Jornal do Brasil

Sábado, 22 de Julho de 2017

Rio

Júlio Lopes: A concessionária do metrô falhou

Jornal do Brasil

Thiago Feres , Jornal do Brasil

RIO - No momento em que inaugura o bilhete único para ser usado nas 20 cidades da Região Metropolitana do Rio, o secretário estadual de Transportes, Júlio Lopes, reconhece que o estado atravessa uma série de problemas no setor. No entanto, segundo afirma, as concessionárias responsáveis por transtornos nos trens, barcas e metrô não serão punidas, uma vez que receberam prazos para melhorar os serviços.

O novo sistema de bilhetagem começou a funcionar sábado e mais de 1,8 milhão de pessoas já se cadastraram para utilizar a novidade. Pelo valor de R$ 4,40, será possível pegar duas conduções, sendo uma delas intermunicipal, num período de duas horas. Em entrevista exclusiva ao JB, Lopes adianta que esse prazo poderá se estendido, e aborda a grave crise nos serviços prestados no Rio.

Quando o serviço no metrô vai melhorar?

Olha, o metrô é o meio de transporte que mais me preocupa atualmente. Infelizmente, não podemos prometer melhorias para os usuários a curto prazo. Somente quando os novos 114 vagões comprados pelo governo começarem a chegar, é que poderemos notar um progresso. Os carros começam a ser entregues em dezembro ou no início de 2011. Com eles, resolveremos o problema do calor, já que os equipamentos de ar-condicionado serão mais potentes, capazes de operar na Linha 2, que faz um trajeto externo. As atuais composições foram projetadas para uma operação em cavernas.

Além da falta de composições, o que mais contribui para sucessivos problemas no serviço?

A concessionária falhou. O metrô tinha um sistema de sinalização feito por um software próprio. Eles decidiram mudar para um programa mais moderno, só que desenvolvido por uma empresa. Houve atraso na entrega da atualização desse software, o que nos prejudicou. O estado também deixou de cumprir alguns pontos no contrato de concessão. Apesar disso, acredito que o mais importante é que ocorreu uma redução de 13 minutos na transição entre as linhas 1 e 2. Quanto aos intervalos na Linha 2, eles eram de 4,5 minutos e passaram para seis, só que no início das operações, houve oscilação no intervalo, o que começa a não ocorrer mais.

O senhor arrisca estabelecer um prazo para a normalização nos intervalos?

Acho que o conjunto dos seus atores (usuários, maquinistas e bilheteiros) está começando a se adaptar com a nova operação da Linha 1A. No início, a população não estava acostumada com o sistema, os monitores não estavam adequados, passageiros entravam em trem errado, e os funcionários não conheciam direito a novidade. Conforme eles vão se adaptando, melhor o sistema caminha.

Recentemente, a Agetransp agência reguladora dos transportes concedidos disse que não tinha fornecido aval técnico para a operação da Linha 1A. O que aconteceu?

Simplesmente essa é uma atribuição exclusiva do poder concedente, que somos nós da Secretaria de Transportes. Quem deveria ter feito, como fizemos todo o estudo, éramos nós. Não havia qualquer necessidade passar por aprovações da Agetransp.

E como o senhor avalia a atuação da Agetransp?

Prefiro não comentar o assunto Agetransp. Essa não é uma atribuição da Secretaria de Transportes.

Existe previsão de investimento nas barcas?

Infelizmente, não temos previsão. Estamos falando de uma das maiores operações aquaviárias do Ocidente. Atualmente, as barcas transportam 100 mil passageiros por dia.

Existe alguma chance de as barcas voltarem a funcionar de madrugada?

Não. Operar durante a madrugada era um equívoco. Em lugar nenhum do mundo o transporte de massa funciona nesse horário. Não existia demanda, e o custo da operação acabava sendo repassado para o usuário no preço da passagem. Cada embarcação possui capacidade para 1.300 passageiros, mas levavam 10 ou 11 pessoas por viagem. Durante uma madrugada inteira, 60 passageiros eram transportados.

O senhor não vê problemas no fato de os acionistas da Barcas S.A. serem os mesmos da empresa 1001, que faz o trajeto rodoviário entre o Rio e Niterói?

Não existe qualquer tipo de relação. A empresa 1001 sequer realiza todas as viagens entre esses dois municípios. Não existe problema.

E os trens, que avaliação o senhor faz do o serviço da SuperVia?

A leitura que nós fazemos é a seguinte: não devemos jogar a sujeira para debaixo do tapete. Achamos que o serviço da SuperVia precisa melhorar, e muito. Mas houve um crescimento de mais de 200 mil usuários em apenas três anos da nossa gestão. Hoje, são mais de 500 mil passageiros por dia. Fizemos uma grande compra de trens. Serão 30 composições que vão chegar em janeiro de 2011. A concessionária está fazendo o que pode dentro das suas condições. Não estou eximindo a responsabilidade da SuperVia com os problemas no transporte ferroviário, mas precisamos reconhecer que o estado também falhou com a companhia. O contrato previa a entrega de novos trens e contribuições do estado para o funcionamento do serviço. E o estado não fez. Assim também com o metrô.

O que passa pela cabeça de um gestor da área de transportes quando vê uma notícia como a do trem que disparou sozinho?

Eu acordo todos os dias querendo solucionar os problemas do sistema. Teremos a solução com as novas composições, tanto no metrô quanto nos trens. Antes disso, será impossível resolver os problemas.

E o que verdadeiramente ocorreu naquele caso?

Todo trem possui um mecanismo chamado homem morto. Em caso de problemas com o maquinista, como, por exemplo, um ataque fulminante, esse equipamento vai frear o trem. O homem morto é um contrapeso na alavanca que deve ser pressionada para que o trem ande. Alguém anulou esse sistema e colocou a alavanca em marcha para frente, para o trem andar. Estamos investigando.

Há previsão de novas linhas no transporte rodoviário? E como está a permissão das empresas?

As permissões estão com data limite para 2013, não estamos trabalhando nisso. No Rio, o transporte é 75% de massa. Só que quanto mais a sociedade enriquece, mais complexo fica o sistema de transportes. Mais pessoas compram carros, e a estrutura viária é a mesma. Nessas condições, não podemos ocupar mais as vias.

O senhor avalia como suficiente o tempo de duas horas para o deslocamento com o bilhete único?

Utilizamos dados da maior pesquisa já feita em transportes no país e chegamos a uma média de 68 minutos como prazo de deslocamento dentro da Região Metropolitana. Se notarmos a necessidade de estender o limite de duas horas, o faremos sem problema. Estamos iniciando as operações e admitimos mudanças.

Esses dados antecipam possíveis problemas com o novo sistema?

Todo o novo sistema pode apresentar algumas falhas, mas estamos confiantes. Nosso objetivo é não permitir a fraude. Para isso, haverá um cadastro por CPF, que vai permitir que as informações de cada cartão sejam monitoradas, rastreadas e recuperadas, caso necessário. Além disso, serão realizadas auditorias permanentes.

Algum meio de transporte vai receber uma fiscalização mais rígida?

Não, mas pedimos a colaboração dos usuários. Queremos que façam denúncias se perceberem fraudes. É uma proteção para eles, já que quando ocorre esse tipo de problema está se drenando a possibilidade de um possível aumento de horas ou de viagens para o bilhete único.

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