Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Abril de 2017

País

Tiradentes: da inconfidência do século XVIII à crise política do século XXI

Historiadores trazem à tona a trajetória do herói e traçam um paralelo com atual momento brasileiro

Jornal do BrasilRebeca Letieri *

“Em que medida a História nos ajuda a refletir de que forma as relações de força são mobilizadas pelo interesse de certos grupos?”, questionou Renato Franco, professor de História do Brasil colonial da Universidade Federal Fluminense (UFF). Para explicar o presente, e pensar no futuro, historiadores defendem que é preciso conhecer e entender o passado. Uma tarefa nada simples e nem sempre fácil. É o caso de Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, um herói nacional cuja data se celebra neste 21 de abril. Mas como e por que ele se tornou herói, e de que forma o século XVIII deve ser levado em conta em se tratando do atual contexto político, são os grandes questionamentos feitos por alguns historiadores e pelo diretor do filme Joaquim, exibido no Festival de Berlim e que chegou aos cinemas nesta quinta-feira (20), ao Jornal do Brasil

“O senso comum acredita que a inconfidência foi deflagrada por conta da derrama [cobrança de impostos], mas, na verdade, a derrama foi apenas o pretexto para dar início à inconfidência mineira. O verdadeiro motivo é que a elite local ia ser substituída por pessoas ligadas ao novo governador enviado pela coroa portuguesa”, contou Mariana Gonçalves, mestre em História pela UFF e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), acrescentando: “A ocupação desses postos não implicava apenas um poder político. Eles estavam atrelados à possibilidade de grandes ganhos econômicos através da corrupção e contrabando. A partir do momento em que a elite é afastada do poder, ela começa a se sentir lesada, e é aí que a articulação contra a coroa se inicia”.  

A historiadora utiliza os exemplos para traçar um paralelo com o atual contexto político no país, no que diz respeito às relações de forças e interesses de pequenos grupos privilegiados. “Esses exemplos demonstram como os postos políticos já eram utilizados para benefícios próprios”, apontou. 

Outra questão atual, levantada por Mariana, é que a inconfidência mineira não chegou a ser deflagrada, pois Joaquim Silvério dos Reis delatou o esquema para as autoridades mineiras em troca de suspensão de pena. “Ele faz uma espécie de delação premiada, como chamaríamos hoje em dia, para que ao entregar a revolta inconfidente e o paradeiro de Tiradentes, ele fosse perdoado com relação às suas dividas”, explicou Mariana.

Historiadores explicam que a inconfidência acontece numa tentativa de rever, do ponto de vista político, a força com que o estado português atua em Minas Gerais. Mas em boa medida, a Inconfidência é muito circunscrita a certas elites do interior da então capitania. 

“A Inconfidência Mineira é um movimento que procura manter privilégios de certas elites políticas e econômicas da capitania de Minas Gerais. Essa é uma das mais nefastas heranças que temos. A incapacidade de pensar o estado como um serviço de bem público”, acrescentou Renato Franco, para quem essa herança não deve ser interpretada como uma condenação da história. 

Ele explica que a corrupção é um mal que atravessa diversos países ocidentais há anos: “Existe certo pensamento de que nós [brasileiros] temos uma herança corrupta como se fosse um mal do nascimento, e isso gera uma interpretação imobilista, como se fossemos condenados a ser corruptos. Não podemos estabelecer como causa da corrupção hoje o que aconteceu mais de 200 anos atrás. Isso só serve a uma visão conservadora da política. Temos que superar essa visão de maneira menos anedótica e de maneira mais útil para pensar o passado, presente e futuro”, concluiu. 

Tiradentes

O feriado de 21 de abril lembra o dia em que Tiradentes foi enforcado e esquartejado pela coroa portuguesa. Porém este é considerado, pela unanimidade dos historiadores, uma figura controversa. Para muitos, herói; para outros, nem tanto. Mas o fato é que o mártir foi criado na República, com a intenção de ressignificar a identidade de um novo país independente de Portugal. 

“Ele, hoje, é alguém que desperta o sentimento ambivalente dos historiadores. Dizem que Joaquim era um homem muito rico, com muitos bens. Nunca foi uma figura pobrezinha. A birra com a coroa portuguesa começa quando ele fica insatisfeito com o posto militar de alferes no Destacamento de Dragões”, contou a historiadora Mary del Priori. 

Quarto de nove filhos de pai português e mãe brasileira, Joaquim ficou órfão aos 11 anos, e foi criado pelo tio cirurgião dentista. Se tornou multitarefa e trabalhou, entre outras atividades, como comerciante, tropeiro e dentista, de onde surgiu seu apelido. Integrou os Inconfidentes Mineiros, como é denominada pela história a elite de Minas Gerais formada por proprietários rurais, intelectuais, clérigos e militares. Apesar de descontentes com o domínio da coroa portuguesa, os Inconfidentes não possuíam ideais homogêneos. 

Da mesma forma não existe registro da aparência de Joaquim Xavier. Ele é retratado, tanto na República quanto nos atuais livros de história, com uma imagem próxima a de Jesus Cristo. “Essa imagem nunca existiu. Ele morreu com a cabeça raspada e sem barba, porque era militar, e para evitar piolho”, contou Mary, finalizando: “Para os republicanos, era preciso combater a ideia do império, então a imagem do Tiradentes herói interessava”.  

Os historiadores ressaltam que ele teria sido escolhido para o enforcamento devido à sua pouca influência se comparado aos outros. “Alguns inconfidentes degredados para África retornam para o Brasil após a independência e ocuparam cargos políticos”, acrescentou Mary. 

Para o diretor de cinema Marcelo Gomes, “Tiradentes era mais subordinado”. O filme Joaquim estreou nesta quinta-feira (20) em todo Brasil. Gomes reconta a história do inconfidente antes dele se tornar a figura política de Tiradentes, o herói nacional. “O que eu imagino é que as experiências de vida fizeram Joaquim mudar de paradigma”, contou o cineasta. 

Tiradentes é interpretado pelo ator paulistano Julio Machado. A história tem início com a imagem de sua cabeça espetada diante de uma igreja. Na sequência, o filme retrocede ao tempo em que o líder fazia suas expedições pelo interior de Minas Gerais, em busca de contrabandistas de ouro.

A partir daí, Gomes constrói sua ficção. “Eu não queria que tivesse um ar de relato histórico e romance. Queria que fosse mais uma crônica do século XVIII”, explicou. Ele conta que para isso estudou as relações que existiam no Brasil colonial, e separou um momento muito específico da vida de Joaquim dentro dessa sociedade. Seu desejo era investigar a gênese do herói. “Ele não foi escolhido pelos deuses. Qualquer pessoa pode se tornar herói. Quando eu abria os livros de história quando criança, confundia Tiradentes com Jesus Cristo. Eu quis transformá-lo em um homem comum que realizou um ato heroico”, completou.

O filme estreou em fevereiro no 67º Festival Internacional de Cinema de Berlim e seu elenco chamou a atenção internacional para a crise política do Brasil. Na disputa pelo Urso de Ouro, Gomes fez um protesto contra o governo de Michel Temer durante uma conversa com a imprensa. O diretor leu uma carta em inglês, assinada por mais de 300 pessoas que atuam no setor audiovisual e estavam presentes em Berlim. 

"Estamos vivendo uma grave crise democrática no Brasil. Em quase um ano sob esse governo ilegítimo, direitos da educação, saúde, trabalhistas foram duramente atingidos. Junto com todos os outros setores, o audiovisual brasileiro, especialmente o autoral, corre sério risco de acabar", diz o trecho inicial do texto.

Com três filmes históricos no currículo, Gomes diz que o cinema e a ficção deviam se voltar mais para os momentos de grandes rebeliões no Brasil. “Porque é nesse momento que você detecta as fraturas sociais do país. E as fraturas do Brasil colonial estão presentes até hoje”, explica. 

Para o cineasta, “todo artista é um homem do seu tempo”. O filme Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade, lançado em 1972, em plena ditadura civil-militar. Ele reatualizava o contexto político mineiro para falar, de forma velada, da repressão. Gomes não esconde que o atual contexto político no Brasil o contaminou para dirigir o filme Joaquim. “Quando você vai ao psicanalista, ele quer saber da sua infância para entender sua crise atual. Se nos voltarmos para o nosso passado, e observarmos as fraturas sociais, entenderemos melhor o nosso presente”, finalizou. 

* do programa de estágio do JB

Tags: cinema, Corrupção, feriado, filme, joaquim, monarquia, política, república, seculo dezoito, tiradentes

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