Jornal do Brasil

Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017

País

"Nem tenho amigo com R$ 51 milhões em apartamento”, diz Janot

Ex-PGR comenta ataques e afirma que não criminalizou a política. "Criminalizei os bandidos"

Jornal do Brasil

O ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot afirmou que sabe que sofrerá ataques como reação às denúncias que apresentou contra políticos importantes, principalmente o presidente Michel Temer, mas frisou que não é ele que tem "amigo com R$ 51 milhões em apartamento."

“Vão tentar usar todo mundo e tudo contra mim… Tudo é possível, vão tentar desconstituir a figura do investigador”, diz, emendando: “Não levei dinheiro do Miller nem autorizei ninguém a receber mala de dinheiro em meu nome. Nem tenho amigo com R$ 51 milhões em apartamento”. Ele também nega que tenha "exagerado" nas acusações: "Não criminalizei a política. Criminalizei os bandidos". As declarações foram dadas em entrevista ao Correio Braziliense

Janot também comentou por que não foi à posse da nova procuradora-geral da República, Raquel Dodge: “Quem vai em festa sem convite é penetra”. O procurador revela que não foi convidado nem mesmo para transmitir o cargo. Se fosse ao auditório, teria de procurar um assento. Ele conta que não havia sequer uma cadeira reservada. Mas garante que não se sentiria constrangido em dividir a cena com políticos que denunciou, como o presidente Michel Temer. “As pessoas que têm de se sentir constrangidas”, aponta. 

"Nem tenho amigo com R$ 51 milhões em apartamento”, diz Janot
"Nem tenho amigo com R$ 51 milhões em apartamento”, diz Janot

O ex-PGR falou também do fato de Dodge não ter mantido a equipe da Lava Jato na PGR: "Em tese, todos estão preparados para esse tipo de trabalho. É claro que as pessoas têm que trabalhar com quem têm afinidade. Isso é normal. Eu me espantei porque havia ofício formal, com convite para que toda a equipe da Lava-Jato continuasse. Existia um ato formal dela. Houve uma conversa com o pessoal da equipe, em que ela disse novamente que todos estavam convidados. Depois, ela começou a desconvidar."

Janot também comentou sobre o polêmico caso da JBS: "Existem estratégias de defesa. Quando o fato é chapado, quando o fato é mala voando, são R$ 51 milhões dentro de apartamento, gente carregando mala de dinheiro na rua de São Paulo, gravação dizendo “tem que manter isso, viu?”, há uma dificuldade natural para elaborar defesa técnica nesses questionamentos jurídicos. E uma das estratégias de defesa é tentar desconstruir a figura do acusador. É assim que eu vejo. De repente, passo a ser o vilão da história, o dito vilão da história, porque há necessidade de desconstituir a figura do acusador. O que fizeram comigo vão fazer com outros. Tenha certeza absoluta." 

Sobre as denúncias envolvendo o ex-procurador Marcelo Miller, Janot destacou: "Existe uma investigação em curso, mas, se ele fez isso, foi sem o nosso conhecimento. E se fez sem o nosso conhecimento, ele não pode contaminar um ato que é nosso. Se ele fez, não está comprovado ainda, vai ter que responder por isso."

O ex-PGR também comentou sobre as denúncias do procurador Ângelo Goulart: "O caso do Ângelo (Goulart) está investigado, ali eu me senti traído, com certeza. O Ângelo trabalhava no eleitoral, nem no mesmo prédio ficávamos. Quando foi chegando ao fim do mandato, como tinha interesse de permanecer em Brasília, ele perguntou se poderia ser designado para a força-tarefa da Greenfield, da PRDF."

Janot confirma que vomitou quatro vezes ao tomar conhecimento desses fatos relacionados ao procurador Ângelo Goulart. "É muito triste isso de prender um colega. Tem um crime militar que a gente chama de perfídia. Perfídia é o sujeito que é do teu grupo e que vende esse grupo para o inimigo. Ele passa a ajudar o inimigo a te dar tiro. Esse é o sentimento que deu na gente. A situação é muito ruim, sentir que contaminou."

Sobre a morte o ministro Teori Zavaski, do STF, que era o relator da Lava Jato, Janot admitiu que pensou em assassinato. "No começo, claro. Mas a investigação foi feita por nós, pelo MPF, em Angra dos Reis, e estamos seguros de que foi acidente mesmo.

Ainda segundo Janot, os novos áudios gravados por delatores do grupo J&F com conteúdo capaz de anular o acordo dos executivos Joesley Batista e Ricardo Saud não foram enviados à Procuradoria-Geral da República por engano. Segundo ele, tratou-se de uma “casca de banana”. "Na leitura que fizemos, isso não poderia ter sido um equívoco, foi uma casca de banana mesmo. O ministro Fachin lacrou os 11 áudios, nem nós conhecemos. Eles, com medo de um dos 11 áudios ser um dos que estão recuperados pela polícia, colocaram um jabuti. Lá na frente, quando estourasse o negócio, diriam que entregaram e nós ficamos calados. É óbvio que foi uma armadilha. E como desarma uma armadilha? Coloca luz sobre ela. Santa Carol! Se ela não fosse tão CDF, poderia ter passado", disse, referindo-se à procuradora Ana Carolina Rezende. 

Janot conta que no grupo da Lava-Jato, todos ficaram ouvindo os áudios, e esta  procuradora ficou com uma parte das gravações. "Tinha um anexo que envolvia uma pessoa cujo processo está em sigilo, o codinome era Piauí, com quatro áudios. O maldito áudio Piauí 3 não tinha nada a ver com esse anexo. O Piauí 1, 2 e 4 tinham a ver, eram conversas com determinado senador. A Carol, domingo de manhã, manda mensagem no nosso grupo dizendo que tinha um áudio jabuti, contrabando, de quatro horas, falando de Miller, de várias coisas. Viemos para cá, passamos a tarde aqui. Era um jabuti, um anexo de contrabando colocado sem nenhuma remissão de que não tinha nada a ver com Piauí. A PF disse que tinha recuperado 7 áudios, que estão sob sigilo, porque o advogado dos colaboradores disse que boa parte é conversa entre advogado e cliente. E que a perícia da PF teria recuperado mais 11 áudios." 

Tags: acusação, janot, jbs, pgr, temer, áudios

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