Um clube que curte o rebaixamento
Camilla Lopes, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Os torcedores de Botafogo, Fluminense e Flamengo que estão apavorados com a possibilidade de seus times caírem para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro precisam dar um pulo na praça principal de São João do Meriti (Baixada Fluminense) nas noites de sábado. É lá que se reúne o Cat's Auto Club, cujos membros cultuam o rebaixamento. Não no futebol, mas na suspensão de seus carros incrementados e reluzentes.
Os integrantes do clube a maioria rubro-negros, por sinal não economizam em suspensões a ar, adesivos personalizados, rodas cromadas e luzes neon, e aparelhagens de som que provocam inveja até em boates.
A gente gosta mesmo de chamar a atenção assume sem nenhum problema, o designer Renato Chaves, 30, que tem um Ford Focus com vistosa luz verde néon embaixo.
A paixão dos meninos de São João de Meriti (e de suas namoradas) por carros vem da infância.
Todo mundo aqui brincou de carrinho e nosso sonho era mesmo ter um de verdade para deixar do nosso jeito conta Alex Soares, 30, anos, amante de modelos grandes e rebaixados.
Bico de papagaio
Mas o lado b desse amor, Alex sente nos dias atuais: ele tem bico de papagaio, adquirido quando tirou toda a suspensão do seu primeiro carro, um Escort.
Ele quase encostava no chão. Uma vez, medimos a distância e dava o equivalente a uma carteira de cigarro. Até quando eu passava por uma pedrinha, o carro pulava, acabou com as minhas costas conta Alex, agora adepto da suspensão a ar em seu Vectra.
Os frequentadores compram suas peças e levam seus carros em oficinas de Nova Iguaçu e de São Cristóvão (Zona Norte do Rio), as mecas do tuning (em inglês, carros otimizados) no estado. E tanto carinho com os possantes pesa pouco no bolso: o rebaixamento, ponto inicial do tuning , fica entre R$ 50 a R$ 80. Se a opção for por uma suspensão a ar, o custo salta para R$ 2.500.
O clube também tem sua trilha sonora e a potência das caixas de som abafa ruídos de intrusos. Enquanto o JB conversava com os integrantes do Cat's, o carro de um motorista do outro lado da praça tocava funk com letras sobre sexo explícito em alto volume.
Deixa o Renato ligar o som dele que vai abafar esse funk em um minuto avisou Luiz Carlos, um mecânico de refrigeração que tem um Gol sem maçanetas nas portas, abertas por controle remoto.
Ao contrário do funkeiro, Renato preferiu dominar o ambiente música eletrônica.
Não somos chatos. O som é potente, mas eu só ligo quando sei que não vou atrapalhar explica Renato.
O barato dos rapazes do Cat's é namorar sério. E, apesar desse universo tão masculino, as namoradas adoram os encontros de carros tunados que acontecem no Estado do Rio. Sem pegas, garantem.
O bom do clube é que eles são muito unidos, a maioria se conhece desde criança. E onde eles vão nós vamos também. Viajamos juntos sempre conta Joyce Renne, 22, namorada de Alex, o melhor amigo de Renato, namorado de Danielle, a melhor amiga de Joyce.
Todo mundo junto, tunado e misturado, como se diz por aí. E o mais importante: sem medo do rebaixamento.
