Jornal do Brasil

Sábado, 22 de Julho de 2017

País

Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (V) 

Textos do político e filósofo romano do ano 63 a.C. inspiram momento atual

Jornal do Brasil

Marco Túlio Cícero foi um advogado, político, escritor, orador e filósofo da República Romana eleito cônsul no ano de 63 a.C. Ele produziu uma série de textos sobre como conduzir um país, com dicas a respeito de leis, poder, liderança, amigos e inimigos, persuasão, compromisso, dinheiro, imigração, guerra, corrupção e tirania. 

Jornal do Brasil dá continuidade à publicação de trechos dos textos, que inspiram o momento atual do país.

Cícero fala sobre política:

Quando um pequeno grupo de pessoas controla uma população por causa de sua riqueza ou natalidade ou alguma outra vantagem, eles são simplesmente uma facção, mesmo se considerados uma aristocracia. Por outro lado, se a multidão ganha poder e governa um país de acordo com seus desejos momentâneos, isto é chamado de liberdade, ainda que de fato seja caos. Mas quando há uma tensão entre pessoas comuns e a nobreza, com cada um dos homens e grupos temendo um ao outro, então nenhum deles pode dominar, e um ajustamento tem que ser alcançado entre a população e os poderosos.

Marco Túlio Cícero
Marco Túlio Cícero

Em uma carta a um amigo, Cícero comenta sobre princípios:

Seu eu tivesse visto o Estado ser comandado pelo tipo de vilões e biltres que comandaram as coisas durante o tempo de Cinna ou em outros períodos nefastos de nossa história, nenhuma recompensa poderia me atrair para ficar junto a eles (recompensas significam pouco para mim, não importa o quanto possam me beneficiar pessoalmente), nem qualquer ameaça (embora em deva admitir que até mesmo o melhor de nós pode ser movido pelo medo de um perigo pessoal). Mas o mais poderoso homem em Roma foi Pompeu, que recebeu toda a honra e glória pelo melhor serviço prestado ao Estado e por suas vitórias militares. Eu tenho apoiado ele desde que eu era um homem jovem e também quando eu servi como pretor e cônsul. Ele, por sua vez, me apoiou com seu conselho e opinião no senado, assim como você fez, me ajudando a alcançar meus próprios objetivos. Eu também tive o mesmo inimigo em Roma que ele teve. Considerando tudo isto, eu não teria medo de ganhar uma reputação de inconsistente se, de vez em quando, em certos discursos, eu convidasse outros a prestarem suporte a ele, considerando que ele foi um homem tão importante e um benfeitor pessoal...

Então agora você sabe minhas razões para defender os casos e causas e por que eu conduzi a política da forma que fiz. Eu quero deixar claro que faria exatamente as mesmas coisas se eu não tivesse me sentido pressionado por eles. Eu não era ingênuo o suficiente para lutar contra uma aliança tão formidável nem queria negar o direito de cidadãos influentes de exercerem o poder, mesmo que isto me fosse possível. Na política, é irresponsável tomar uma posição inabalável enquanto as circunstâncias estão sempre envolvidas e homens bons mudam de ideia. Agarrar-se à mesma opinião custe o que custar nunca foi considerado uma virtude entre homens de estado. No mar, é melhor correr antes de uma tempestade se o seu navio não chegar ao porto. Mas se você pode encontrar segurança indo de um lado para o outro, apenas um tolo manteria um trajeto direto em vez de mudar a direção e chegar em casa. Do mesmo modo, um estadista sábio deveria faz da realização da paz com honra seu objetivo final, como eu tenho dito frequentemente. É a nossa visão que deve permanecer constante, não nossas palavras. 

Mais tarde, sob outras circunstâncias, Cícero fala, também em carta, sobre a importância do compromisso:

Agora, por Hércules, eu peço que você me ajude com sua abundante sabedoria em todas as coisas e para colocar todo o amor que você sente por mim neste problema específico: me ajude a decidir o que eu devo fazer! Há a iminência de uma grande batalha, talvez a maior que a história já conheceu, a menos que o mesmo deus que inesperadamente nos colocou na guerra com os Partas tenha piedade da República. Não há escapatória deste conflito que está por vir, e assim eu vou enfrentar isto junto com todos os outros. Eu não peço que você considere isso, mas eu imploro que você me ajude com minha situação particular. Você não vê que é graças a você que eu sou próximo de Pompeu e César? Eu queria ter escutado suas palavras mais gentis desde o início, mas, como Homero diz, você não conseguiria influenciar o coração dentro do meu peito. Enfim você me persuadiu a fazer as pazes com Pompeu por causa de tudo o que ele fez por mim, e com Cesar devido ao poder dele. Ah, como eu trabalhei para unir os dois e assim ganhar a afeição de ambos, pelo menos o quanto qualquer homem poderia ter. Nós calculamos que se eu ficasse amigo de Pompeu eu não teria que deixar minhas crenças políticas de lado e que, considerando que ele era um aliado próximo de César, eu deveria trabalhar com este último da mesma forma. Agora você e eu podemos ver que a grande batalha entre eles está perto de começar. Cada um deles conta comigo como amigo, a menos que um deles esteja apenas fingindo, mas eu não acredito que Pompeu duvide da minha lealdade, eu genuinamente aprovo mais as políticas dele do que as de César. Por outro lado, eu acabo de receber cartas dos dois, que chegaram ao mesmo junto com a sua, assegurando que não há ninguém no mundo que eles valorizam mais do que eu. 

Então, o que eu devo fazer? ... Não há mais espaço para sentar em cima do muro. 

Confira as publicações anteriores:

>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país

>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (II)

>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (III)

>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (IV)

Tags: governo, legislação, liderança, poder, república, roma

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