As rocas e os vergalhões de Copacabana
André Balocco, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Dizem que filho feio não tem pai e muito menos mãe. Pois no calçadão da Avenida Atlântica, em frente à Rua Djalma Ulrich, a sabedoria popular se materializou na semana passada, quando misteriosas pedras emergiram na beira-mar diante do último quiosque novo em direção ao Posto Seis. Pelo menos oficialmente, ninguém sabe de quem é a responsabilidade pela transformação da mais famosa paisagem (tombada) do bairro: secretaria estadual do Ambiente, secretaria municipal de Meio Ambiente, Comlurb e até o Comitê Gestor da Orla empurram para a frente os enormes pedregulhos e os vergalhões que surgiram com elas, formando a versão carioca do Atol da Rocas.
Vou notificar a V Região Administrativa, o primeiro órgão que deveria dar uma vistoria, para convocar os responsáveis por este problema - diz Giovanildo Savastano presidente do Comitê Gestor da Orla do Rio, responsável pelo que acontece na região, como o próprio nome sugere. - É uma situação inusitada. Eu sequer sabia deste fato.
Responsabilidade
Na secretaria municipal de Ambiente, dúvidas. A assessoria de comunicação, reconhecendo não saber se o problema era dela, indicou o telefone de Savastino.
- Entre em contato com o Comitê Gestor da Orla, porque eles devem saber de quem é a responsabilidade. A princípio acho que não, pois nossa praia é apenas a areia - disse o assessor Carlos Laerte.
A pergunta continuou ressonando pelos órgãos públicos: veja a resposta da secretaria estadual do Ambiente à demanda sobre quem é o responsável pelas pedras que surgiram e ameaçam não só a integridade física dos banhistas, como a própria vida deles, já que alguns optavam, domingo passado, por caminhar pelo mar para cruzá-las.
Este problema é com a prefeitura. Desculpe não poder ajudá-lo nesta demanda - disse a assessoria, via e-mail.
Na Comlurb, que tem tratores para cobrir as valas negras, que servem como extravasadoras das águas pluviais, cordialidade e presteza na resposta. Junto a elas, a certeza de que o problema também não era deles.
Essa não é uma atribuição da Comlurb. Trata-se de uma ação da natureza, que levou a areia e, com a mudança da maré, a trará de volta respondeu, por e-mail, a assessoria de imprensa da companhia.
A resposta da Comlurb está correta. Porém, como a própria maré, esconde o problema. O biólogo Mário Moscatelli explica que a tendência é que realmente a mudança no fluxo das águas traga de volta a faixa de areia tomada pela ressaca, o que começou a acontecer na última quinta-feira. Segundo Moscatelli, a areia continuará voltando mas durante a próxima ressaca, as pedras reaparecerão.
Normalmente a mesma maré que tira repõe a areia. Tem sido assim em ressacas até menos violentas diz o biólogo, que faz um alerta aos banhistas. O perigo é as pessoas darem uma topada ou cortarem o pé em algum destes vergalhões expostos.
