Jornal do Brasil

Rio - Eleições 2018

Mesmo com candidatura impugnada, Garotinho acredita que irá às urnas e faz planos

Jornal do Brasil SÔNIA APOLINÁRIO, sonia.apolinario@jb.com.br

Condenado em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região por formação de quadrilha e com a candidatura impugnada pelo Tribunal Regional Eleitoral, o candidato ao governo do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, mantém sua campanha na rua. A decisão final se permanecerá no pleito caberá ao TSE, órgão ao qual recorreu.
Ex-governador do estado, ele já foi deputado estadual, prefeito por duas vezes de Campos e secretário de estado. Foi candidato à Presidente da República em 2002.
Para Garotinho, as recentes derrotas judiciais são fruto de vingança política, por ter feito denúncias contra o ex-governador Sérgio Cabral. A entrevista para o JB, quinta da série, foi feita no seu apartamento, no Flamengo, Zona Sul do Rio. Cordial. O radialista Garotinho fala bastante, nenhuma pergunta parece incomodá-lo. Só teve dificuldade para sugerir um local para passear no estado. Queria citar vários, mas se rendeu à Região dos Lagos. “Queria dar um mergulho no mar de Arraial do Cabo, agora”, confessou.

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Entrevista com o candidato ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (Foto: Beto Herrera)

O senhor está em campanha, mas sua candidatura foi impugnada pelo TRE. O que diz a esse respeito?
Já imaginava esse resultado porque as decisões do TRE têm sido políticas. Pelo menos, houve um mal menor: foi rejeitada a proposta do MP de proibir que eu fizesse campanha enquanto eu recorro ao TSE. A campanha continua firme, forte e vitoriosa.

O senhor também tem duas passagens pela prisão, a última foi em novembro. O que tem a dizer para os eleitores sobre isso?
É uma retaliação porque, quando eu denunciei o grupo de Sérgio Cabral ao procurador geral da República, o doutor Rodrigo Janot, faziam parte desse grupo membros da Justiça do Rio de Janeiro e do Ministério Público. Das 108 pessoas que denunciei, 70 já foram presas, e acho que está se aproximando, agora, das investigações do judiciário e Ministério Público. Tanto que já saiu uma delação do operador do Sérgio Cabral dizendo que o ex-chefe do Ministério Público do Rio de Janeiro recebia mesada de R$ 105 mil. Os meus casos não têm nada a ver com isso. Eles utilizaram dois juízes estaduais eleitorais de Campos, e são acusações sem comprovação, que eu dei cheque cidadão em troca de voto. O promotor que entrou com essa ação já havia sido denunciado por mim ao próprio Ministério Público como fazendo parte da máfia do ferro velho de Campos. E o juiz tinha que ser dado como suspeito porque já tinha entrado com ações contra ele. Então, a questão não me preocupa porque minha vida, em si, já foi revirada e nunca se encontrou conta no exterior, nem mansão, nem fazenda, nem barra de ouro, nem nada que provasse o meu enriquecimento ilícito.

Se puder concorrer em outubro e for eleito, qual será sua primeira providência?
É muito semelhante a situação do estado hoje da que encontrei em 1998 quando fui eleito governador. Naquela época, o estado também estava com salários atrasados e era o único do país que não tinha a dívida renegociada com a União. Com um agravante: para pagar o custeio do estado, o governador Marcello Alencar foi vendendo o patrimônio do estado. Primeiro, vendeu o Banerj para o Itaú, depois, a CEG, Companhia Estadual de Gás, para os espanhóis. Depois, o trem para a Supervia, o Metrô para o Opportunity. A Cerj, Companhia de Energia Elétrica para Ampla, empresa portuguesa, que agora virou Enel, italiana. Mesmo assim, os salários estavam atrasados e as políticas públicas do estado totalmente desorganizadas.

Fará, então, as mesmas coisas?
Vou renegociar a dívida outra vez. O (Sérgio) Cabral, na primeira gestão, embora já houvesse corrupção, não havia perdido o controle fiscal. Até porque o primeiro secretário de Fazenda dele, Joaquim Levy, não deixou que ele fizesse a farra fiscal que depois ele introduziu no estado. E esse termo de reajuste fiscal é brincadeira. Não resolve, e agrava a situação.

Por quê?
Porque o estado abre mão de receitas junto à União. São recursos da lei Kandir e junto a estatais — são milhões de reais junto à Petrobras, que estão judicializados. E, no final do período, o estado terá que pagar uma parcela que deixou de pagar, e uma para frente. Só que a parcela que deixou de pagar terá seu valor corrigido pela tabela Price, que são os juros de mercado. Foi uma medida eleitoreira para dar uma sobrevida e botar o estado, pelo menos, para pagar o salário dos funcionários.

Por que passar por isso outra vez?
Porque estou preparado. Com todo respeito aos candidatos, não acho que alguém que nunca tenha governado uma padaria, com todo respeito ao gerente de padaria, possa administrar um estado em uma situação tão complexa.

O senhor também já passou por vários partidos. Essa experiência não causa desconfiança no eleitor?
Fiquei 18 anos no PDT, nunca escondi que sou um trabalhista, sou nacionalista. O problema do PDT é que, após a morte de Brizola, não é mais o PDT. O PDT apoiou, inclusive, toda essa roubalheira do estado.

O senhor também foi do PMDB...
É. Fui, temporariamente, do PMDB, porque tinha que estar em algum lugar, mas nunca comunguei da intimidade do PMDB. Nunca fui à casa de Sérgio Cabral. Nunca fui integrante da farra dos guardanapos. Nunca fui integrante da república do Leblon.

O senhor foi secretário de segurança. Que planos tem para essa área?
O sistema de segurança pública terá que ser refeito porque foi destruído por um único projeto que tentou substituir tudo, que foram as UPPs. Quando fui governador, também precisei modernizar o sistema de segurança. Criamos o setor de inteligência que também não existia. Implantamos delegacias especializadas e curso de treinamento para os policiais. Fiz a sede do Bope, que agora está destruída, e reduziram o curso de treinamento de dois anos para seis meses.

Quem reduziu?
O governo Sérgio Cabral-Pezão. Você não forma um policial e dá uma arma para ele em seis meses. Na pressa de botar gente nas UPPs, foram pegando pessoas em concursos e dando treinamento básico. Mas, completando o ciclo do crime, o que você faz com o preso? Oitenta e dois por cento quando saem, voltam para o crime. Você gasta R$ 3 mil por mês com um preso. Vou chamar as empresas e dar incentivos fiscais para que sejam instaladas unidades de trabalho dentro dos presídios, para que os presos trabalhem.

Por que o senhor não implantou isso antes?
Começamos com a Cedae e chegamos a ter 500 presos trabalhando. Depois, colocamos lá dentro uma empresa de alimentação para fazer a comida dos próprios presos. Dos 52 mil presos que existem hoje, no Rio, 30 mil estão aptos para trabalhar. Podem fabricar carteiras para as escolas do estado, uniforme para a polícia, bombeiro, para nossos alunos, vassouras que a Comlurb poderá adquirir. Isso vai ser importante para que, quando o preso saia, não retorne ao crime.



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