Casas Casadas, imóvel histórico de Laranjeiras, são objeto de desejo
Flávio Dilascio , Jornal do Brasil
RIO - Exemplar único de residência multifamiliar no Rio do século 19, as Casas Casadas, em Laranjeiras, impressionam por sua beleza e suntuosidade, dignas de museu ou centro cultural. A impressão, entretanto, para por aí, pois poucos moradores do bairro conhecem o interior do casarão histórico desde 2004 ocupado pela distribuidora cinematográfica municipal RioFilme ou mesmo sabem de sua utilidade, exceto na parte anexa onde funciona uma livraria e um bistrô.
Esta aparente ociosidade fez a Associação de Moradores e Amigos de Laranjeiras (Amal) procurar alternativas para a população usufruir da casa, principalmente depois de verem o produtor cultural Daniel Leite ganhar a concessão, em fevereiro de 2007, para construir dois cinemas no local e as obras não terem ido para a frente, por questões financeiras e por conta de um impasse com o Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (Inepac).
Nossa associação surgiu desta luta de tornar as Casas Casadas como opção de entretenimento para a população. Estivemos com a secretária Jandira Feghalli e apresentamos uma proposta de fazermos um centro de memória do bairro e uma sala multiuso para a exibição de filmes, peças de teatro e outros tipos de apresentação revela o vice-presidente da Amal, Fábio Amaral, que está confiante que as propostas sejam aceitas.
A secretária já acenou com a possibilidade de reduzir o espaço da RioFilme para atender a vontade dos moradores.
Estamos fazendo um abaixo-assinado junto à população, cobrando da prefeitura uma melhor utilização da casa completou Fábio.
RioFilme
O imóvel, erguido em 1883, abriga desde outubro de 2004 a RioFilme, fundada em 1992. Com mais de 200 filmes lançados desde sua criação, a produtora é presidida, desde o início de 2009, por Sérgio Sá Leitão, que ressalta que o contrato de gestão entre a prefeitura e a sua empresa não prevê a criação de um centro cultural, como desejam alguns moradores do bairro.
As Casas Casadas pertencem à prefeitura do Rio. Uma parte do imóvel foi cedida à RioFilme, outra parte, a empresas privadas, para a exploração comercial. A cessão da RioFilme, feita pela Secretaria de Cultura, tem uma finalidade específica: trata-se da sede da empresa, ou seja, o local de trabalho de sua equipe disse Sérgio, que contesta quem considera o casarão ocioso.
O imóvel nunca foi tão utilizado como agora. Em 2009, a RioFilme investiu R$ 500 mil na manutenção de sua parte na casa. E tem empreendido uma intensa atividade no que diz respeito à sua atuação como distribuidora.
A parte terceirizada da casa, chamada de Espaço Carioca, funciona nos fundos do imóvel, com café, bar, livraria e loja de CDs. O espaço pertence ao empresário Daniel Leite, que possui ainda duas salas ao lado da livraria, as quais deveriam abrigar dois cinemas, de acordo com licitação feita pela Secretaria Municipal de Fazenda, em fevereiro de 2007. Por questões financeiras e de divergências com o Inepac, as obras estão paralisadas. Procurado pelo JB, Daniel Leite não foi encontrado.
Nome do local pode sofrer alteração
No próximo encontro entre a Associação de Moradores e Amigos de Laranjeiras (Amal) e a secretária municipal de cultura, Jandira Feghali, será proposta uma alteração no nome do conjunto para Casas Casadas Paulo Gracindo, em homenagem ao ator, falecido em 1995, que era vizinho do casario. Jandira ainda não se manifestou sobre o assunto, mas a expectativa dos moradores é boa.
Esta é a forma de homenagear uma das figuras mais marcantes do bairro e aumentar a relação da casa com a cultura. A família dele adorou a homenagem disse o vice-presidente da Amal, Fábio Amaral.
Além de personagens inesquecíveis na televisão, como o prefeito Odorico Paraguaçu, de O Bem Amado de 1984, Gracindo atuou no cinema, sendo um dos atores preferidos da geração do Cinema Novo. Além disso, atuou também no rádio, apresentando o programa Paulo Gracindo na Rádio Nacional e participando de rádio-novelas e do quadro Primo Pobre e Primo Rico no programa Balança mais não cai.
População desconhece sala de projeções
Quem passa em frente à sede da RioFilme mal sabe que a empresa possui um centro de exposição de filmes, inteiramente aberto ao público, de segunda à sexta-feira das 9h às 18h. No local, qualquer pessoa pode assistir a filmes produzidos pela empresa, em um dos seis monitores disponíveis. O serviço é grátis e, até pouco tempo, funcionava em uma sala com abertura direta para a rua, mas, por conta da baixa procura, a porta foi fechada, restringindo o acesso dos frequentadores para a entrada principal das Casas Casadas.
Fiquei sabendo que houve uma reforma há uns anos, quando colocaram barzinho e livraria, mas nunca entrei lá, e muito menos sabia dessa sala de exibição de filmes disse a dona de casa Helena Nogueira, de 62 anos, moradora de Laranjeiras há 30.
Morador de Laranjeiras há mais de três décadas, o publicitário Johny Souza, 58, também não sabia da exibição gratuita de filmes no interior da casa.
Acho estas Casas Casadas muito pouco produtivas para o bairro. Me disseram que vez ou outra passam filmes lá, mas não sei mais nada além disso afirma ele, que revela que vez ou outra vai ao bar do Espaço Carioca.
Vizinha das Casas Casadas, a jornalista Paula Magalhães, de 26 anos, também não sabia do serviço gratuito e demonstrou animação ao saber da existência dele.
Acho muito legal, pois no nosso país o acesso a cultura de forma gratuita ainda é escasso. Isso precisa ser mais divulgado na mídia como forma de incentivo à população.
