Carnaval de rua do Rio deixa foliões em risco
Apesar de exigidas em caderno de encargos, ambulâncias não foram encontradas
Apesar de já ser considerado o maior carnaval de rua do país - apenas um bloco consegue reunir 2,5 milhões de pessoas, superando o Carnaval nordestino em números (o Galo da Madrugada, maior bloco do Nordeste, atrai cerca de 2 milhões de foliões) -, a tradicional folia de rua do Rio de Janeiro deixa o gigantismo de lado quando se trata de garantir a integridade física de seus participantes.
Uma equipe de reportagem do Jornal do Brasil constatou, durante uma semana inteira de festa, que não havia estrutura como ambulâncias para atendimento médico dos foliões, contrariando o que foi prometido pela Prefeitura do Rio, através do presidente da Riotur, Antônio Pedro Figueira de Mello.

De acordo com o Caderno de Encargos da Prefeitura para o Carnaval 2012, 80 ambulâncias devem ser disponibilizadas para prestar assistência aos foliões. Mas nenhuma foi encontrada nem nos maiores blocos, como o Cordão do Bola Preta e o Cordão do Boitatá, consideradas as maiores atrações no Centro do Rio. O atendimento aos foliões só foi constatado nas imediações do Sambódromo, onde nove postos de saúde foram instalados (sete na Sapucaí e dois no Terreirão do Samba). Levando em consideração a aglomeração de milhares de pessoas, aliada ao consumo de bebida alcoólica e ao forte calor desta época do ano, a ausência de estrutura adequada para socorrer foliões é surpreendente e temerária.
Segundo informações da Riotur, a empresa Dream Factory, vencedora do Caderno de Encargos da Prefeitura para o Carnaval 2012 (documento que fixa as regras a serem cumpridas pela empresa que ganhar o direito de organizar o Carnaval), ficou responsável por contratar 80 unidades de terapias intensivas móveis. Nenhuma das 80 UTIs "prometidas" foi localizada nas ruas pelos repórteres do JB.
Procurada através de telefonemas e de uma mensagem deixada em sua página de contato na internet, a Dream Factory, de propriedade da empresária Roberta Medina (produtora do Rock in Rio), não respondeu às solicitações. A Riotur, por sua vez, não soube informar qual a empresa contratada para prestar o serviço de atendimento, mas saiu em defesa da Dream Factory dizendo, através de sua assessoria, que a empresa não descumpriria a regra.
Segundo o Jornal do Brasil apurou, a Dream Factory venceu o Caderno de Encargos pelo terceiro ano consecutivo, ganhando assim o direito de organizar o Carnaval carioca. Ainda segundo informações da Riotur, outras duas empresas concorreram, mas foram derrotadas.
O socorro aos que passavam mal nos blocos acabou ficando por conta da Guarda Municipal, segundo relatos de foliões. Alguns agentes aconselhavam os grupos a embarcarem em ônibus rumo ao hospital da região. No caso dos blocos do Centro, a dica era seguir por conta própria para o Hospital Municipal Souza Aguiar.
Ao ser questionada sobre o fato de os guardas municipais não serem profissionais da área da saúde e, portanto, não estarem aptos ao socorro, a Riotur afirmou que o primeiro atendimento era feito pela Guarda Municipal que encaminhava o paciente até uma UTI móvel mais próxima. Agentes ouvidos pelo Jornal do Brasil, no entanto, disseram desconhecer a localização das ambulâncias. A Riotur não soube dizer quais blocos receberam as ambulâncias, até agora desconhecidas dos foliões.
Foliões em perigo
No Hospital Municipal Souza Aguiar, Tatiana Marques esperava pela sobrinha, de 11 anos, que havia passado mal e desmaiado no meio do Cordão da Bola Preta, no sábado (17). Tatiana contou que não havia nenhuma possibilidade de socorro nas imediações do Bola Preta e, ao falar com policiais militares, eles disseram que ela deveria tomar um ônibus até o hospital. Felizmente, segundo Tatiana, um guarda municipal se ofereceu para socorrer a criança e levá-la ao pronto socorro, contrariando os colegas de profissão.
"Não tinha socorro no bloco. Tive que ir até o hospital no carro da Guarda Municipal, e isso porque um dos guardas peitou seus colegas para fazer isso", disse. "Ligamos para o Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) e eles disseram que não podiam ajudar. Minha sobrinha desmaiou e teve convulsões. Foi desesperador", relembra Tatiana.
O gaúcho de Porto Alegre Julio Cesar Fontoura e sua mulher, Marivoni Duarte, também passaram por situação semelhante. Marivoni sofreu uma fratura no pé e não conseguia se locomover. Os turistas pediram ajuda a policiais e guardas municipais que estavam no desfile, mas não obtiveram retorno. Mesmo sem poder se mover, Marivoni teve que pegar um ônibus e um táxi para chegar ao Hospital Souza Aguiar e ser atendida.
"Não havia nenhum socorro, nenhuma ambulância. Ninguém nos ajudou e perdemos a manhã inteira tentando chegar ao hospital", contou Julio Cesar. "Como pode um bloco com dois milhões de pessoas não ter esse tipo de preparo?", questionou.
Um turista italiano, que se identificou como Antonini, contou que uma amiga passou mal no Cordão do Boitatá e, após desmaiar, foi atendida por um guarda municipal. Na ausência de médicos e ambulâncias, o socorro foi apenas um copo de água.
No badalado Bangalafumenga a situação era similar. A apuração do JB buscou em meio à folia por policiamento e equipes de socorro médico e não encontrou nem indícios desse tipo de estrutura. A triste notícia para os foliões é que não se via nenhuma viatura da Polícia Militar e tampouco de membros do Corpo de Bombeiros. Quem fazia o papel da Prefeitura no bloco era a Guarda Municipal, que, quando perguntada sobre onde estariam as ambulâncias, indicou uma direção errada, onde se viam foliões e mais foliões.
"Quem passa mal se vira"
Presidente e fundadora da Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro (Sebastiana), Rita Fernandes confirmou a constatação feita pelo Jornal do Brasil nas ruas da cidade:
"Ambulância? Atendimento médico? Não, nunca vi nestes últimos 11 anos que participo ativamente da organização dos blocos que integram o Carnaval de rua. Quem passa mal geralmente se vira por conta própria. Mas isso deve ser cobrado da Prefeitura, não cabe aos blocos", destacou a representante de alguns dos maiores blocos como Simpatia é Quase Amor (Ipanema), Suvaco do Cristo (Jardim Botânico), Bloco das Carmelitas (Santa Teresa) e Escravos da Mauá (Centro).
Assessora e foliã do Cordão da Bola Preta, Márcia Rosário afirma que também não notou a presença de atendimento durante o desfile do último fim de semana: "Não vi nenhuma ambulância, mas a Prefeitura sabia que a nossa estimativa de público era de mais de 2,5 milhões de pessoas. Ou seja, deveria ter se planejado", afirmou.
Vereadores prometem cobrar respostas
Para a vereadora Teresa Bergher (PSDB), presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara do Rio que tentou apurar supostas irregularidades no Carnaval de 2007, o episódio é mais uma prova de que a "Prefeitura faz tudo sem o menor planejamento". Ela informou ainda que enviará à Riotur um requerimento de informações sobre o contrato firmado entre o município e a empresa Dream Factory.
"Não posso fazer uma análise técnica, mas o número de ambulâncias me parece pequeno para as demandas da cidade. Só o Bola Preta, por exemplo, levou mais de 2 milhões ao Centro. Ficam as questões: a quantidade é mesmo suficiente? Será que elas estavam realmente funcionando? Elas estavam corretamente distribuídas? E como foi feito o trabalho de fiscalização? A Prefeitura tem uma grande preocupação, principalmente na área da saúde, de mostrar que está trabalhando. É inauguração de UPA, de Clínica da Família... Mas quando a população precisa de atendimento nestes locais, não encontra médicos", critica.
O vereador Paulo Pinheiro (PSOL), por sua vez, mostrou-se surpreso quando informado que a Prefeitura não se responsabilizou por todo o aparato de atendimento médico aos foliões que curtiram os blocos cariocas. Ele também promete pedir esclarecimentos na Câmara.
“A Prefeitura montou postos com seus próprios quadros no Sambódromo e no Terreirão do Samba. Imaginei que o mesmo fosse acontecer em outras áreas da cidade. Além das falhas na Saúde, convivemos com confusões nas ruas, falta de banheiros químicos, entre outros problemas. Todos gostamos de ver a volta do Carnaval de rua, mas a estrutura ainda deixa muito a desejar”, avalia o político,
Colaborou: Luciano Pádua
