Hotel e moradores do Leme querem providências sobre moradores de rua
Prefeitura é criticada pela população e hotéis esperam por trabalho com "início, meio e fim"
Nos arredores do Hotel Windsor Atlântica, na divisa entre os bairros de Copacabana e Leme, uma cena já se tornou comum: moradores de rua tomavam banho nos chafarizes da praça que toma toda a extensão da Avenida Princesa Isabel, em Copacabana.
Tanto a direção do hotel quanto os moradores do Leme são unânimes em dizer que a situação é longe da ideal. A insegurança e o medo contaminam a todos.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Rio de Janeiro(ABIH-RJ), Alfredo Lopes, fala em trabalho com "início, meio e fim" para que esses moradores de rua não atrapalhem o turismo e, ao mesmo tempo, possam ter uma oportunidade de trabalho:
"Há de se pensar em uma maneira de recolocá-los no mercado, pois o mercado está avido por profissionais", disse Lopes, dando um exemplo que aconteceu com ele próprio quando era engenheiro civil: "Fazia uma obra na Lapa e havia uma quantidade imensa de mendigos naquela região. Um dia, perguntei para um deles se queria trabalhar na obra. Ele me disse que era carpinteiro, mas havia perdido todos os documentos. Eu disse que ia pagar a emissão dos documentos para que ele mostrasse se era de fato carpinteiro, e acabou trabalhando conosco", contou.
"Precisa-se de um acolhimento, seguido pela triagem e depois um encaminhamento, seja para os que querem trabalhar, seja para os que querem voltar para suas casas. O que não pode é ficar enxugando gelo, tirando as pessoas da rua para que elas voltem logo depois ao mesmo ponto", analisou Lopes.

A preocupação para a indústria hoteleira, segundo Lopes, é grande, uma vez que, com a proximidade dos grandes eventos na cidade, a tendência desse comportamento é aumentar. "Para a maioria deles, morar na rua é uma fonte de renda. E se não temos a possibilidade de tratar Copacabana, um dos maiores pontos turísticos da cidade, com a maior concentração de hotéis do Rio, como vamos cuidar do resto da cidade?", questiona o presidente.
"Estou cansado", diz líder comunitário
Para Chicão, morador do Leme há 50 anos e presidente da Associação de Moradores e amigos do Leme(Amaleme), o direito de qualquer cidadão de ir e vir não encobre o fato de que os moradores de rua são "recolhidos" do local quase todos os dias pela manhã para, de tarde, voltarem ao mesmo ponto.
"Muitos deles são usuários de drogas, já os vi saírem na base do tapa inúmeras vezes. O cheiro de urina e fezes é algo absurdo, e quase nada é feito naquela área ali, para nosso desespero", desabafa Chicão, que descreve a rotina daqueles moradores de rua. "A maioria deles acorda às cinco da manhã, já toma logo uma dose de cachaça e cheira um papelote de cocaína, para aguentar o resto do dia. É uma lástima que isso aconteça".
O líder comunitário não isenta a própria população de culpa: "Tentamos fazer uma campanha para conscientizar a população a não dar esmola para esses caras, mas outro dia uma mulher chegou com um saco cheio de roupas para eles. Você acha que dessa forma eles vão embora?" questiona. "O escárnio deles é tão grande que muitos já disseram para mim que, quando ficam cansados da repressão daqui, vão para o abrigo de Paciência, onde ficam os viciados em crack, usam a droga e depois voltam. Estou cansado de tudo isso", lamenta ele. Chicão, porém, acha que oportunidades têm que ser dadas para que essas pessoas marginalizadas possam sair das ruas. "Eles poderiam trabalhar para a prefeitura, depois de passar por uma desintoxicação. Não vejo por que isso não poderia acontecer", finaliza.
Resposta da Secretaria
A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, em nota, declarou que “durante a manhã desta terça-feira, 26, agentes da secretaria municipal de Desenvolvimento Social (SMDS) realizaram uma ação nos bairros do Leme e Copacabana, na Zona Sul, que acolheu cerca de 30 pessoas em situação de rua”. As ações de abordagem social são realizadas diariamente. As operações – que são maiores e contam com o auxílio da Polícia Militar e da Comlurb -, também acontecem regularmente nesta região.
Ainda segundo a nota, “só na semana que antecedeu o Carnaval, foram realizadas quatro operações em Copacabana e no Leme e mais de 100 pessoas em situação de rua foram acolhidas. Todos os abrigados adultos são encaminhados para a Unidade de reinserção Social Rio Acolhedor, em Paciência. Já os idosos são encaminhados para a Central de Recepção de Idosos Carlos Portela, na Ilha do Governador; os adolescentes (meninos) para a Central de Recepção Carioca, no Centro e, as adolescentes (meninas) para a Central de Recepção Taiguara, também no Centro.
