social:

“Meu filho, que perdeu uma casa aqui, também não recebeu nada. Mas a inquilina dele recebeu e também sabemos de casos de pessoas que recebem aqui em Friburgo e em Petrópolis ao mesmo tempo. Não tem o menor critério”, critica.

A secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos não informou se há recursos para o pagamento de Aluguel Social a todas as famílias que postulam o benefício. Limitou-se apenas a recomendar que as pessoas sigam procurando os Centros de Referência de Assistência Social. Contudo, diversos moradores de Nova Friburgo afirmam ir ao órgão semanalmente, mas não recebem nem mesmo uma previsão de quando passarão a receber os valores.

Medo continua

Nascida e criada em São Jorge, Ilma Souza Braga, de 44 anos, quer abandonar Nova Friburgo. Ela diz que todos no local convivem com o medo de uma nova tragédia a cada nova chuva e, por isso, deseja deixar a cidade:

“Não quero mais ficar aqui. Tudo ficou conforme estava, só vemos mesmo as casas populares sendo construídas no centro [de Friburgo] e nada mais. Ninguém esquece aquele dia, começa a chover e todo mundo se apavora. Hoje trabalho para ir embora”, desabafa, com os olhos marejados.

A jovem Cristiane Melo, de 23 anos, olhava assustada para o céu que começava a nublar. Nem as obras de contenção e canalização, que mal tinham começado na comunidade, a deixavam esperançosa de um futuro sem riscos:

“Só tivemos promessas, mas ninguém fez nada por nós. Domingo (10) mesmo as sirenes foram acionadas e ficamos apavoradas”, explica.

O medo de Cristiane se mostrou verdadeiro. Pouco mais de uma hora depois, uma pancada de chuva de cerca de 15 minutos foi o suficiente para parar esta parte de Nova Friburgo. Sem canalização adequada para as águas pluviais, as ladeiras da cidade viraram verdadeiras cachoeiras, alagando as vias mais baixas. Nelas, a água chegava aos joelhos das pessoas que tentavam atravessar os pontos de alagamento.

“Toda chuva deixa a cidade assim e ninguém faz nada”, afirmou um morador que não quis se identificar.

Tags: aluguel, chuvas, friburgo, nova, serra, SOCIAL, Tragédia

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.