Jornal do Brasil

Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Pedro Rossi

Krugman e os impactos da política monetária americana no Brasil

Em palestra no Brasil, o premio Nobel de economia, Paul Krugman, voltou a se posicionar contrariamente à retórica da guerra cambial e em defesa da política americana de afrouxamento monetário.Segundo Krugman, o banco central americano não tem tempo para prestar atenção no que acontece lá fora, o termo guerra cambial é um completo equívoco eos brasileiros devem parar de se preocupar com essa “bobagem”. A postura do notável economista lembra o secretário do Tesouro Americano, John Connally, que reagiu aos ataques à política monetária americana afirmando que o “dólar é a nossa moeda, mas o seu problema”.

Passaram-se mais de três anos desde que o Ministro Guido Mantega proferiu a frase, reproduzida pelos noticiários internacionais, de que “vivemos uma guerra cambial”. Naquela época, a moeda brasileira estava se apreciando em relação ao dólar, impulsionada pelos fluxos financeiros de capital e pela especulação nos mercados de derivativos. O diagnóstico era que o afrouxamento monetário americano aumentou a liquidez global, incentivou a saída de capitais da economia americana e provocou volatilidade e bolhas de preços em diversos mercados como o mercado de moedas. Segundo o ministro, a taxa de câmbio brasileira sofria o impacto das operações de carry trade, que consiste em um investimento inter-moedas onde se forma um passivo (ou uma posição vendida) na moeda de baixas taxas de juros e um ativo (ou uma posição comprada) na moeda de juros mais altos.

Pode-se dizer, ao contrário do que pensa Krugman, que a retorica da guerra de moedas e do tsunami monetário teve serventia naquela determinada conjuntura. Pois, ao chamar a atenção para os efeitos da política monetária americana, as autoridades brasileiras evidenciaram as disfuncionalidades do sistema monetário internacional e seu caráter assimétrico. Ou seja, a política monetária americana é, sim, objeto de preocupação de todas as nações integradas ao sistema internacional. O uso do dólar como a moeda do comércio internacional, da denominação da riqueza financeira e da acumulação de reservas dos bancos centrais faz do Federal Reserve uma espécie de banco central do mundo, capaz de determinar a liquidez do sistema internacional e a taxa de juros básica que serve de referência para sistema.

Dessa forma, naquela conjuntura,a retórica da guerra cambial legitimou o uso de instrumentos de regulação macroprudencial, de controles de fluxo de capital e também uma preocupação genuína com a estrutura produtiva doméstica, que sofria as consequências da apreciação cambial.A lógica por detrás do discurso,longe de acusar um mau comportamento do governo americano, era de apontar que em um sistema financeiro hierárquico e disfuncional, os países emergentes sofrem os efeitos das políticas monetárias do centro e assim devem tomar medidas de autodefesa. De fato, nos círculos financeiros e nas instituições multilaterais, a retórica contribui para a aceitação dos controles de fluxo de capital, do IOF sobre os derivativos e de outras medidas regulatórias que estava sendo implementadas.

Por outro lado, também têm razão os economistas Dani Rodrick e Arvind Subramanian que argumentam que essa retórica se transformou em uma “narrativa de vitimização” dos países emergentes - e do Brasil em particular - na medida em que,no momento de inversão da política monetária americana, também se inverteu a lógica dos argumentos. Ou seja,a queixa por conta do excesso de capital se tornou mais recentemente uma estranha lamentação decorrente da fuga de capitais. E, diferentemente do discurso do tsunami monetário que foi acompanhado de corajosas medidas regulatórias, à identificação da política monetária americana como a causa da recente turbulência e desvalorização da moeda brasileira deu lugar a uma tímida retirada desse aparato regulatório.

Nesse sentido, o debate sobre a política monetária americana e seus efeitos (guerra de moedas, tsunami monetário, fuga de capitais) deve integrar uma discussão mais estrutural (e menos conjuntural) sobre as assimetrias do sistema monetário, sobre o papel do dólar e da especulação no sistema financeiro internacional. Para além do plano da retórica, a solução para amenizar os efeitos da política monetária americana sobre a economia brasileira é uma regulação mais adequada - e mais permanente - do sistema financeiro doméstico, em particular do mercado de câmbio. Deve-se reconhecer que a vulnerabilidade da economia brasileira à política monetária americana não é obra do destino, mas decorre do grau de abertura financeira de nossa economia e de um mercado de câmbio altamente permeável à especulação financeira. Da mesma forma, seria saudável para o debate econômico se Krugman reconhecesse os impactos perversos da política monetária americana em países como o Brasil, tanto nos seus momentos expansionistas quanto contracionistas. 

Tags: capitais, causa, financeiro, impactos, internacional, retirada

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