Jornal do Brasil

Segunda-feira, 16 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Pedro Simon

O monstro passeia

Pedro Simon*

“Criei um monstro!” Quando proferiu essa frase, após constatar o envolvimento direto e criminoso de agentes do Serviço Nacional de Informações em atentados contra opositores da ditadura, o general Golbery do Couto e Silva, ideólogo do regime, não reconhecia mais a sua cria. Tantos eram os desmandos e desvios do órgão cuja finalidade inicial era coletar informações que auxiliassem o governo a se proteger e antecipar ações ‘subversivas’.  O que diria então o militar, falecido em 1987, três anos antes da extinção do SNI, se tivesse vivido o suficiente para conhecer o gigantismo e a sem-cerimônia com que agem em todo o mundo os serviços secretos dos Estados Unidos.

Praticamente, não há canto geográfico da terra ou conversa privada entre cidadãos comuns, e mesmo contatos oficiais de chefes de estado, que estejam a salvo do alcance da espionagem e da tecnologia de informação norte-americanas. Uma máxima da diplomacia internacional reza que países não têm amigos, mas sim interesses. O problema crucial é que esse conceito foi levado ao extremo pela principal potência mundial. A Casa Branca enxerga inimigos por toda a parte, e nessa paranoia atropela os direitos humanos e as liberdades democráticas de uma forma globalizada.

Para tentar conter em padrões razoáveis a atividade dos serviços secretos dos EUA e, claro, oferecer aos concidadãos uma esperança de que estarão doravante protegidos em sua privacidade, as presidentes do Brasil, Dilma Rousseff, e da Alemanha, Ângela Merkel, apresentarão à Organização das Nações Unidas uma proposta de marco civil internacional para a internet. A intenção é construir um cenário seguro para a interação da governança global e a comunicação individual e empresarial.

Não foram divulgados detalhes dessa iniciativa. Mas o caso do Brasil é um dos mais graves em termos de vulnerabilidade tecnológica de proteção de informações, secretas ou não. Para além da questão técnica, outras, de natureza diversa, interferem. É inexplicável, por exemplo, que dados confidenciais da Petrobras sobre o petróleo do pré-sal sejam criptografados por empresas norte-americanas. Então, pode ser meritório levar sugestões à ONU, onde o poder de contenção de ações dos Estados Unidos é quase zero. Mas, temos também de fazer com urgência nossa lição de casa.

*Pedro Simon é senador pelo PMDB-RS.



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