Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Cultura - Programa

Crítica Teatro: Um porto para Elizabeth Bishop

Jornal do BrasilAna Lúcia Vieira de Andrade

UM PORTO PARA ELIZABETH BISHOP / Cotação: *** (Ótimo)

Está em cartaz no Solar de Botafogo o monólogo Um porto para Elizabeth Bishop, espetáculo que fez bela carreira de sucesso em 2001 e que volta aos palcos agora sob a mesma direção de José Possi Neto, com Regina Braga no papel da conhecida poeta americana, ganhadora do prêmio Pulitzer e considerada hoje um dos nomes memoráveis da poesia do século 20.

O texto de Marta Góes, sensível e inteligente na descrição que faz do olhar hierárquico do estrangeiro sobre as mazelas do Brasil dos anos de 1950 e 1960, é uma ótima iniciação ao universo da criação poética, aos dramas interiores daqueles que constroem pensamentos e sensações através de sons ou ritmos de frases. Ao examinar a dor de Elizabeth como artista, suas dúvidas e seus problemas com o álcool, a peça explora e humaniza a mulher, expondo sua fragilidade pessoal diante do projeto de tornar-se uma voz importante no contexto da literatura norte-americana, o que a levou, em algumas ocasiões, a achar que deveria desistir da poesia.

Regina Braga no monólogo 'Um porto para Elizabeth Bishop', com direção de José Possi Neto
Regina Braga no monólogo 'Um porto para Elizabeth Bishop', com direção de José Possi Neto

A peça analisa, também, com bastante propriedade, a relação de Bishop com Lota Macedo Soares, figura da alta sociedade carioca da época, reconhecidamente homossexual. Com ela, Bishop viveu durante quinze anos uma relação de amor que reproduzia, em muito, os casamentos heterossexuais, onde se costuma encontrar uma tendência à distribuição assimétrica de forças. O trabalho de Regina Braga como Elizabeth, apesar de apresentar certo artificialismo no início, com a reprodução de sotaque algo forçado, é, em diversos aspectos, emocionante, levando o público a acompanhar cada detalhe das hesitações, tristezas, alegrias e vitórias da personagem.

Obviamente, resultado tão positivo é conseqüência também da ótima direção de José Possi Neto, que faz bom uso do espaço cênico e modula com muitas variações o material dramatúrgico. O cenário de Jean-Pierre Tortil é abstrato e de muito bom gosto, enquanto a iluminação de Wagner Freire contribui enormemente para a gradação emocional e psicológica da personagem.

Um Porto Para Elizabeth Bishop é um programa imperdível para os amantes de bom teatro.

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