Crítica: 'Um conto chinês'
Tem cinéfilo e crítico que adora falar da fotografia de um filme e por conta dela rasgam montanhas de seda. Fazendo um paralelo e contrariando a máxima de que beleza é fundamental, a verdade é que o conteúdo é tudo e nada supera um bom roteiro. Este filme da rica produção argentina é só mais um exemplo para ilustrar este ponto de vista.
Depois de uma sequência inicial bizarra, com uma vaca caindo do céu, prepare-se para conhecer um personagem solitário e muito mal humorado. Roberto (Ricardo Darin) é pra lá de sistemático, dorme sempre na hora certa, tem poucos amigos e coleciona manias, entre elas recortar notícias absurdas de variadas publicações. Mas o destino reservou uma surpresa, quando ele ofereceu ajuda para Jun (Ignacio Huang) jogado - literalmente - em seu caminho, dando início a uma verdadeira via crucis, que mudaria para sempre a vida de ambos.

O texto investe com sabedoria no fato de um não saber falar a língua do outro e reforça essa conexão diferente, que vai ficando cada vez mais forte entre eles e também com você.
E isso acontece na medida em que a trama vai se descortinando, carregada de dor e floreada de humor, te envolvendo naturalmente.
A ideia de um gesto altruísta dar início a uma dramática (e divertida) luta de ambos por seus sonhos funciona. Enquanto um quer encontrar um parente para começar vida nova, o outro só deseja recuperar a liberdade da velha vida e a tão amada solidão. Mas tem o revés que vira sorte, o erro que faz acertar e assim a amiga Mari (Muriel Santa Ana), com sua felicidade e pré disposição para amar, pode até ser "enxergada" de uma outra maneira.

Bem escrito e dirigido por Sebastián Borensztein, Um conto chinês tem uma trilha bem humorada para temperar o sarcasmo, que avacalha a vaca louca, toca na ferida da Guerra das malvinas e abre espaço até para uma eventual citação (ou não) quando Roberto "viaja" com uma das notícias e a sequência parece uma cena de morte do clássico terror A profecia (1976).
Construído com sutilezas amassadas pela rudez do protagonista, a poesia presente em seu final é a prova cabal de que se está diante de uma história bem contada e imperdível.
Cotação: ****
* Roberto Cunha é jornalista e também editor do site Adorocinema.com
>> Locais em que o filme está em exibição entre 27 de janeiro a 2 de fevereiro
Zona Sul: Espaço Museu da República: 14h, 15h50, 17h40.
>> Programação de Cinema completa de 27 de janeiro a 2 de fevereiro
