Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Pedro Rossi

Crescimento brasileiro em perspectiva comparada

Pedro Rossi *

Com a expectativa de baixo crescimento em 2014, formou-se a conjuntura propicia para um amplo debate sobre modelo macroeconômico adotado, sobre o papel do Estado na economia e sobre o papel das transferências sociais e dos ajustes de salário mínimo. Em particular, essa desaceleração parece legitimar no debate público as propostas de “reformas econômicas”que visam uma redução da atuação do Estado na economia. Nesse contexto, o baixo crescimento tornou-se a base para odiscurso do “esgotamento do modelo de distribuição de renda brasileiro”, cujo colapso é inescapável, e cuja saída passa pela contenção dos aumentos de salários mínimos, pela redução das transferências públicas (inclusive das políticas sociais) e pela mudança de postura das empresas estatais (inclusive dos bancos públicos). Mas o baixo crescimento é mesmo decorrente de um esgotamento desse modelo? O que dizer do cenário externo e do crescimento de outros países? 

Evidentemente, há fatores domésticos que explicam o baixo crescimento, dentre eles o aumento recente da taxa de juros,que tende a reduzir o investimento produtivo e o consumo, os entraves ao investimento público e o vazamento da demanda doméstica para o exterior que resulta em déficits em transação corrente. Contudo, devem-se considerar os fatores externos à economia brasileira, cuja importância é grande, e cuja análise impede qualquer conclusão precipitada que associe o baixo crescimento brasileiro exclusivamente a políticas domésticas equivocadas ou ao esgotamento de um modelo de distribuição de renda.  

Crescimento de economias em desenvolvimento entre 2003 e 2014
Crescimento de economias em desenvolvimento entre 2003 e 2014

O gráfico mostra o crescimento de economias em desenvolvimento entre 2003 e 2014, segundo dados do World Economic Outlook. Nota-se claramente uma trajetória de crescimento similar, e definitivamente não se pode concluir que o caso brasileiro é exceção no período recente.Há especificidades nessas trajetórias tais como a desaceleração menor do Brasil em 2009, por conta da crise financeira, e uma recuperação mais forte em 2010. Por outro lado, a Rússia apresentou um crescimento mais forte antes da crise, inflado pelos preços de petróleo, em compensação foi mais impactada pelos efeitos da crise. O ponto mais importante, por detrás dessas trajetórias similares de crescimento, é que o crescimento brasileiro foi acompanhado de distribuição de renda e de melhorias no mercado de trabalho, ao contrário de outros países.É isso que deve ser preservado (e aprofundado), independente dos ajustes que podem (e devem) ser feitos ao modelo econômico. Mas para isso, não se deve cair no “discurso do esgotamento” cuja finalidade é sacrificar um modelo distributivo em prol de um suposto crescimento maior. 

* Professor do Instituto de Economia da Unicamp

Tags: Artigo, coluna, economia, JB, rossi

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