Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Abril de 2014

Retrospectiva 2013

Mandela, 'último grande libertador do século 20', e suas lições para o mundo

Jornal do Brasil

A repercussão da morte de Nelson Mandela no mundo inteiro, com bandeiras a meio-mastro e luto em diversos países, reflete um pouco da importância do homem que dedicou sua vida à luta pela igualdade e liberdade. O velório inspirou situações históricas como o cumprimento entre Obama e Raúl Castro e o encontro entre a presidenta e ex-presidentes brasileiros em um mesmo voo. Diferentes jornais, inclusive os que apontavam Mandela como terrorista a serviço do comunismo no início de sua trajetória, publicaram sua foto na primeira página no dia seguinte à morte. 

Como ressaltou o secretário-geral da ONU, Mandela dedicou sua vida ao serviço do seu povo e da humanidade, o que fez com grande sacrifício pessoal
Como ressaltou o secretário-geral da ONU, Mandela dedicou sua vida ao serviço do seu povo e da humanidade, o que fez com grande sacrifício pessoal

No dia do julgamento de Mandela, em 1964, quando foi condenado à prisão perpétua pelo regime que pregava a superioridade dos brancos, seu depoimento foi centrado na luta pela harmonia entre brancos e negros. Quando saiu da prisão, 27 anos depois, enquanto fervilhava uma guerra civil entre brancos e negros, Mandela mais uma vez demonstrou sua grandeza ao continuar lutando contra o Apartheid, mas em busca de harmonia, não de uma um "acerto de contas" com o regime que o privou da liberdade e matou tantos em nome uma política racial. Quando virou o primeiro presidente negro do seu país, criou a Comissão da Verdade e da Reconciliação. Aceitou até a aproximação de líderes que antes o condenavam, como Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990, sem deixar de fazer parcerias polêmicas como com palestinos e cubanos.

"Durante a minha vida, me dediquei à luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, e lutei contra a dominação negra. Eu defendi o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e conseguir realizar. Mas, se preciso for, é um ideal para o qual estou disposto a morrer", disse Mandela, em sua declaração de defesa no Julgamento de 20 de abril de 1964.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, fez um pronunciamento após a morte de Mandela, pelo qual reforça que o líder rendeu toda a sua vida ao seu povo e à humanidade, com "grande sacrifício pessoal". Ban Ki-moon reconhece que a posição de princípios e a força moral de Mandela foram decisivos no desmantelamento do sistema de apartheid. "Notavelmente, ele ressurgiu após 27 anos de detenção sem rancor, determinado a construir uma nova África do Sul com base no diálogo e na compreensão. A Comissão da Verdade e da Reconciliação estabelecida sob a sua liderança continua a ser um modelo para alcançar a justiça nas sociedades que confrontam um legado de violações dos direitos humanos."

O papa Francisco prestou homenagem ao líder no dia seguinte de sua morte, disse que espera que o exemplo dele inspire o país a lutar pela justiça e o bem comum. "Rezo para que o exemplo [de Mandela] inspire gerações de sul-africanos em colocar a justiça e o bem comum à frente das ambições políticas. Foi com tristeza que tomei conhecimento da morte e enviei condolências e orações a família Mandela, aos membros do governo e ao povo da África do Sul", disse o papa.

A Assembleia Geral da ONU declarou 18 de julho, aniversário de Madiba, como o Dia Internacional Nelson Mandela, uma celebração anual e reconhecimento de sua contribuição para a promoção de uma cultura da paz e da liberdade. "Tive o privilégio de conhecer Nelson Mandela em 2009. Quando eu lhe agradeci pelo trabalho de sua vida, ele insistiu que o crédito pertencia a outros. Fiquei muito emocionado por seu altruísmo e profundo senso de propósito comum", declarou o secretário-geral da ONU.

Velório de presenças e ausências significativas

Uma cerimônia com tantos líderes importantes, de diferentes países, ofereceu ao mundo um ato inédito, Obama e Raúl Castro deram um aperto de mão, "olho no olho", durante o velório de Mandela. Situação parecida, mas bem mais discreta, havia acontecido entre Fidel e Bill Clinton, nos anos 1990, quando os dois pareceram acenar com a cabeça e a mão um para o outro, à distância, o que a princípio chegou a ser negado pela Casa Branca. O líder cubano Fidel Castro felicitou na última quinta-feira (19/12) seu sucessor e irmão, o presidente de Cuba, Raúl Castro, pela "firmeza e dignidade" com as quais cumprimentou seu homólogo dos Estados Unidos. 

Cumprimento entre Obama e Raúl Castro gerou surpresa no mundo inteiro
Cumprimento entre Obama e Raúl Castro gerou surpresa no mundo inteiro

"Felicito o companheiro Raúl por seu brilhante desempenho e, em especial, pela firmeza e dignidade quando, com gesto amável, mas firme, saudou o chefe de Estado dos Estados Unidos e lhe disse em inglês: 'Senhor presidente, eu sou Castro'", disse Fidel, em um artigo publicado no jornal estatal "Granma".

Outra situação, que gerou grande repercussão na web, foi a ida dos ex-presidentes brasileiros, em um mesmo avião, para a cerimônia. A presidenta Dilma convidou os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor e José Sarney para acompanhá-la à África do Sul e todos aceitaram o convite. No avião, pelo Twitter, a presidenta comentou que a reunião de presidentes demonstrou que "as eventuais divergências no dia-a-dia não contaminam as posições do Estado Brasileiro".

Algumas ausências também chamaram a atenção, como do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que declarou que não compareceria pelo custo da viagem. Mandela dizia que a liberdade dos sul-africanos "não será completa sem a liberdade dos palestinos". Israel também colaborou com o governo sul-africano durante o apartheid, o que chegou a gerar certo constrangimento no país com a morte de Mandela. Netanyahu, ainda assim, não deixou de falar do líder sul-africano como “uma das figuras exemplares de nossos tempos, o pai de seu povo, um visionário que lutou pela liberdade e se opôs à violência”. 

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez um longo discurso, durante a cerimônia religiosa oficial de despedida. Obama, que se encontrou com Mandela uma única vez, em 2005, lembrou a trajetória do falecido líder sul-africano. Afirmou que "Madiba emergiu como o último grande libertador do século 20". Ele também comparou Mandela a grandes líderes mundiais e americanos como Gandhi, Martin Luther King e Abraham Lincoln.

Da graduação em Direito à luta por oportunidades iguais a todos

Mandela nasceu em 18 de julho de 1918 e ainda criança perdeu o pai, Henry Mandela, analfabeto e chefe da tribo Tembu, da etnia xhosa, umas das três mais importantes da África do Sul. Embora fosse o herdeiro da liderança tribal, Mandela renunciou e foi estudar no Clarkebury Training College, onde ficou conhecido como aluno inquieto, fazendo jus ao seu nome de batismo, Rolihlahla, que na língua xhosa significa “criador de problemas”.

"For use by white persons" (em português: "Para uso de pessoas brancas") – placa da era do apartheid
"For use by white persons" (em português: "Para uso de pessoas brancas") – placa da era do apartheid

A inquietação de Mandela continuou. Após dois anos como estudante da universidade de Fort Hare, foi expulso por organizar um boicote às eleições estudantis. Em 1941, fugiu para Johannesburgo para não se casar forçadamente e, na cidade, ingressou no curso de Direito da Universidade da África do Sul. Ainda nos 1940, se uniu à Liga Juvenil do CNA (Congresso Nacional Africano). 

A política de segregação racial do Apartheid entrou em vigor na África do Sul em 1948, com a chegada do Partido Nacional ao poder. Mandela, já advogado e com 30 anos, assumiu a liderança da maioria negra, promoveu greves e protestos, e passou a lutar por princípios de um estado não racial, onde a terra seria dividida entre os que nela trabalhassem.

Em 1960, se tornou clandestino no próprio país, após o massacre de Sharperville, quando diversos negros foram mortos pelas forças nacionais de segurança por protestarem, pacificamente, contra a Lei do Passe. Esta obrigava os negros sul-africanos a portar uma caderneta que dizia onde eles poderiam transitar. O massacre fez com que a política do Apartheid ganhasse notoriedade mundial pela primeira vez. Em 1961, Mandela ajudou a fundar o UmKhonto weSizue, braço armado do CNA, passando a estimular e realizar sabotagens em todo o país. 

Caçado pelas autoridades, escapou durante 18 meses, disfarçando-se de operário, porteiro e garagista, sempre discursando para pequenos grupos clandestinos. Em 1962, porém, foi capturado pelas autoridades sul-africanas e levado para a prisão, onde, inicialmente, cumpriria pena por cinco anos. No ano seguinte, foi acusado de traição e sabotagem junto com outros líderes negros. Após o julgamento, que durou sete meses, foi condenado à prisão perpétua. 

Nos 18 anos seguintes, seria o prisioneiro 46664 na prisão da ilha de Robben, onde quebraria pedras até ser transferido para a prisão de segurança-máxima de Pollsmoor. Em 1985, ele recusou proposta do então presidente Pieter Botha, que o pediu que condenasse o recurso à luta armada em troca de sua libertação. Em meio à pressão externa, a própria minoria branca da África do Sul já acreditava que a libertação de Mandela seria a única esperança de uma solução pacífica para os conflitos que devastavam o país.

Os governos dos Estados Unidos e Reino Unido viam o governo sul-africano como um aliado anti-comunista, e não demoraram em tachar Mandela como perigoso comunista-terrorista. Em 1987, Thatcher disse que o CNA era "uma organização terrrorista” e que qualquer um que acreditasse que ele viria a governar a África do Sul vivia em um conto de fadas. Em 1990, após um encontro entre Mandela e Thatcher, o congressista Terry Dicks teria questionado: "Quanto tempo a premier vai permitir ser golpeada no rosto por esse terrorista negro?". 

Já o presidente norte-americano, Ronald Reagan, colocou o CNA na lista de organizações terroristas. Em 1981, também declarou que o regime sul-africano era essencial para o mundo livre. En 1985, o congressista Dick Cheney, que depois seria vice-presidente de George Bush, votou contra a libertação de Mandela. Em 2004, defendeu o antigo posicionamento afirmando que Mandela tinha uma forte dedicação ao comunismo e ao terrorismo. Em 1990, o The New York Times revelou que a CIA ajudou o governo sul-africano a prender Mandela em 1962.

Finalmente, no dia 11 de fevereiro de 1990, após 27 anos, seis meses e seis dias de reclusão, Nelson Mandela estava solto. Permaneceu na batalha pelo fim do Apartheid e, logo em sua primeira declaração pública, agradeceu aos que se esforçaram por sua libertação e reiterou que estava disposto a morrer pelo fim da dominação branca e pela liberdade de outros 400 presos políticos. O processo de negociação com o Governo seria lento e exaustivo, interrompido diversas vezes, por episódios de violência extrema. Um deles levaria Mandela a pedir a intervenção da ONU, em junho de 1992. Na época, eleito presidente do CNA, viajou por vários países, dando novas dimensões ao trabalho pelo fim pacífico do Apartheid. Foi reconhecido com o Prêmio Nobel da Paz de 1993 (dividido com de Klerk).

No dia 22 de dezembro de 1993, em sessão histórica, o Parlamento aprovou nova Constituição da África do Sul, instituindo legalmente a igualdade racial no país, dando fim ao regime separatista. No ano seguinte, Nelson Mandela foi eleito presidente da África do Sul, o primeiro presidente negro da história do país. Seu mandato terminou em 1999, mas Madiba permaneceu como uma das figuras políticas mais influentes do país.

Tags: áfrica, legado, luta, Mandela, morte

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