Crítica: 'Porta a porta - A política em dois tempos'
Porta a porta - A política em dois tempos é um daqueles documentários do qual, ao se ler a sinopse, o espectador espera mais do que o filme realmente oferece. A ideia de se mergulhar nos bastidores de uma típica campanha política de uma cidade brasileira do interior, no caso, a carente Gravatá, em Pernambuco, é excelente. Mas o resultado final esbarra numa aparente falta de planejamento. Mesmo assim, há bons flagras que evidenciam a dura realidade das campanhas políticas no Brasil, e que valem a pena.
No filme, uma abundância de crimes eleitorais, que, certamente, ficarão impunes, evidencia a cultura arraigada de assistencialismo raramente mostrada na sua forma mais pura. No fim das contas, Porta a porta vira uma coletânea de flagras, e não vai muito além disso. De qualquer forma, não se tem conhecimento de outro documentário que chegue tão perto de mostrar a realidade da cultura política brasileira no dia a dia da campanha. Graças à boa vontade de um dos candidatos a vereador de Gravatá, Fernando Resende, o diretor Marcelo Brennand pode entrar na intimidade de políticos, cabos eleitorais, militantes e eleitores gravataenses.

Personagens há em abundância. Do mais humilde e inocente candiadto a vereador, que gasta R$ 9.500 para conseguir 25 votos, àquele que aspira a prefeitura, apoiado pelo prefeito, que, no segundo mandato, tenta se perpetuar no poder elegendo o sucessor. Uma particularidade local faz de Gravatá uma cidade dividida em duas cores. Os que usam roupas vermelhas (oposição) e os que se vestem de azul (situação), numa espécie de Parintins eleitoral.
Outro aspecto interessante evidenciado em Porta a porta é como a economia local é afetada pelas eleições. No caso de Gravatá, cidade com cerca de 75 mil habitantes, a campanha gera 5 mil empregos, e muitos trabalhadores interrompem suas atividades regulares para sair em busca de eleitores, e, principalmente, dos cerca de R$ 70 semanais oferecidos pelos candidatos. Nos discursos e conversas de pé de ouvido entre candidatos e eleitores, não faltam ofertas de emprego, remédios, passeios e obras.
Mesmo carecendo de um roteiro mais bem planejado, Porta a porta é um filme obrigatório para quem se interessa em ver mais de perto a realidade eleitoral brasieira, que, certamente, se repete em outras “Gravatás” Brasil afora.
Cotação: ** (Bom)
