Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Maio de 2013

Rio

Niterói padece com o enfraquecimento da cultura

Museu do Caminho Niemeyer pode virar restaurante e cidade, que já teve 11 cinemas, hoje só tem dois

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Por conta de 'dificuldades no projeto', a prefeitura de Niterói pretende desistir do tão anunciado Museu do Cinema, no Caminho Niemeyer, em São Domingos, dando o último exemplo do enfraquecimento cultural que a cidade experimenta nos últimos anos. Enquanto construções sobem em ritmo acelerado, os espaços de cultura seguem na direção oposta. Maior exemplo são os cinemas: a cidade já teve mais de 11 espalhados pelos bairros e, hoje, possui apenas dois, ambos no Centro. 

O Conselho Municipal de Cultura de Niterói (CMCN) se manifestou contrário à mudança nos planos para o Museu do Cinema, já chamado de Centro Petrobras de Cinema. O presidente do CMCN, Sady Bianchin, criticou a falta de diálogo com o Conselho, órgão responsável por representar os interesses da sociedade civil. “Não houve o dialogo. O conselho não foi consultado e nem ouvido”, lamenta. 

Bianchin defende que a cidade carece de espaços para a cultura artística e lembra que o Museu era o “principal protagonista” daquele espaço. “Tirar o espaço de um museu que daria à população o acesso gratuito à cultura e transformar em um restaurante é deixar a cultura em segundo plano. Nossa posição é a de que deveriam retornar ao projeto original;  a cultura artística, cinema, salas de cinema de arte, Museu do Cinema. ”, critica. No último sábado (2), "O Globo" noticiou que o prédio não vai mais abrigar um museu, e sim um restaurante panorâmico. A Secretaria de Cultura de Niterói não confirmou a informação, mas não descartou a possibilidade de o prédio também abrigar um restaurante. 

Projeto de Niemeyer

O Centro Petrobras de Cinema
O Centro Petrobras de Cinema

O Centro Petrobras de Cinema é uma das construções do Caminho Niemeyer, iniciado em 1997. A ideia inicial do Caminho visava a construção de novos espaços culturais para Niterói - entre eles, o Museu do Cinema e o Teatro Popular -, além de revitalizar o Centro da cidade com o conjunto de sete obras projetadas pelo arquiteto falecido em dezembro. O projeto acabou sendo muito modificado e pouco aproveitado.

O Centro de Cinema chegou a ter sua inauguração anunciada para 2007, mas apesar da estrutura estar pronta, o belo prédio em formato de rolo de filme ainda não tem previsão de funcionamento. Em dezembro, o JB noticiou que o prédio estava entregue às baratas.

Já o Teatro Popular, apesar do nome, também nunca funcionou como previsto. Ao invés de proporcionar espetáculos teatrais a céu aberto para um grande público e com preços populares, o local recebe, esporadicamente, shows musicais que fogem da ideia de um espaço democrático. Com a mudança no comando da prefeitura de Niterói, a nova gestão espera reabrir o espaço em abril deste ano.

Sumiço dos Cinemas

Nos últimos anos Niterói perdeu, um a um, os cinemas em Icarai, Fonseca, e da Região Oceânica. Hoje, a cidade conta com somente dois locais de exibição, em shoppings do Centro da cidade. A saída para o niteroiense em busca de assistir aos filmes que são exibidos fora do circuito blockbuster é cruzar a Ponte em direção ao Rio. 

O professor do departamento de cinema e vídeo da UFF, Rafael de Luna é autor do livro “Cinematographo em Nictheroy - História das salas de cinema de Niterói” que traça um estudo do papel do cinema na cidade.  Ele aponta que a valorização extraordinária dos imóveis na cidade tornou inviável o funcionamento dos cinemas de rua. "Nos últimos 30 anos havia 11 salas - a diferença é que eram 11 cinemas. Agora são apenas dois cinemas, com 11 salas. Hoje só existe Multiplex, que é algo elitizado, centralizado, funciona em shoppings", explica. 

Rafael acredita que a falta de investimentos em cultura por parte do poder público impede que este cenário seja contornado. Outra solução seriam os patrocinadores privados, a exemplo dos cinemas no bairro de Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

"Em Niterói há pouca articulação em prol da cultura. Botafogo tem muitos cinemas de rua, mas não são auto sustentáveis, se sustentam com os patrocinadores como o SESC e o Itaú. Sem isso, a atividade cinematrográfica fora dos multiplex não é tão retornável", avalia. "Vejo uma completa exclusão cultural e elitização da cultura artística ligada ao cinema. Niterói não tem um cinema de arte", acrescenta Sady Bianchin. 

Jornal do Brasil procurou a Secretaria Municipal de Cultura de Niterói, que não explicou as mudanças no Centro Petrobras de Cinema.

Tags: Caminho Niemeyer, cinemas, cultura, museu do cinema, Niterói

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Comentários

1 comentário
  • cesar coelho cunha

    Niterói virou uma cidade de encaixotados em condomínios,engarrafados nas ruas com as mesmas dimensões do planejado no final do século XIV e um poder público a mercê das construtoras, dá nisso! Pasmem: as construtoras assediam até colégios!

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