Jornal do Brasil

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

Pedro Rossi

O carnaval de rua e a economia de mercado

Pedro Rossi*

Uma coluna de economia às vésperas do carnaval é um tanto despropositada. Por isso, mesmo correndo o risco de ser superficial e desagradar simultaneamente economistas, antropólogos e foliões, vale arriscar algumas ideias sobre a relação entre o carnaval e a economia de mercado.

Em sua essência, o carnaval de rua brasileiro é uma festa que contrasta com a lógica capitalista de organização social. A ocupação dos espaços públicos, a ausência de hierarquias, as iniciativas coletivas que organizamos blocos e as interações despretensiosas entre os foliões divergem da lógica do privado, dos empreendimentos individuais, da finalidade do lucro e das relações sociais mediadas pelo interesse próprio. O carnaval é a festa da transgressão, não somente dos costumes morais, mas também da nossa sociabilidade cotidiana.

O capitalismo é um sistema agregador do ponto de vista social, capaz de aglutinar pessoas em torno de uma rede de produtores e consumidores de bens e serviços que se organiza local e globalmente. Mas essa forma intensa de integração social é determinada pelas relações de produção e mediada pela troca de mercadorias. Por exemplo, todos os dias fazemos uso de produtos que são resultado do trabalho de pessoas que nós não conhecemos e também interagimos diretamente com os outros motivados pelas relações de troca de mercadorias, desde a compra na farmácia, do pedido ao garçom até a conversa com o chefe.

A legitimação do mercado como instância organizadora da sociedade tem efeitos positivos de aumentar a capacidade de produção e de disponibilizar à população, ou parte dela, os benefícios dos avanços tecnológicos. Mas, por outro lado, difunde uma lógica de sociabilidade que passa pela valorização do indivíduo em detrimento do coletivo e dos interesses privados em detrimento dos interesses públicos. Isso com base na justificativa, que remete ao Adam Smith, que a busca pelo interesse próprio promove o bem estar social.

Já o carnaval de rua é o espaço da não mercadoria e da diluição das relações de mercado. Nele, o incentivo do folião difere do incentivo do indivíduo racional dos livros de microeconomia. A motivação carnavalesca é a busca por um tipo específico de libertação das emoções reprimidas pelo cotidiano, que passa pela mimetização coletiva de um comportamento expansivo que, diriam alguns economistas, configura um comportamento de manada. No carnaval de rua, a festa é uma construção coletiva - e não um empreendedorismo individual - que cria um ambiente de frenesi social onde todos têm direito a uma alegria fugaz, como cantou Chico Buarque.

As pessoas se reúnem fora de suas posições sociais e substituem seus uniformes e roupas de marcas por fantasias que são capazes de inverter as relações tradicionais de hierarquia, de poder e de status social e de aplicar uma maquiagem sobre as desigualdades sociais, como já observou Roberto Da Matta.Só no carnaval a moça pobre se torna uma rainha e o menino rico se fantasia de lixeiro. E tampouco a interação entre a rainha e o lixeiro, e dos foliões em geral, passa por algum tipo interesse capitalista. Na folia, o indivíduo perde suas referências de identidade e se mistura com a multidão para viver um momento de irracionalidade coletiva.

Evidentemente, a sina do capitalismo de penetrar nas várias esferas da sociedade e de transformar tudo em mercadoria se apodera de parte do carnaval,que se transforma em negócio, atende aos interesses de patrocinadores, seleciona e elitiza o público pela venda de abadás, pelas festas nos clubes, etc. Contudo, ainda persiste nas ruas das cidades brasileiras, o carnaval genuíno e espontâneo que constitui um espaço de resistência ao movimento de mercantilização das esferas sociais promovido incessantemente pela economia de mercado. Por fim, o carnaval cria um novo espaço de sociabilidade que é efêmero, masque consegue dar uma injeção de ânimo em boa parte do povo brasileiro. Afinal, como escreveu Machado de Assis, o carnaval é o momento histórico do ano. Bom carnaval a todos!

*Pedro Rossi é Professor Doutor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon/UNICAMP)

Tags: capitalismo, Carnaval, folia, hierarquia, maquiagem, pobre

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