Piscinão da Urca gera reclamação dos moradores
Fernanda Malta, Jornal do Brasil
RIO - Reza a lenda que a praia se consagrou como o espaço mais democrático que existe, onde convivem, lado a lado, todas as classes sociais. Mas não é o que acontece na Praia da Urca em domingos de sol forte como o deste domingo. Aproveitando as águas calmas e a fácil conexão de ônibus que saem da Central do Brasil e do Metrô de Botafogo, milhares de pessoas da Zona Norte e da Baixada cruzam a cidade, para desespero dos moradores do aristocrático bairro, que se transforma numa babel de onde o choque de ordem da prefeitura passou longe, pelo menos neste domingo.
Aqui não tem confusão nem violência. Posso deixar minhas coisas na areia sem medo de roubo. A água não é poluída e é calma, boa para as crianças avalia Jorge Magalhães, morador do Méier, que trouxe os cinco netos pequenos.
Irritados com a sujeira dos ambulantes e das famílias que levam comida para passar o dia na praia, moradores da Urca, reclamam.
É inviável frequentar esta praia nos fins de semana. A areia fica preta devido ao carvão do churrasquinho, os pombos passam a tarde comendo os restos dos ossos de galinha, que o povo deixa no chão, e o mar fica impraticável. Outro dia, estava andando por ali e pisei em um espetinho que deixaram com a ponta para cima. As pessoas parecem não ter educação. reclama o morador Bruno Viola.
Outros apoiam a diversidade:
Essa praia é a cara do Rio. Tanta gente feliz convivendo junto. Só sou contra os alimentos que contém gordura, porque o cheiro fica muito forte e a praia fica um lixo. diz Claudia Mendonça, frequentadora da barraca do Bigode, única tenda legal da Praia.
Os ambulantes fazem a festa no domingão de sol. Além dos vendedores não autorizados, alguns produtos também não têm permissão para serem comercializados na praia. É o caso do cachorro- quente regado a ketchup e maionese, do peixe frito com farofa por R$ 5, e do espetinho de camarão. E pior: não se sabe a procedência, nem a higiene, dos produtos.
Eu compro os pães de manhã, na Central do Brasil. Em 40 minutos, estou aqui. Os alimentos chegam bem quentes, mas aí eu ofereço uma coca-cola aos clientes. diverte-se Carine Aparecida, vendedora de hot dogs.
Sua avó, Inalda, é responsável pela barraquinha dos peixes fritos. Seu comérico funciona assim: no início do mês, ela compra, por R$ 300, os peixes de um pescador amigo, mas não paga na hora. Depois de 30 dias de venda, e R$ 600 mais rica, Inalda quita suas dívidas e gasta o lucro.
Trabalho aqui há 30 anos e todos os domingos e feriados sofro com os fiscais da prefeitura. Eles pedem para a gente retirar as mercadorias ou então eles mesmos terão que apreender. Nós retiramos tudo, guardamos no carro por 40 minutos, e quando estamos certos de que eles já foram embora, voltamos a vender, no mesmo espaço explicou.
A praia fica cheia até o final da tarde, quando os ônibus e carros de décadas passadas partem lotados. A Urca, então volta ao normal, com muito trabalho para a Comlurb.
Moradores esperam pelo choque de ordem
Sentada em uma mesa do restaurante Garota da Urca, bem em frente à praia lotada, a diretora da associação de moradores do bairro Lilibeth Cardoso diz ter informações de que o choque de ordem da prefeitura não ficará só na orla do Leme ao Recreio neste verão.
A partir de dezembro, haverá um endurecimento na fiscalização dos vendedores ilegais aqui. Queremos adotar uma estratégia que melhore a qualidade dos produtos sem piorar a situação de quem precisa deles para viver. Quem compra dos ambulantes corre um grande risco, pois o controle sanitário é o do próprio vendedor. Ele vende o que ele mesmo consome.
A tenda do Bigode, velha conhecida dos moradores, tem licença da prefeitura e apoio da associação.
Ele (Bigode) não vende alimentos perecíveis. Então, o perigo é menor. Temos que proteger quem consome.
Outra moradora, Tatiana Suitzar, acha que falta educação:
As pessoas precisam ser conscientizadas a limpar a sujeira diz, embora frise ser contra o fechamento da praia, como acontece com as duas existentes no vizinho Forte São João, área militar.
Mas não é só a sujeira dos ambulantes que preocupa Lilibeth. Enquanto curte a tarde ensolarada de domingo ao lado de dois amigos estrangeiros , o que para ela significa morar fora de um dos recantos mais tradicionais do Rio, explica as peculiaridades da praia da Urca.
Aqui é como se fosse aquele funk, cada um no seu quadrado . O bairro comporta um público muito distinto: tem os pescadores, as populações mais pobres, que aproveitam os fins de semana, os moradores simpáticos, os chatos, os mais chatos ainda, e tem também os que curtem um mergulho à noite, como eu.
Ela diz que os próprios moradores contribuem para a sujeira no bairro:
Sei que é assim em todas as praias do Rio. Mas a geração de lixo aqui na Urca tem aumentado muito com o passar dos anos. O pior são os cachorros de duas pernas , ou seja, os donos dos animais, que guardam as sujeiras dentro de sacos plásticos, mas jogam em qualquer calçada. Na semana passada, encontrei, em um mesmo espaço, 12 saquinhos aglomerados.
Carros estacionados em local proibido também são uma constante aos domingos. Ontem, não houve reboque nem guardas municipais apareceram.
