91 anos de história e emoções no Retiro dos Artistas
Luiz Augusto Gollo, Agência Brasil
RIO - Se a emoção pudesse ser medida em tempo, quantas décadas caberiam no Retiro dos Artistas do Rio de Janeiro? Para o presidente da instituição, o ator e vereador Stepan Nercessian, um século, dez décadas de emoção percorrem, andam por ali, uma emoção sempre viva .
Aos 91 anos de existência, o Retiro dos Artistas, ou a casa, como a ele se referem moradores e funcionários, abriga 52 artistas entre 70 e 94 anos de idade. São atores, atrizes, cenógrafos, figurinistas, coreógrafos, contrarregras, enfim, gente que fez história no rádio, na TV, no cinema, no teatro, inclusive nos circos mambembes.
É o caso do anão Coracy da Silva, o palhaço Tusca, de 74 anos, há 15 no retiro. Mesmo com Mal de Parkinson e certa dificuldade para falar, continua ativo, com apresentações em festas de aniversário e animação em porta de lojas comerciais. Dono de um humor ferino, faz piada à toa e conquista o público desde que entrou para a vida circense, em 1950.
As crianças sempre gostaram muito de mim, tanto que acabei causando ciúme no Carequinha, no programa dele na TV Tupi. Um dia, eu estava no camarim limpando a maquiagem e ele me disse: Da próxima vez que você for mais animado que eu no programa, está demitido.
Tusca dá risada ao lembrar, porque naquela mesma semana já estava convidado para estrelar sozinho um programa infantil na mesma TV Tupi. E com o mesmo humor, conta que foi para a casa por não querer, mas para morar com a irmã.
O Retiro dos Artistas foi fundado em agosto de 1918, por iniciativa do ator Leopoldo Fróes, sensibilizado com o grande número de colegas, atrizes e artistas estrangeiros fugidos da Europa, durante a primeira guerra mundial e abandonados por seus empresários quando a paz voltou, exatamente naquele ano.
O Rio tinha mais de 50 teatros, era a capital do Brasil e também a capital cultural, mas não havia espaço para todos nos palcos e picadeiros. Leopoldo Fróes procurou Irineu Marinho, dono do jornal A Noite, e numa campanha que fizeram conseguiram a doação do terreno que era do dono da Casa Edison, onde eram gravados os discos na época e assim surgiu a casa resume o diretor social do retiro Hênio Lousa, de 65 anos.
Colaborador voluntário nas comemorações do cinquentenário, em agosto de 1968, ele nunca mais saiu. Foi contador e depois diretor. Conhece todos os cantos do amplo terreno onde está o antigo casarão com cara de asilo , como ele diz, as várias construções, inclusive mais de 40 casas que os moradores ocupam como se fossem deles até a morte. Alguns moram no ambulatório, à espera de vaga.
Claire Digonn, de 71 anos, é uma dos moradores que não deixam o Retiro dos Artistas sequer dar a ideia de asilo. Ativa, está cadastrada na TV Globo e tem participações periódicas em novelas, séries e programas semanais:
Comecei em 1953, era um dos curumins da Tupi lembra rindo do grupo de adolescentes que encarnavam o símbolo da emissora, um indiozinho. Estou na casa há três anos e quatro meses e não tenho do que reclamar. Trabalhei em Paraíso, Caminho das Índias, Caras e Bocas, tenho 36 direitos conexos na Globo , conta, em referência ao direito de imagem sobre a negociação de qualquer trabalho seu na emissora.
Tanto Claire quanto Isa Rodrigues, de 82 anos, são exemplos de que as famílias não eram tão preconceituosas com o mundo artístico como se diz e se escreve. Uma começou com 15 anos de idade e a outra ainda criança, aos oito, em 1937, no Teatro Recreio:
Eu era a Shirley Temple brasileira Isa diz, numa gargalhada. Trabalhou em várias revistas de sucesso, como papel principal, no tempo do Estado Novo de Getulio Vargas, quando o chamado teatro de revista viveu o auge da popularidade, inclusive nos cassinos.
A realidade, entretanto, se impõe, implacável, como bem sabe Hênio Lousa.
A casa custa entre R$ 75 e R$ 80 mil por mês e vive basicamente de doações de artistas em plena atividade, e também de captação pelo serviço terceirizado de telemarketing, do aluguel do teatro Iracema de Alencar e do brechó instalado no primeiro andar do antigo casarão.
Ainda há os cursos de teatro para a comunidade e atividades orientadas para a terceira idade, mas é a festa junina que o Retiro dos Artistas promove há 62 anos o ponto alto do calendário anual. Ela nos garante sustento por uns quatro meses , diz Hênio.
Muitos artistas montam barracas, fazem apresentações grátis e chegamos a receber em média seis mil visitantes em cada um dos quatro dias de festa.
À margem de todas as atividades, a diretoria do Retiro dos Artistas luta para negociar a dívida da entidade com a Previdência, referente a contribuições atrasadas e que impede a casa de contratar empréstimos, além de outras operações financeiras. O presidente Stepan Nercessian resume:
Esse é o nosso problema seriíssimo, porque a dívida com o INSS [Instituto Nacional do Seguro Social] é antiga e grande, e enquanto não conseguirmos sanar este problema não podemos arranjar dinheiro com o governo federal nem com o estadual e nem com o municipal. Estamos negociando e vamos resolver isso.
