Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Cultura - Programa

Crítica: 'Precisamos falar sobre o Kevin'

Jornal do BrasilFilipe Quintans

Nós precisamos falar sobre Kevin. Precisamos mesmo? Precisamos. Kevin é o pesadelo em forma de criança/adolescente; é malcriado, mimado, dissimulado, grosseiro. Kevin é um caso sério, realmente precisamos falar sobre ele. Mas como? Chamemos Lynne Ramsay, a talentosa diretora irlandesa que, contrariando até as expectativas da própria escritora Lionel Shriver, adaptou um livro "inadaptável". Para tanto, utilizou os bons serviços da melhor atriz de nosso tempo, Tilda Swinton.

O que há de tão especial em Tilda? Ela não é bonita, não "incorpora" personagens da vida real, faz filmes italianos independentes (Um sonho de amor), humor negro (Queime antes de ler), fantasias juvenis (As crônicas de Nárnia) e fantasias adultas (O curioso caso de Benjamin Button). Colaboradora e amiga do cineasta experimental inglês Derek Jarman, formada no teatro inglês e bastante ligada às artes visuais, não está nem aí para a vida atribulada da celebridade padrão. É, no fim das contas, uma Atriz, assim, maiúscula.

Tilda Swinton, em interpretação brilhante, é Eva Katchadourian, mãe de Kevin (Rock Duer)
Tilda Swinton, em interpretação brilhante, é Eva Katchadourian, mãe de Kevin (Rock Duer)

Em Precisamos falar sobre Kevin, Tilda interpreta uma mulher cujo espírito aventureiro-mochileiro, do tipo que nos leva a dar a volta ao mundo, é morto a pauladas pelo amor. Apaixonada, ela acaba por admitir a vida sossegada de esposa e mãe, mas não sem algum prejuízo interno. Na verdade, Eva Katchadourian não queria ser mãe nem esposa, pois sabia não levar jeito para nenhum dos dois cargos. Mas acaba dando à luz, e traz ao mundo aquele que só lhe trará agonia e desespero.

Lynne Ramsay, para "adaptar o inadaptável", não constrói o drama convencional. A fotografia de Seamus McGarvey confere uma aura grandiosa que a montagem explora não através do flashback lógico ("Isso está acontecendo porque isso aqui aconteceu há dez anos), mas o flashback cirúrgico, sem o letreiro ou a narração. A música de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead, alterna a natureza anódina das baixas frequências, ruídos e distorções com arranjos suaves de cordas.

Mas, e Kevin? Trata-se de um psicopata, e assim seria mesmo se fosse filho de uma mulher preparada para ser mãe, do tipo que vê na maternidade a realização de um sonho (e não é). A tese do filme de Ramsay, se há algo do tipo, é que a recusa de Eva Katchadourian ao papel de mãe funda as bases do ato horrendo que o filho comete - e a responsabilidade de tal ato, o assassinato de inocentes, acaba recaindo sobre ela na forma de um castigo. Acaba por ser no perdão ao filho e no pagamento de seus pecados com a própria existência que ela encontra o perdão a si mesma.

Cotação: **** (Excelente)

>> Locais em que o filme está em exibição entre 24 de fevereiro e 1 de março 

Zona Sul: Estação Sesc Botafogo 2: 14h45, 21h30* (*exceto 5a). Estação Sesc Laura Alvim 3: 16h20, 21h15.  

>> Programação de Cinema completa de 24 de fevereiro a 1 de março  

Tags: brasil, cinema, exibição, filme, kevin, país, salas

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