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Terça-feira, 17 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Rio

Prefeitura do Rio passou dois anos sem investir em saneamento em favelas

Jornal do Brasil Maria Luisa de Melo

Responsável por planejar e executar o saneamento básico das favelas cariocas desde 2007, quando assinou com a Cedae um Termo de Cooperação, a Prefeitura do Rio parece ter abandonado sua obrigação entre os anos de 2008, quando Eduardo Paes assumiu a Prefeitura, até 2010. Neste período, as 764 comunidades cariocas cresceram sem rede de esgotamento sanitário e com fornecimento precário de água. O trabalho só passou a ser realizado a partir de 2010, com o lançamento do projeto Morar Carioca.

Passados quatro anos da assinatura do documento que eximiu a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) de prestar o serviço, a Cedae anunciou ao Jornal do Brasil que assinou um novo convênio com a Prefeitura e já no mês de março vai retomar o trabalho de esgotamento sanitário apenas nas 19 comunidades já ocupadas por forças de segurança - as "pacificadas". Nas demais 744, o serviço continua sendo de responsabilidade da Prefeitura e passa por graves problemas.  

Na recém-pacificada favela da Rocinha, onde segundo informações do Censo 2010 vivem quase 70 mil habitantes, o percurso do esgoto a céu aberto pode ser visto a qualquer horário do dia ou da noite em diversos pontos da comunidade, sobretudo na localidade conhecida como 'Roupa-Suja'. Ali é comum ratos invadirem casas e conviverem com crianças. A instalação de água que existe foi feita pelos próprios moradores através de mutirões.

Na Rocinha, a convivência com o esgoto a céu aberto virou rotina

No Santa Marta, primeira comunidade pacificada pela Secretaria de Segurança Pública, em 2008, o esgoto a céu aberto também pode ser encontrado em diversos pontos. No Morro do Chapéu Mangueira, no Leme, a maior carência é por água potável, já que há um reservatório muito antigo que não funciona mais. Ali, parte dos moradores utilizam água de uma fonte próxima que não é tratada. No Pavão-Pavãozinho, em Ipanema, pode-se encontrar muitos valões e esgoto sem tratamento algum. 

Primeira favela pacificada, Santa Marta também padece de rede de esgotamento sanitário

De acordo com a presidente da Comissão de Esgotamento Sanitário da Câmara de Vereadores do Rio, Teresa Bergher (PSDB), o prefeito Eduardo Paes "cruzou os braços diante da responsabilidade de arcar com o trabalho em algumas áreas do município":

"Desde 2007 é obrigação da Prefeitura do Rio de Janeiro instalar redes de esgotamento sanitário nas comunidades e mantê-las, mas nada vem sendo feito. Já cobramos o prefeito e ele alega que carece de estrutura necessária para fazer este trabalho. Todo o erro começou ainda no governo do Cesar Maia, em 2007, quando o então prefeito assinou este termo com a Cedae e assumiu uma responsabilidade sem a menor estrutura", destacou. "Em 2008, com a chegada do Eduardo Paes à Prefeitura, não houve mudanças. Paes cruzou os braços e não fez absolutamente nada".  

Procurada pelo Jornal do Brasil, a Secretaria Municipal de Habitação (SMH), que ficou desde 2007 responsável pelo saneamento básico das favelas do município, não revelou os dados de investimentos de 2008 (quando Eduardo Paes assumiu a Prefeitura) até o ano de 2010. Daí em diante, com o lançamento do projeto Morar Carioca, que visa urbanizar todas as favelas até 2020, a Secretaria afirma que tem feito investimentos da ordem de R$ 2,1 bilhões nas favelas do Rio. Deste valor, cerca de 18% se referem à implantação de redes de esgotamento sanitário. 

O retorno da Cedae

Depois da assinatura de um convênio entre a Cedae e a Prefeitura, que fixa o retorno da companhia para trabalhar apenas nas favelas já pacificadas, o diretor de distribuição, Armando Costa Vieira Júnior informou que toda a rede de abastecimento de água será trocada nestas 19 favelas. Com relação ao esgotamento sanitário, ele informou que "uma licitação está em andamento para a contratação de uma empresa que possa fazer as obras de esgotamento necessárias", sem revelar quais seriam as intervenções.

Cobrança de R$ 18 mensais

Depois da reorganização da rede de abastecimento de água nas favelas pacificadas, a Cedae informou que vai cobrar R$ 18 mensais de cada residência. Segundo dados do IBGE, o total de moradores atendidos deve ser de cerca de 160 mil. Assim, o faturamento da companhia será de no mínimo R$ 2,93 milhões mensais.



Tags: armando costa vieira júnior, companhia, cooperação, esgoto, saneamento, termo, água

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