Jornal do Brasil

Domingo, 24 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País

Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (III)

Textos do político e filósofo romano do ano 63 a.C. inspiram momento atual

Jornal do Brasil

Marco Túlio Cícero foi um advogado, político, escritor, orador e filósofo da República Romana eleito cônsul no ano de 63 a.C. Ele produziu uma série de textos sobre como conduzir um país, com dicas a respeito de leis, poder, liderança, amigos e inimigos, persuasão, compromisso, dinheiro, imigração, guerra, corrupção e tirania. 

Jornal do Brasil dá continuidade à publicação de trechos dos textos, que inspiram o momento atual do país.

Amigos e inimigos

Cícero escreveu uma carta ao amigo Metelo Céler, que tinha um irmão notavelmente hostil a Cicero. Confira:

De Marco Túlio Cícero, filho de Marco, para Quinto Metelo Céler, filho de Quinto, Procônsul.

Eu espero que esteja tudo bem com você e o exército.

Você me escreveu que, por causa do sua amizade e restauração de boas relações entre nós, você nunca esperou que eu te ridicularizasse. Eu não estou exatamente certo do que você quis dizer com isto, mas eu acredito que alguém possa ter reportado a você o que eu disse no senado. Eu declarei na ocasião que haviam muitos ressentidos com o dato de que eu salvei a República. Eu mencionei que um parente seu, para quem você não poderia dizer 'não', tinha te convencido a suprimir o que você queria dizer em meu favor no Senado. Eu também acrescentei que você e eu dividimos a função de de salvar o país, para que então eu protegesse Roma de traições e traidores internos,  dentro das muralhas da cidade, enquanto você guardava o resto da Itália de inimigos armados e conspirações ocultas. 

Marco Túlio Cícero

Eu prossegui dizendo que a nossa parceria em tarefa tão gloriosa e nobre foi minada por um membro da sua família que temia que você me honrasse por algum gesto de boa vontade mútua já que tantas vezes o elogiei em termos calorosos e brilhantes...

Deixe-me lhe assegurar que não ataquei seu irmão, mas simplesmente respondi ao ataque dele contra mim. Meu respeito por você não, como você escreveu, oscilou como tem permanecido constante, até mesmo quando você se distanciou de mim. Até mesmo agora depois que você me escreveu uma carta tão mordaz, eu posso responder que não apenas eu perdoo suas palavras ásperas como também o elogio por sua raiva. Eu também tenho um irmão que que amo, e meus sentimentos por ele me guiam nesta questão. Eu te peço igualmente que entenda meus sentimentos. Você deve considerar que quando seu irmão me atacou com tamanha amargura e sem qualquer motivo, eu não podia simplesmente me entrar para ele. Pelo contrário, em tal situação eu tinha todo o direito de esperar suporte tanto seu quando do seu exército.  

Eu sempre desejei ser seu amigo e eu tenho tentado te fazer entender que a nossa conexão significa o mundo para mim. Meus sentimentos calorosos por você não mudaram e não vão mudar, enquanto você queira. Por causa do meu afeto contigo, eu preferiria muito mais abandonar minhas desavenças com seu irmão do que permitir que o meu desentendimento com ele prejudique a nossa amizade. 

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O segundo texto é uma carta escrita ao seu grande amigo Ático, ou Atticus, um ano depois, e fala sobre a situação política de Roma. 

Oh Atticus, desde sua partida tanta coisa aconteceu que eu deveria escrever a respeito, mas eu não podia arriscar de que uma carta se perdesse ou fosse interceptada e aberta. Você deveria saber que eles não me deixaram ser o primeiro a falar no encontro do senado e como alternativa colocaram escolheram Pisão, que trouxe tanta paz (hah!) para a terra de Alóbroges na Gália. O resto da câmara murmurou sobre este insulto contra mim, mas eu realmente não me importo. Pelo menos agora eu não tenho que ser amável com aquele colega terrível, e estou livre para me manter contra sua agenda política. Em qualquer caso, ser o segundo da fila para falar é quase tão prestigioso quanto ser o primeiro, e isto me livra de me sentir sujeitado ao cônsul no poder. Cátulo falou em terceiro e, se você ainda acompanha, Hortênsio foi o quarto. 

Nosso cônsul é um idiota cm uma mente perversa. Ele tem uma maneira cruel com ele, que faz com que as pessoas riam mesmo que ele não tenha nenhuma sagacidade. O rosto dele é definitivamente mais engraçado do que as piadas dele. Mas pelo menos ele não tenta se envolver em decisões políticas e tem pouco a ver com a parte conservadora. Ele tem menos o desejo de ser útil para o país nem a coragem de causar danos reais. Seu companheiro cônsul, contudo, me trata com grande respeito e é um defensor fervoroso da causa conservadora. 

Só uma pequena desavença entre os cônsules,  que eu temo que possa se espalhar como uma doença. Eu suponho que você tenha escutado como, no festival das mulheres da Boa Deusa, realizado na casa de César, um homem entrou vestido com roupas femininas. As Virgens de Vesta tiveram que repetir todo o sacrifício. Depois Quinto Cornifício (ele não era um do nosso grupo, em caso de você estar perguntando) trouxe a questão antes do senado. Isto foi encaminhado de volta aos seguidores de Vesta e pontífices, que formalmente pronunciaram todo o caso como um sacrilégio. Então os cônsules e o senado apresentaram um projeto de lei concordando com o veredito, depois do qual César se separou de sua mulher. Como Pisão é um grande amigo de Clódio, ele está trabalhando por trás dos panos para derrotar o projeto que ele mesmo propôs como um solene decreto senatorial sobre religião. Messala está adotando linha dura neste caso. Clódio está dissuadindo toas as pessoas respeitáveis a não se envolver com o tema. Grupos de malfeitores organizados estão se formando. Eu estava com a cabeça tão dura quando a do velho Licurgo, mas estou perdendo o interesse. Catão continua falando sobre isso, como é típico dele. Mas chega de tudo isto. Além do mais, eu temo que a indiferença em relação ao tema por bons homens e a atenção prestada a isto por causadores de problemas pode ainda causar o mal a República. 

Aquele seu amigo - você sabe quem, aquele que você disse que começou a me elogiar apenas quando ele não ousava mais me criticar  - bem, agora ele age como se fosse meu melhor amigo. Ele me abraça, declara seus calorosos sentimentos por mim, e me elogia abertamente, mas esconde o ciúmes bem abaixo da pele. Ele não tem nenhuma graça, nenhuma sinceridade, nenhum conhecimento político, nenhuma honestidade, nenhuma coragem, e nenhuma generosidade - mas eu vou entrar em toda esta questão em outro momento.

Confira as publicações anteriores:

>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país

>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (II)



Tags: governo, legislação, liderança, poder, república, roma

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