Crítica: 'O despertar'
Proveniente de seriados de televisão britânicos, o cineasta Nick Murphy estreia no cinema com uma produção de terror sobrenatural intitulada O Despertar. Se não imprime uma linguagem televisiva às suas tomadas, ele investe na ambientação e paleta de cores da publicidade para narrar a sua história. É através de uma opressão da imagem, que tem diferentes variações de tons escuros, que busca capturar a atenção do espectador para uma trama superficial e que vai decaindo até o suposto, e comumente, desfecho simplório surpresa.
A personagem Florence (Rebecca Hall) tem uma construção semelhante a da agente Scully (Gillian Anderson), do cultuado seriado Arquivo-X: aparente frieza emocional e ceticismo com relação a manifestações sobrenaturais. Assim como ela, o passado nebuloso reserva sentimentos ocultos e ambiguidade com relação à formação de sua personalidade. A busca pela verdade parece ser a única saída. Portanto, Florence se dedica a desconstruir os mitos sobre mortos e fantasmas em um Reino Unido ainda se reerguendo após a Primeira Guerra mundial. Apesar da estilização da abertura, o diretor parece não se dar conta de que um filme de terror assusta mais pela sugestão do que planos fechados, desenho de som e uso carregado de cores sombrias. Desde o princípio, O Despertar se desenvolve como uma grande armadilha para desmascarar Florence e, por conseguinte, o espectador, que, ao final, pode emitir gracejos ao se perceber enganado.

O Despertar tem atores de força dramática, como Imelda Staunton, e um clima de seriedade extrema, com discurso empolado, para imprimir veracidade naquilo que é narrado. É como se Nick Murphy quisesse realizar uma espécie de terror psicológico na linha de O Iluminado (1981), de Stanley Kubrick, e demonstrasse, a todo custo, assinatura visual e comprometimento dramatúrgico. Só que ele está refém de um roteiro tão medíocre quanto previsível, coescrito por ele mesmo, que trabalha, mais uma vez, de maneira equivocada temas psicanalíticos de relações familiares.
Em termos de curiosidade, há uma sequência de uma bola descendo uma escada que remete a um cultuado suspense sobrenatural dos anos 80 - e hoje, infelizmente, esquecido -, chamado A Troca (The Changeling), de Peter Medak. Além de diversas outras situações que se assemelham a Os Outros (2001), de Alejandro Amenábar, estrelado por Nicole Kidman, e O Orfanato (2007), de Juan Antonio Bayona. Ou seja, O Despertar é um produto genérico de tramas sobrenaturais levado a sério somente por seu realizador.
Cotação: º (Ruim)
>> Locais em que o filme está em exibição entre 24 de fevereiro e 1 de março
Niterói/São Gonçalo: Cinespaço Boulevard 4: 15h20, 19h20, 21h20. Zona Oeste: Cine 10 Sulacap 6: 15h20, 19h20, 21h20.
>> Programação de Cinema completa de 24 de fevereiro a 1 de março
