Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Cultura - Programa

Crítica: 'Um conto chinês'

Jornal do BrasilRoberto Cunha *

Tem cinéfilo e crítico que adora falar da fotografia de um filme e por conta dela rasgam montanhas de seda. Fazendo um paralelo e contrariando a máxima de que beleza é fundamental, a verdade é que o conteúdo é tudo e nada supera um bom roteiro. Este filme da rica produção argentina é só mais um exemplo para ilustrar este ponto de vista.

Depois de uma sequência inicial bizarra, com uma vaca caindo do céu, prepare-se para conhecer um personagem solitário e muito mal humorado. Roberto (Ricardo Darin) é pra lá de sistemático, dorme sempre na hora certa, tem poucos amigos e coleciona manias, entre elas recortar notícias absurdas de variadas publicações. Mas o destino reservou uma surpresa, quando ele ofereceu ajuda para Jun (Ignacio Huang) jogado - literalmente - em seu caminho, dando início a uma verdadeira via crucis, que mudaria para sempre a vida de ambos.

Prepare-se para conhecer um personagem solitário e muito mal humorado
Prepare-se para conhecer um personagem solitário e muito mal humorado

O texto investe com sabedoria no fato de um não saber falar a língua do outro e reforça essa conexão diferente, que vai ficando cada vez mais forte entre eles e também com você. 

E isso acontece na medida em que a trama vai se descortinando, carregada de dor e floreada de humor, te envolvendo naturalmente.

A ideia de um gesto altruísta dar início a uma dramática (e divertida) luta de ambos por seus sonhos funciona. Enquanto um quer encontrar um parente para começar vida nova, o outro só deseja recuperar a liberdade da velha vida e a tão amada solidão. Mas tem o revés que vira sorte, o erro que faz acertar e assim a amiga Mari (Muriel Santa Ana), com sua felicidade e pré disposição para amar, pode até ser "enxergada" de uma outra maneira.

Jun (Ignacio Huang) vai cair de paraquedas na vida de Roberto (Ricardo Darin)
Jun (Ignacio Huang) vai cair de paraquedas na vida de Roberto (Ricardo Darin)

Bem escrito e dirigido por Sebastián Borensztein, Um conto chinês tem uma trilha bem humorada para temperar o sarcasmo, que avacalha a vaca louca, toca na ferida da Guerra das malvinas e abre espaço até para uma eventual citação (ou não) quando Roberto "viaja" com uma das notícias e a sequência parece uma cena de morte do clássico terror A profecia (1976).

Construído com sutilezas amassadas pela rudez do protagonista, a poesia presente em seu final é a prova cabal de que se está diante de uma história bem contada e imperdível.

Cotação: ****

* Roberto Cunha é jornalista e também editor do site Adorocinema.com

>> Locais em que o filme está em exibição entre 27 de janeiro a 2 de fevereiro

Zona Sul: Espaço Museu da República: 14h, 15h50, 17h40. 

>> Programação de Cinema completa de 27 de janeiro a 2 de fevereiro 

Tags: chinês, conto, Critica, cunha, Roberto, um

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