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Crítica: 'Margin call - O dia antes do fim'

Jornal do Brasil Filipe Quintans

Embora tenha inspirado uma quantidade razoável de livros, documentários (Trabalho interno, vencedor do Oscar) e um telefilme (Grande demais para quebrar) a crise financeira de 2008 não parece estar entre os temas favoritos do cinema de ficção. Compreensível. É mais fácil explorar o fascinante mundo dos robôs, super-heróis etc. do que o não menos fascinante mercado financeiro e aquele monte de cálculos, operações e números que só a alguns poucos iluminados é dado entender.

Wall Street - O dinheiro nunca dorme, a continuação que Oliver Stone fez em 2010 para o seu próprio filme de 1987, sequer tocou de leve o tema. Terminou por ser um arrazoado de frases de efeito, hip hop e motos em alta velocidade. Trabalho Interno, com o perdão da redundância, é um belo trabalho, mas é excessivamente técnico; Grande demais para quebrar esbarra em problema semelhante: os traders adoraram, o resto do público não entendeu muito bem. Não tardou para que um diretor - JC Chandor, um estreante, diga-se - tirasse da cartola um roteiro afiado, em torno do qual uma penca de estrelas, incluindo dois oscarizados, se reúne para o que talvez seja o fundador de um novo gênero, o cinema de catástrofe financeira. Margin call - O dia antes do fim não avança muito na selva semântica do mercado. É um de seus muitos méritos.

Em performance irreparável, Jeremy Irons interpreta o chefão, um vampirão capitalista

Uma "empresa de serviços financeiros", também conhecida como banco de investimentos, levemente inspirada no banco Lehmann Brothers, se vê diante de um problema de trilhões de dólares. Precisa vender todo e qualquer tipo de papel que possui (contratos, títulos etc.) e fazer grana. É isso ou quebrar. A "bolha" aparentemente estourou e ninguém escutou, exceto por um veterano que, prestes a dar o alerta, é convidado a "fazer uma transição tranquila", o que em termos práticos significa ser demitido, com o bolso cheio e a boca fechada. "Eu trabalho com análise de risco, não me parece um lugar ideal para começarem a cortar pessoal" diz o personagem, aos cuidados de Stanley Tucci. 

Antes de ser gentilmente conduzido à rua, ele entrega a um novato membro de sua equipe (Zachary Quinto) um pendrive contendo a chave de todo o mistério, apenas acrescentando um intrigante "Tenha cuidado". O novato inevitavelmente revisa o conteúdo do pendrive e descobre que aquele império financeiro está prestes a virar cinzas. Ele avisa ao chefe (Paul Bettany), que passa ao chefe acima (Kevin Spacey), que conta para outros chefes (Demi Moore, Simon Baker) até chegar aos ouvidos do chefão, um vampirão capitalista, inspirado no CEO do Lehmann Brothers, Dick Tuld, em performance irreparável de Jeremy Irons. 

O filme então desdobra-se entre cooperação e colaboração, cada um tratando de se salvar e tentando não entrar em pânico, mesmo que o prejuízo de alguns bilhões de dólares e o colapso do mercado financeiro global estejam batendo à porta. "Só há três maneiras de vencer nesse negócio: seja o primeiro, seja o mais esperto, ou trapaceie." diz o personagem de Irons. Ética? Não, obrigado. 

É possível que Margin Call encontre seu público entre os membros dos "Ocupe" e simpatizantes da causa dos 99% soltos pelo mundo afora - a abordagem simples do tema complexo e a vilificação (mais uma) do capitalismo ajudam em certa medida a ecoar os gritos do Zucotti Park e demais logradouros. Se não, é um dos melhores filmes de 2011, uma estreia vigorosa de um diretor que destilou a calamidade financeira global e produziu uma fábula de ganância e fragilidade.

Cotação: **** (Excelente)



Tags: cinema, documentário, estreia, margin call, oscar, público, trabalho interno

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