Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Cultura - Programa

Crítica: 'Porta a porta - A política em dois tempos'

Jornal do BrasilPaulo Marcio Vaz

Porta a porta - A política em dois tempos é um daqueles documentários do qual, ao se ler a sinopse, o espectador espera mais do que o filme realmente oferece. A ideia de se mergulhar nos bastidores de uma típica campanha política de uma cidade brasileira do interior, no caso, a carente Gravatá, em Pernambuco, é excelente. Mas o resultado final esbarra numa aparente falta de planejamento. Mesmo assim, há bons flagras que evidenciam a dura realidade das campanhas políticas no Brasil, e que valem a pena.

No filme, uma abundância de crimes eleitorais, que, certamente, ficarão impunes, evidencia a cultura arraigada de assistencialismo raramente mostrada na sua forma mais pura. No fim das contas, Porta a porta vira uma coletânea de flagras, e não vai muito além disso. De qualquer forma, não se tem conhecimento de outro documentário que chegue tão perto de mostrar a realidade da cultura política brasileira no dia a dia da campanha. Graças à boa vontade de um dos candidatos a vereador de Gravatá, Fernando Resende, o diretor Marcelo Brennand pode entrar na intimidade de políticos, cabos eleitorais, militantes e eleitores gravataenses.

Uma equipe de filmagem mergulhou no cenário de uma eleição no interior do Nordeste
Uma equipe de filmagem mergulhou no cenário de uma eleição no interior do Nordeste

Personagens há em abundância. Do mais humilde e inocente candiadto a vereador, que gasta R$ 9.500 para conseguir 25 votos, àquele que aspira a prefeitura, apoiado pelo prefeito, que, no segundo mandato, tenta se perpetuar no poder elegendo o sucessor. Uma particularidade local faz de Gravatá uma cidade dividida em duas cores. Os que usam roupas vermelhas (oposição) e os que se vestem de azul (situação), numa espécie de Parintins eleitoral.

Outro aspecto interessante evidenciado em Porta a porta é como a economia local é afetada pelas eleições. No caso de Gravatá, cidade com cerca de 75 mil habitantes, a campanha gera 5 mil empregos, e muitos trabalhadores interrompem suas atividades regulares para sair em busca de eleitores, e, principalmente, dos cerca de R$ 70 semanais oferecidos pelos candidatos. Nos discursos e conversas de pé de ouvido entre candidatos e eleitores, não faltam ofertas de emprego, remédios, passeios e obras.

Mesmo carecendo de um roteiro mais bem planejado, Porta a porta é um filme obrigatório para quem se interessa em ver mais de perto a realidade eleitoral brasieira, que, certamente, se repete em outras “Gravatás” Brasil afora.

Cotação: ** (Bom)

Tags: brasil, cinema, documentário, estreia, marcelo brennand, politicagem, porta a porta

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