Jornal do Brasil

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

Pedro Rossi

Taxa de câmbio e interesse político de financistas, industriais e trabalhadores

Pedro Rossi *

A taxa de câmbio é uma variável econômica chave, mas é também um tema político. Em sua essência, trata-se de um preço que compara dois ativos sui generis: as moedas nacionais de distintos países. A variação na taxa de câmbio é, portanto,a variação de toda uma estrutura de preços relativos e tem impacto na inflação doméstica, na estrutura produtiva, no nível e na qualidade do emprego, nos padrões de consumo, na distribuição de renda, nas estruturas de ativos e passivos privados, na dívida pública, nas contas externas de uma economia, etc.Nesse contexto, os movimentos da taxa de câmbio não são neutros e não deixam ninguém indiferente. 

De forma simplificada, os interesses em torno da taxa de câmbio podem ser analisados mediante a separação de três grupos de agentes; financeiros, industriais e os trabalhadores assalariados. O primeiro grupo de agentes é constituído pelos detentores de riqueza financeira. Trata-se de agentes cuja riqueza está total ou parcialmente denominada na moeda nacional, sob a forma de depósitos, títulos, etc., e o movimento da taxa de câmbio afeta diretamente o valor dessa riqueza, quando medido em outra moeda. Para esses agentes, a valorização da taxa de câmbio é a valorização da sua riqueza enquanto a desvalorização, uma perda de capital. Isso é particularmente relevante para os investidores estrangeiros cuja referência de rentabilidade é o dólar, mas também para uma elite nacional que aloca sua riqueza em diversas moedas. No Brasil, a posição política desse grupo, vocalizada pelas instituições financeiras e seus economistas, usualmente recomenda aumentos das taxas de juros (que aumenta a rentabilidade dos ativos em reais e tende a valorizar a moeda), e repreende a atuação do governo quando esse busca evitar uma apreciação cambial. 

Os agentes industriais são aqueles cuja atividade é a produção de bens expostos à concorrência internacional. Diferentemente dos serviços, os preços dos produtos industriais são diretamente afetados pelas variações cambiais pelos motivos já conhecido de todos: a alteração dos preços relativos dos produtos domésticos vis-a-vis os produtos estrangeiros. Ou seja, a valorização cambial torna os produtos domésticos menos competitivos no mercado doméstico e internacional enquanto a desvalorização cambial tem o efeito inverso. O que está em jogo é a competitividade industrial e, portanto, a capacidade de sobrevivência/expansão dos vários setores e também a margem para aumento dastaxa de lucro. Por isso, a “visão industrialista” aponta a necessidade de uma taxa de câmbio depreciada, e propõe uma política cambial ativa para sua viabilização. 

Por sua vez, os trabalhadores ganham com o câmbio valorizado, pelo menos no curto prazo. Esse ganho decorre do efeito do câmbio de conter os aumentos dos preços domésticos e assim viabilizar um aumento do poder de compra do trabalhador. No entanto, se no curto prazo o trabalhador pode ter um ganho de salário real, no médio/longo prazo ele pode perder o emprego. Isso porque o câmbio valorizado transforma a estrutura produtiva e pode reduzir a quantidade e a qualidade dos empregos disponíveis, especialmente àqueles ligados ao setor industrial. 

Nesse contexto, cabe ao Estado Nacional arbitrar os interesses dos diferentes agentes e os benefícios/malefícios de curto e longo prazo que a variação cambial pode trazer. Em particular, a política cambial deve ter a difícil tarefa de administrar o dilemaentre a competitividade do setor produtivo doméstico e o poder de compra do trabalhador assalariado. Muitos exemplos históricos mostraram a importância da taxa de câmbio como instrumento estratégico para a diversificação da estrutura produtiva, aumento da produtividade sistêmica, aendogenização da inovação tecnológica e o provimento de empregos urbanos de qualidade. Já no caso brasileiro, nos últimos 25 anos, a agenda de curto prazo foi predominante, assim como o uso recorrenteda taxa de câmbio como instrumento de controle da taxa de inflação, à custa de uma melhor e mais dinâmica estrutura produtiva. 

* Pedro Rossi, professor do Instituto de Economia da Unicamp

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