Jornal do Brasil

Quarta-feira, 26 de Julho de 2017

Cultura - Programa

Crítica: 'Corações perdidos'

Jornal do BrasilMaurício O. Dias

Corações perdidos é o infeliz título em português de Welcome to the Rileys, segundo longa-metragem de ficção do diretor de vídeos musicais Jake Scott – filho de Ridley Scott, o célebre diretor de Blade runner – Caçador de andróides’, e Cruzada, entre muitos outros sucessos. Papai Ridley e o titio Tony, também diretor de renome, são os produtores do filme.

Um casal, ambos na faixa dos 50 anos, vive numa confortável casa de subúrbio. É nítido que a dona de casa é psicologicamente disfuncional. Ela nunca sai da casa, não consegue sequer cruzar o jardim para ir até a caixa de correspondência. O marido, evidentemente, não consegue mais se relacionar com ela e encontra-se exasperado.

Ele viaja a Nova Orleans para uma convenção de empresários do setor de construção. Lá, não consegue cumprir a rotina que estava agendada, e foge para um drinque num clube de strip-tease. Conhece uma jovem dançarina/prostituta e acaba indo com ela para a – mal conservada – casa onde a moça reside. Apesar do oferecimento da moça, ele se recusa a fazer sexo, mas pede para ficar lá por alguns dias. Surge uma relação semipaternal entre ele e a jovem, que tem marcas de automutilação pelo corpo.

Gandolfini e Kristen vivem uma relação semipaternal no filme de Jake Scott
Gandolfini e Kristen vivem uma relação semipaternal no filme de Jake Scott

Ao receber um telefonema da mulher, ele retruca que vai ficar ali por um tempo, sem revelar o que exatamente onde está. Diante do risco de seu casamento desmoronar, a mulher vê-se obrigada a tirar o carro da garagem e por o pé na estrada. Ela irá conhecer a jovem prostituta e, por algum tempo, o casal e a jovem irão formar um arremedo de unidade familiar.

Há sensibilidade na trama, são fornecidos dados para levar o espectador a entender a disfunção inicial da dona de casa e até aceitar esta altamente improvável relação familiar que se estabelece entre o empresário de meia-idade e a prostituta rampeira. Há aqui e ali ecos da relação entre o taxista e a garota vistos em Taxi driver – Motorista de táxi, de Scorsese. É nítido e louvável o esforço de Kristen Stewart para tentar deixar de ser a namoradinha do vampiro, interpretando um personagem marginal, promíscuo, e que usa palavrões como se fossem vírgulas.

Mas o problema é exatamente o personagem do marido, e isto por duas razões:

1) Apesar do talento incontestável de James Gandolfini, que defende com garra seu papel, se o personagem fosse interpretado por um ator mais bonachão ou plácido, talvez fosse mais crível. Gandolfini e sua indelével persona de quem está sempre a um estalo de explodir e possui a sabedoria das ruas, parece malandro demais para se envolver, a troco de nada, numa barra-pesada daquelas.

2) Se o taxista de Taxi driver se apega a uma adolescente perdida e tenta salvá-la, era porque ele mesmo era um desgarrado, sem nenhum laço social. Já o marido de Welcome to the Rileys tinha em casa uma esposa com problemas sérios, então, se ele trazia dentro de si esta vocação para salvar os outros, teria que começar por ela, com quem tinha um compromisso de fato, não com uma jovem que nunca viu antes. Cotação: * (Regular)

Tags: jake scott, james gandolfini, kristen stewart

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